Tempo de ansiedades



Ler a bíblia em Eclesiastes, encontrar um autor “velho” e, aparentemente, desiludido com a vida dizer que tudo é vazio, que não há nada novo acontecendo na Terra é um tanto injusto e desigual para gerações de jovens como as de nossos dias. Da mesma forma, quando olhamos para a figura icônica de Abraão, que esperou até a idade de 100 anos para ver cumprida uma promessa de Deus entendemos o quanto há um ensinamento através da espera no tempo, mas também o quanto difícil e quase impraticável é para homens e mulheres do século 21 se submeterem à mesma sorte. Nós queremos tudo em curto prazo, poupando o tempo, porque amanhã já é dia de acordar cedo e começar mais uma rotina... 
Há uma música que eu gosto bastante de autoria da cantora Daniela Araújo:

“Carros pela cidade correndo contra o
 tempo distantes no vazio atormentados
 pelos males de uma era turbulenta e sem alívio...”    
                                                    Sublime


As palavras dessa canção não poderiam ser mais oportunas. Nos grandes centros urbanos, nas grandes cidades – e eu vivo nessa megacidade, que é São Paulo –, as pessoas andam agitadas, correm contra um tempo que parece passar mais rápido do que as muitas ocupações e obrigações cotidianas. Além disso, o que já é muito, nós cristãos (ou não cristãos) temos nossas muitas expectativas como a vida acadêmica, vida conjugal, carreira profissional, conceber e criar filhos, a aquisição de bens como casa e carro. Coisas grandes, grandes feitos que esperamos ser capazes de realizar, mas que também nos impõem ansiedade, medos e frustrações. É difícil conceber que temos um Deus cuidando de nós, como o mesmo mantenedor da natureza, no esplendor que reparamos nela (flores, animais, entardeceres, entre outros aspectos) e que nos cativa. A vida vai passando com uma velocidade insaciável e o que vemos pela frente são nossos deveres de todo o dia.

Eu costumo pensar que é olhando para trás que fica mais fácil perceber o cuidar de Deus. Paro no ponto que estiver e verifico onde cheguei e fica claro o quanto Deus me conduziu aonde estou e o quanto impediu outros caminhos. Nos relatos bíblicos também não é diferente (independentemente de ser uma percepção do autor ou do personagem), Sansão se casou com uma mulher não israelita porque haveria de cumprir desígnios divinos (Jz 14:4). O profeta Jonas pegou um barco e uma rota frontalmente oposta à sua missão, mas ele acabaria por ter uma experiência surreal que terminaria com ele cumprindo seu propósito profético (Jn). 



Diante de eventos em que nós vemos a “vontade de Deus” e “tempo” associadas a pergunta que vem (pelo menos para mim) é o do porquê dessas escolhas e caminhos mais mirabolantes a serem mostrados... A resposta bíblica e o que eu sempre ouço de pastores experientes e mais versados na Bíblia é única: a glória de Deus. Sim, Deus parece ser bem sério em demonstrar sua glória; parece ser ainda mais sério em dois outros aspectos: que nós percebamos o quanto um evento é milagroso e surpreendente (ou seja, demonstrar aspectos da sua glória), ao mesmo tempo em que ele também não tem o menor compromisso de explicar seu plano maior e/ou final. Eu sei, eventos alegadamente extraordinários e sem explicação são matéria suficiente para ateus e críticos do cristianismo utilizarem como combustível contra nossa fé e dizerem que acreditamos numa série de coincidências (e a essa série de coincidências damos o nome de "ações divinas"). É uma perspectiva, mas eu fico com as soluções do apóstolo Paulo (I Co 1:18) e do escritor C. S. Lewis: a mensagem do evangelho cristão parece de fato loucura, mas ela nos toma de forma repentina e arrebatadora, não nos tira a capacidade lógica, mas nos dá uma visão de mundo distante do trivial.

Voltando ao assunto da “glória de Deus” e chegando a uma conclusão para esse texto, eu me lembro de uma mensagem de um dos meus pastores preferidos, John Piper, onde ele narra o relato de João 11, no qual pessoas vieram dizer a Jesus que Lázaro, seu amigo, se encontrava doente. Ao saber que seu amigo estava bem debilitado, ele decide permanecer por mais dois dias onde ele estava (quê???), mas não sem dizer que aquela doença era “para a glória de Deus”. Óbvio que com a pouca velocidade dos transporte há dois mil anos atrás, quando ele decide ir e acaba por chegar ao local, já encontra uma tumba fechada, com um defunto que cheirava mal. O milagre da ressurreição de Lázaro todos nós já sabemos bem, mas o que Piper frisa é que porque Deus quis demonstrar sua glória, ao invés de curar Lázaro da sua doença, ele morreria duas vezes (o milagre maior seria realizado). A glória de Deus como argumento final é uma das coisas mais poderosas que eu já me deparei. Até por isso, me conformo muitas vezes de pensar que o que eu quero para minha vida faz ou não parte do que ele quer que aconteça e se o faz, acontecerá no tempo que ele conduz para se confirmar suas promessas descritas na sua palavra (inclusive as que descrevem que muitos morrem sem viver na Terra a plenitude das promessas – Hb 11:13). Dentro das muitas ansiedades no nosso dia-a-dia, é um grande desafio querer viver algo para a glória de Deus e esperar seu tempo sem tentar dar uma ajudinha ao criador. Bom é depositar sobre Ele toda a nossa ansiedade (1 Pe 5:7).


Oséias Feitosa-Junior é um dos criadores do blog Cristo Urbano e se aventura a escrever ocasionalmente.


Este texto, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br.

0 comentários: