Existe uma filosofia na Bíblia?




Para Victor Barcellos

Pensar a Bíblia parece ser uma exigência forte do mundo moderno – e não apenas para Cristãos. Trata-se, para Cristãos, de uma possível maneira de “atualizar a fé”, de “contextualizá-la” e reinseri-la na cultura, na visão de mundo moderna. Trata-se, para os céticos, de melhor compreender as raízes e tradições que formataram, em grande medida, nossa mentalidade ocidental.
Entre essas tentativas, o embate – ridículo – entre evolucionistas e criacionistas, ou aquele entre defensores de um arqueologismo bíblico (dessas pessoas que buscam a arca de Noé) e defensores de um simbolismo hermenêutico (tudo é simbólico, seja lá o que se entenda por “símbolo”).


Além dos embates, temos também as tentativas de encontrar os princípios de tudo na Bíblia: desde os princípios da mecânica dos fluídos até os da contabilidade dos grupos de empresa, tudo está lá, na Bíblia. Não podemos nos esquecer de mencionar a clara origem bíblica dos spoilers, naquele tempo chamados de “profecias”.
Cedo ou tarde, porém, todas essas tentativas não passam do exercício de imprimir, na Bíblia, a coloração de alguma filosofia específica, ou de extrair, da Bíblia, a própria filosofia.


A Bíblia, porém, não é um livro de filosofia. Ela não se apresenta como tal, não intui ser um livro de filosofia e mais: quem nela buscar filosofia, pode se deparar com o engano.
Eclesiastes, o livro mais comumente associado com a filosofia, foi escrito aos idos de 9 séculos antes de Cristo, enquanto que Anaximandro, considerado o pai da filosofia, escreveu sua famosa e “única” sentença três séculos depois, na Grécia – e assim dizia o filósofo:

“De onde é a origem dos seres, também para lá decorre sua corrupção, conforme a necessidade. Pois [os seres] se concedem e se compensam reciprocamente, justiça pela injustiça, segundo a ordem do tempo”.

Os que possuem um mínimo de contato com a Bíblia sabem que ela não possui frases de efeito como essa; frases de difícil compreensão que condensam o pensamento como o faz a sentença de Anaximandro, inclusive porque o objetivo bíblico é, como bem define Paulo em sua segunda epístola a Timóteo, ensinar, exortar, corrigir e instruir em justiça.
Esse senso absolutamente prático das Escrituras, porém, não deve impedir de buscar, na Bíblia, associações que não sejam óbvias ou evidentes.


Um possível caminho a trilhar é o do paralelo entre a “Sofia” grega e a “Hakmah” hebraica – ambas palavras podem ser traduzidas por “sabedoria”, “entendimento” ou semelhantes.
Sofia e Hakhmah possuem algo em comum que raramente é notado – o amor à Sofia (filo-sofia), dizia Platão, nasce do espantar-se (“to thaumazein”, em grego, que também pode ser traduzido como “maravilhar-se”) e esse espanto seria, portanto, uma qualidade do filósofo.
Salomão nos diz, em seus provérbios, que o princípio da Hakmah é o temor ao Senhor. E o que seria esse temor?


Existe, nas Escrituras, alguma cena que melhor descreve o “temor” de estar diante do Senhor que a cena do espanto de Isaías maravilhado pela incandescente figura de Deus? (Isaías 6)
Prova maior de temor e espanto que o sonho de Jacó ou a epifania de Agar desesperada no meio do deserto?
O temor e o espanto andam em proximidade, mas não costumamos pensar na Sofia e na Hakmah como possíveis irmãs. Também não costumamos pensar no amor à Sofia grega como uma prima, um tanto quanto desagregada, do “amor à Hakhmah” que é pregado nos provérbios salomônicos.


Quando lemos, porém, o Salomão de Eclesiastes falando da Vaidade, pensamos apressadamente que ele se refere ao pecado preferido do Satã de Al Pacino (se você não assistiu à O Advogado do Diabo e não pegou a referência, meus pêsames).
Mas será que o Salomão, amante da Sabedoria, não estaria um passo além de um pessimismo tosco que lhe é atribuído com tamanha facilidade?
Não estaria Salomão se referindo, de alguma forma, ao mesmo tipo de problema posto pelos princípios da Filosofia grega? O problema do indeterminado (“apeiron”); o problema do que vai além da ordem frenética das coisas, além do cotidiano e das análises simplistas e se apresenta como um imobilismo indeterminado – o problema do ser?


