Faça seus amigos chorarem



ilustração: Ricardo Winter Bess




Seria fácil me ver chorar ao ler um livro ou uma reportagem. Difícil, ultimamente, tem sido me ver ler um livro. E também tem sido difícil alguém me ver chorar. A gente guarda o choro pra quem quer ouvir – e é fácil perceber que a maior parte do tempo ninguém quer ouvir você chorar. O choro, mais que o riso e o beijo, é uma marca indelével de uma boa amizade.


A passagem bíblica mais famosa sobre o choro está no capítulo 11 do evangelho de João, muito lembrada pela singeleza do versículo 35: Jesus chorou. Trata-se de demonstração inequívoca da sua amizade por Lázaro (e Marta e Maria). É quando ele vê o choro de Maria, e dos judeus que a acompanhavam, que ele se comove interiormente e fica conturbado, a ponto de também chorar.


A Bíblia de Jerusalém explica que o verbo usado para o choro de Maria é klaiein, ou lamentar-se. Jesus, porém, verte lágrimas, dakryein. Logo em seguida, Jesus ressuscita o amigo e, por causa, disso, diz-se que o conselho de judeus passou a procurar ocasião para matá-lo. Parece que, de um jeito literal demais, Jesus e Lázaro estão encenando Cícero: “o verdadeiro amigo vê o outro como a uma imagem de si mesmo. E assim, se fazem presentes os ausentes, fartos os necessitados, poderosos os fracos, e o que é mais difícil de crer, vivos os mortos. Tal é a honra a memória e a dor que sempre os acompanha dos seus amigos”.


Na história de Lázaro, vive literalmente o morto pela memória e dor do amigo. Surpreendentemente, não há outras passagens que mostrem Jesus e Lázaro se acabando de rir, ou compartilhando alegremente o pão – o que podemos supor que acontecesse, já que, afinal, não é disso que as amizades são feitas?


Certa vez, li uma entrevista do francês Jean-Bertrand Pontalis, que talvez dê alguma pista sobre o que consiste a verdadeira amizade, e por que é o choro mais importante que o riso. Nela, ele comparava a amizade e a relação amorosa. Dizia: "O amor visa à satisfação plena, um objetivo tão vago quanto inalcançável. (...) A amizade, por seu turno, nunca almeja a plenitude. Você não pode esperar tudo de um amigo, muito menos a perfeição, mas só uma amizade verdadeira é capaz de nos proteger das oscilações tumultuosas, da ambivalência intrínseca à relação amorosa.”


Não sei se porque tive amigos tão bons quanto o filósofo francês, sempre me vi muito nessas asserções. Talvez por não ter tido, em resumo, relações amorosas longas e sem tormentos, talvez por isso tenha tido bastante tempo para talhar amigos que me dessem essa proteção às oscilações tumultuosas do amor. No choro pelas frustrações das relações amorosas – todas elas, com as mulheres, com a família, com ideais e causas, com a religião – construí boas amizades.


Percebi ainda antes de ler a entrevista de Pontalis que nenhuma delas era suficientemente boa para ser final, definitiva. E aprendi que aquele relacionamento que te faz atravessar tormentas do amor não deve ser descartado quando deixa de ser completamente eficiente ou necessário. Diz o psicanalista francês: “Evidentemente, mesmo a amizade mais verdadeira não é feliz durante todo o tempo. Às vezes, podemos nos afastar, até por razões geográficas, ou ter disputas que superam a simples discordância a respeito deste ou daquele assunto. A distância e as fricções, no entanto, jamais significaram um rompimento definitivo com meus amigos."


Por vezes, e é doloroso perceber isso, as amizades não têm sequer reciprocidade total. A exigência de total reciprocidade não cabe num relacionamento que não se pretenda definitvo. Afinal, deve ser a relação entre amigos despretensiosa, e, se não pode apenas um deles se beneficiar dela, o que configuraria mero interesse egoísta, o que é incompatível com a boa amizade, também não faz sentido tornar-se a amizade um cálculo exato de vantagens equivalentes.


