Das lições que aprendemos com a morte






Essa semana um amigo veio perguntar se eu também tinha a opinião de que a morte recente por afogamento de um querido ator global teria relação com um castigo divino, pois a novela que ele participava tem sido realizada sob um pacto de magia negra por trás. Esse boato teria vindo de uma colega de classe, que é evangélica. Eu e a imensa maioria dos evangélicos que eu conheço não tem a menor relação com esse tipo de ideia, mas eu não consigo defender todos os que se classificam como protestantes. Tenho para mim algumas hipóteses sobre a parcela de crentes que acredita e propaga esse tipo de informação, mas não o farei nesse texto essa abordagem um tanto antropológica e espero que alguém algum dia ainda o faça aqui nesse blog (não custa tanto ter esperança).

Apesar de dizer que não posso defender todos os protestantes eu, pelo menos, posso escrever sobre a morte e alguma visão moderna e cristã que eu tenho dela...

Na mitologia grega, a qual eu sempre fui admirador desde criança, as moiras, três irmãs e deusas primordiais, eram as responsáveis pelo curso da vida, vale destacar que não só da dos mortais, mas também da dos deuses. Elas decidiam quem teria fortuna (sorte) ou azar, mas Átropos, a mais famosa das três e que muitos podem se lembrar de filmes e até de desenhos animados, era a que cortava o fio de tear que sustentava a vida de um ser. É irônico como é apropriada a vida poder ser comparada com algo tão delicado como uma linha de costura ou com alguém pôr fim a ela com um simples corte de uma tesoura. Uma morte estúpida como essa que chocou o país nos traz inevitavelmente à reflexão sobre como a vida é frágil. Ao mesmo tempo, há também o outro lado. Todos nós podemos nos lembrar de histórias e pessoas que conhecemos, que venceram situações muito adversas como graves doenças; alguns, guerras; outros, ataques; e uns poucos, experiências de quase-morte, enfim... Na maioria dos casos e com todas as melhorias atuais nas condições sanitárias das grandes cidades, é fato que nós vivemos mais e vivemos com qualidade. Esse conforto e prazer que a vida nos proporciona é capaz de fazer muitos de nós acreditarem quase que ingenuamente que somos semi-eternos e invulneráveis em nossa juventude.

Precisamos pensar na morte.

Você pode até se perguntar por que alguém jovem teria algo para falar sobre a morte. De fato, eu não tenho nenhuma sabedoria de um sábio da montanha, mas já vi amigos morrerem, já enfrentei a morte com uma certa proximidade e já pensei sobre o fim da minha vida. E é por isso que eu escrevo...

Alguns amigos já me criticaram por falar com naturalidade sobre a morte, mas eu tenho mais afinidade com esse assunto do que estômago para ver ou discutir filmes de terror. Vai entender...

No filme Tróia de (2004), há uma cena muito intrigante e reveladora de diálogo entre as personagens Aquiles e Briseida. O herói grego que aparentava ser nessa versão um cético do sistema de crenças grego debocha daquela sacerdotisa de Apolo e debocha também da sua crença e daquele modo devoto de vida que ela seguia. Aquiles a surpreende ao dizer que:

“[...] os deuses nos invejam, eles nos invejam porque somos mortais, porque qualquer momento pode ser o último, tudo é mais bonito, você nunca será mais bela do que é agora, nós nunca mais estaremos aqui novamente”.

A singularidade da nossa vida aqui comentada, que é realmente admirável. Falta um certo hedonismo da singularidade em relação às experiências que temos: as boas e as ruins. E embora o escritor de Eclesiastes diga que “há tempo para todas as coisas” (Ec 3) alguns de nós viverão o suficiente para desfrutar tanto “tempo de juntar” quanto do “tempo de espalhar”, enquanto outros terão apenas uma oportunidade, isto é, só plantem, sem colher.

A eternidade como possibilidade, por outro lado, está presente nos semi-deuses imortais das mitologias grega e romana, em mitos populares como a do judeu errante, amaldiçoado por Jesus a vagar pelo mundo, sem nunca morrer, até a sua volta, no fim dos tempos. Já foi abordada também por alguns filmes, como Highlander e A Incrível História de Adaline, e em ambas histórias quando as personagens principais perdem seus amigos e parentes tão somente pelo passar do tempo, acabam por ver a vida perpétua como uma maldição. Moral dessas histórias: a exclusividade de uma vida imortal que não possa ser compartilhada com aqueles que amamos parece ser inútil.
Mas qual o meio termo? Talvez queiramos ter o controle do desenrolar das nossas vidas e do de nossas mortes. Um pai enterrar um filho é um completo absurdo, assim como o é um homem se afogar no que aparentava ser um rio inofensivo.

O escritor nobel de literatura, José Saramago, numa entrevista a Edney Silvestre (2007), então com 84 anos, quando indagado se a morte o assustava responde com lucidez e sabedoria:


– Não, não, não. O pior que a... tal como eu vejo, o pior que a morte tem é que antes estavas e agora já não estás.


Eu digo de outra maneira aquilo que a minha avó disse, já devia estar farta de viver: “o mundo é tão bonito, e eu tenha tanta pena de morrer”. E este não é... não, ela não tinha pena de morrer. Ela tinha pena de já não estar, no futuro, para continuar a ver esse mundo que ela achava bonito.