Uma geração vai, outra geração vem, mas a terra para sempre permanece – parece que estamos na margem oposta do rio de Heráclito, o qual está sempre em constante mudança.
Mas será? A passagem do rio não seria, também, vaidade? Na fluidez das coisas, percebemos exatamente isso, a permanência de algo que não conseguimos apreender, nem pelo trabalho, nem pelo dinheiro, nem pelos prazeres da vida – essa é a principal mensagem de Eclesiastes e ela parece conversar, e muito, com as primeiras indagações filosóficas sobre o ser.

Afinal, a Vaidade (Habalim, em hebraico) de que tanto fala Salomão, não é a vaidade dos homens, porque não é a vaidade de homem algum, muito menos uma vaidade divina.
A Vaidade parece ser apresentada como o pano de fundo da vida, dos homens, do trabalho, dos prazeres; Vaidade como condição de passagem do tempo e – ao mesmo tempo – como aquilo que mostra que a passagem dos dias é, também... Vaidade.
Tempo de abraçar, tempo de se afastar – cabe ao sábio perceber que permanece a Vaidade.
A constância da Vaidade de Salomão – essa Vaidade que parece estar em todo tempo em todo lugar – lembra bastante a constância do Ser descrito por Parmênides nos primórdios da Grécia filosófica.


Mas Salomão não se contenta em desvendar a inusitada lógica da Vaidade. Apesar de amar a sabedoria mais que a tesouros, o sábio se remete sempre e ultimamente, a Deus – fonte diária e cotidiana de espanto na simplicidade dos rios que sempre correm para o mar.
Na sabedoria há enfado – mas ninguém diz que a ignorância é uma bênção verdadeira.
A Vaidade denunciada pelo sábio está aqui apenas para nos lembrar da nossa pequenez: muito bons ou muito maus, nossa memória será em parte apagada ou engolida pelo tempo, afinal, outros existiram tão grandes ou maiores que nós e, com certeza, outros virão.


E você será apenas a imagem no tempo daquilo que você foi – não se preocupe demais, portanto, e o que resta é pura Vaidade.
Longe de ser um chamado ao derrotismo, o livro de Eclesiastes é sutilmente messiânico.
Estaria aqui a verdadeira barreira entre a Bíblia e a filosofia? Talvez. Heidegger, um dos maiores pensadores do século XX, ao imergir na antiga filosofia grega, deu o veredito da modernidade: “apenas um deus pode nos salvar”.


O amor à sabedoria de Salomão não é nenhuma filosofia do ser, mas é um messianismo delicado.
Salomão, no último capítulo de Eclesiastes, ainda repete: Vaidade das Vaidades, tudo é Vaidade.
Salomão, porém, termina dizendo que Deus há de trazer seu juízo – em uma afirmação de cunho claramente messiânico, o livro de Eclesiastes parece se encerrar apontando para o 


Evento que descobre tudo o que se encontra encoberto pela Vaidade: Cristo.
As últimas palavras de Salomão lembram ainda a sentença de Anaximandro: justiça com injustiça, o juízo de Deus trespassa tudo o que está encoberto, seja mau, seja bom.
A ordem do Tempo passa a ser a ordem do fim dos tempos – o tempo da vinda do Messias.
A Vaidade de que tanto fala Salomão não deve, portanto, trazer desespero ou desconforto – não deve trazer náusea. Deve, pelo contrário, nos motivar a buscar o novo, pela vinda presente do Cristo vivo; deve nos motivar a buscar, inclusive, o pensamento novo e reanimado das Escrituras, no melhor espírito protestante de sempre retornar à Bíblia.
Afinal, por mais filosófica que possa ser a vinda do Messias, no final, a Bíblia continua sendo nada além de nosso guia de fé e prática.


Pedro da Conceição colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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