Afinal, se um amigo busca vantagens iguais às que dá, não estaria também se tornando mesquinho, numa aritmética de benefícios que a nenhum dos dois pode favorecer? Pois esses benefícios só podem ser auferidos quando vêm de bom grado – ao tornar-se um peso, como o amor fatalmente se torna, que vantagem teria a amizade sobre esse outro relacionamento? E como se curaria o amigo nas tormentas do amor, se é a própria manutenção do amigo um tormento?


Mas se não é prontidão para todo e qualquer momento, se não é a eterna temperança ou a virtude exercida com o próximo de forma infindável, ou sequer uma relação plenamente idônea, constante e duradoura, que define a boa amizade, o que nos resta?


Voltemos ao choro. Bom amigo é aquele que pode causar no outro o choro. E que, quando o choro vem, o amigo não quer esconder dele, mesmo que ele o tenha provocado. O versíulo 6 do capitulo 27 do livro de Provérbios atesta que “os golpes do amigo são leais, mas o inimigo é pródigo em beijos”. Confetes e palmas alimentam a soberba. Não há nenhum esforço em sorrir falsamente ou em dar likes no Facebook. Mas quem terá coragem de arriscar um raso relacionamento sem estresse com golpes de amigo? O bom amigo arrisca o próprio bem-estar pelo bem do outro. Jesus passa a ser perseguido até a morte justamente depois que traz da morte Lázaro.


Mas a história de amizade que mais me faz chorar é a de Davi e Jônathas. Ela nasce em circunstâncias estranhas: a Davi é prometido o trono que, por nascimento, deveria ser de Jônathas. O texto de Samuel parece ignorar completamente esse impeditivo para a amizade dos dois. Quando Saul deseja a morte de Davi e Jônathas o salva, ninguém parece lembrar que o filho do rei está tramando não só contra o próprio pai, como contra o próprio trono. Jônathas dá a sua própria vida como garantia num juramento no qual ele não tem nada a ganhar, a não ser o bem de Davi. Não se trata aqui de amar Davi até a morte – a sua morte ele a dá ao trono de seu pai, mas de entender que a amizade com Davi deveria subsistir até mesmo a um cisão inevitável dos dois, por causa dos seus deveres impossíveis de conciliar. Para os dois, é duríssimo perceber isso. Mas, quando eles percebem, nada dizem. E choram. Um dia eu me vi na cena de despedida de Davi e Jônathas, quando percebi que jamais a vida me deixaria compartilhar com aquele que era meu próprio Jônathas, com a mesma intensidade, uma amizade diária, incansável. Nesse dia, Jônathas ainda achava que haveria outras oportunidades para a amizade dos dois. Talvez por isso, “choraram juntos, mas Davi chorou muito mais”. Davi tinha a clareza de que não mais poderia contar com o cuidado, o riso e o beijo de Jônathas. Jônathas insistiu no juramento feito entre os dois, que garantia que o que quer que acontecesse, ficaria tudo bem. “Vá em paz, que o Senhor seja testemunha entre mim e ti, entre a minha descendência e a tua descendência, para sempre”, dizia. 


Davi chorava. Guardou o juramento, e nunca mais viu Jônathas. Mas a memória do choro seria para sempre o selo da amizade dos dois. O afastamento não mudou isso. Mas Davi nunca mais suportou tão bem as frustrações do amor, da guerra, do poder e da ira de Deus. Faltava-lhe alguém que tivesse autoridade para lhe fazer chorar ou com quem sentisse ter liberdade para isso. Ele não morreu pela falta de amigos – a vida não depende de um deles. Mas quando eles estão por perto, como fica mais leve! É como se as lágrimas que vêm nesse choro tirassem aquela secura, aquela angústia entalada na garganta que a vida insiste em nos dar.



André Eler colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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