Chego nesse ponto percebendo alguma semelhança no relato de Paulo (Fp 2) (quando diz que apesar do desejo de partir, e estar com Cristo, decidia ficar e ajudar os que eram seus contemporâneos) com as palavras de Saramago. Assim, a capacidade de pensar e aceitar a própria morte e também ter apego à vida são sentimentos completamente antagônicos, mas complementares na natureza humana. A nossa biologia e o pouco que já conhecemos sobre eventos da seleção natural atuando sobre nossa espécie indicam que há mecanismos que apelam para nos convencer da importância de se estar vivo (quem nunca soube de alguém contar sobre o “filme da vida” que passa em frações de segundo em uma experiência de quase morte?).

Colegas cientistas que conheço dizem que é natural o medo da morte em muitas pessoas, pois esse é o medo do que irracional, ou seja, de não ter controle do momento final de sua própria vida. A famosa pergunta “para onde vamos?” ainda não tem uma resposta satisfatória para muitos e discussões filosóficas são investidas com essa finalidade. Por outro lado, a calma e a esperança dos teístas diante da morte também intriga os céticos, ainda que uma resposta pragmática deles se sustente como: “não tem medo da morte porque estão ludibriados na sua crença” a esperança tem sido, além de presença em piadas, um recurso válido e eficiente de conforto (contra a qual não há lei).

Paulo quando pensava estar perto da morte escreveu para os filipenses que para ele “o viver era Cristo, e o morrer, lucro” (Fp 1:21). Viver é contemplar a glória da criação e trabalhar para o Reino, mas morrer é desfrutar de Cristo em melhor condição do que a terrena. Para quem vai, não há o que temer, mas para quem permanece não é assim... O luto poderia ser um processo bem menos doloroso e cruel para os cristãos, mas acaba sendo um fenômeno que também nos atinge. Mesmo sabendo ou tendo a confiança de que iremos encontrar nossos entes queridos na eternidade é lógico e comum ser tomado por um sentimento de vazio e de tristeza que nos toma e impede de enfrentar o cotidiano por, para alguns, um certo período de tempo, e que para outros pode durar meses ou anos. Saber que Jesus chorou por um Lázaro morto que ele mesmo ressuscitaria minutos depois, indica um tipo de chave teológica no qual o luto é parte intrínseca da nossa humanidade, é parte da nossa natureza lamentar, mas também é parte da nossa natureza se recuperar da amargura que a morte causa. Davi, da sua união com Bateseba teve um recém-nascido com problemas de saúde que se revelaram insolúveis. Diante da saúde frágil de seu filho, parece antecipar seu luto. Angustiado, Davi chorou, orou e jejuou pela criança por sete dias, mas uma vez que soube de sua morte mudou de atitude e surpreendeu até pessoas mais experientes que ele, seus sábios:


Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se DEUS se compadecerá de mim, e viverá a criança?


Porém, agora que está morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim. (2 Sm 12:22,23)



Para quem já assistiu O Curioso caso de Benjamin Button (e eu prometo que essa é a última citação sobre filmes) sabe como é espetacular as cenas que explicam o acidente da personagem Daisy. Uma série de eventos interligados, interconectados que culminam num atropelamento, mas que poderia ser evitado tão somente um deles não tivesse existido. A morte revela nossa semelhança como seres humanos, pobres e ricos todos teremos esse mesmo destino. Indivíduos em menor condição financeira estão, óbvio, sempre mais a mercê das mazelas dessa vida, mas vemos também muitas pessoas abastadas investindo suas fortunas para tentar contornar seus problemas de saúde, por vezes inutilmente. A morte vai nos perseguir e nos encontrar, é o mal inevitável e como dizia a personagem Chicó de Ariano Suassuna, em O Auto da Compadecida (1975):

“Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.”

O mal catastrófico que dizima milhares, as vezes milhões, traz muitos ao sofrimento e leva tantos outros ao questionamento da real existência de um ser divino que controle todas as coisas e pessoas (e não o simples acaso). Constantemente parece que é impossível conciliar um Deus onipotente com um Deus oni-benevolente. Na visão cristã e na teologia do Deus soberano o mal é parte dospropósitos divinos, assim como passa pelos propósitos divinos a aniquilação detodo o mal (“toda lágrima enxugará” – Ap 21:4).


A morte para muitos cristãos não é um tabu, nem o medo do irracional pós vida é algo que os embarace. Em 2000 anos de cristianismo a morte e o sofrimento vêm sendo encarados como situações aceitáveis da jornada do crente. É um enigma da nossa cultura. O salmo 23 além de ser uma das passagens mais conhecidas é intuitivamente a resposta para toda nossa dor, duvida e angústia e também para esse enigma do cristão. Mesmo no vale escuro da morte sentem Deus e sentem paz. O amor lança fora o medo e o homem e a mulher, que já passaram por algo assim, mesmo levando consigo um pouco do luto por toda a vida, normalmente decidem enfrentar o caminho, que acreditam, os levarão até seus entes queridos novamente, ainda que transformados. E eu aprendo com eles...


Oséias Feitosa-Junior é um dos criadores do blog Cristo Urbano e se aventura a escrever ocasionalmente.


Este texto, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br.

2 comentários:

  1. Belíssimo texto meu amigo, com muita clareza e coerência que lhe é peculiar. E obrigado pela referência indireta... Rsrsrs parabéns!

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  2. Belo texto (só vi que era do meu sobrinho ao final da leitura, juro)

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