Flertes com a morte




Sempre gostei das histórias sangrentas do Velho Testamento, as primeiras que me fizeram ter gosto pela Bíblia, bem antes do gosto pelos devaneios platônicos do evangelho de João ou pela lógica jurídica da doutrina paulina. Já deixei claro, em outro texto, meu encanto pela história de Davi e, especialmente, por Jônatas. Além do choro que se lhe abateu pela despedida de Davi, Jônatas nunca deixou de guerrear e morreu, tragicamente, pela espada dos filisteus. Mas aí ao gosto pelas histórias sangrentas se sobrepunha uma angústia inexplicável.

Seu pai, Saul, aquele que fora o mais belo do reino, o mais alto, o mais forte, o mais hábil, a quem as mulheres e os artistas entoavam louvores e compunham salmos, não era atormentado só pela guerra – com o rompimento com Davi, abandou-lhe de vez a paz de espírito. A história da morte de Saul foi o primeiro suicídio com que tive contato. Ele, atingido pelos filisteus, não vendo saída alguma, clama a seu escudeiro que o mate. Leal, o escudeiro tem medo de sua última missão. Saul se lança à própria espada. O escudeiro, não vendo nenhuma saída menos trágica para si, emula o mestre e também se mata – no mesmo dia morreram todos os filhos de Saul.

A princípio, é difícil ter empatia pela história de Saul. Ele é antagonista do herói Davi. Mas seu fim me deixava um nó na garganta. Talvez pelo escudeiro leal, talvez pela tragédia do amigo Jônatas. Mas é o homicida e traidor Davi quem nos tira o chão ao responder àquela morte. Primeiro chora copiosamente a morte de Saul e Jônatas. Depois mata aquele que pensava trazer boas novas ao anunciar a queda de seu adversário (e que lhe omite o suicídio). Em seguida, entoa o lamento do Arco:


Ó colinas de Gilboa,
nunca mais haja orvalho
nem chuva sobre vocês,
nem campos que produzam trigo
para as ofertas.

Porque ali foi profanado
o escudo dos guerreiros,
o escudo de Saul,
que nunca mais será polido com óleo.

Saul e Jônatas, mui amados,
nem na vida nem na morte
foram separados.
Eram mais ágeis que as águias,
mais fortes que os leões.

Chorem por Saul, 
ó filhas de Israel!


A morte de Saul, derrotado, destronado, humilhado, sem encontrar a paz, sem ver saída, não foi suficiente para que o novo rei não lhe rendesse as honras devidas. O desespero até a morte de Saul torna se ainda maior perante os louvores dados a ele por seu maior inimigo. Mas não é a morte que lhe conferiu valor. Foi sua vida – vida na qual o próprio Saul há muito já não via valor, mas que nunca deixou de inspirar reverência em Davi. Não tem nenhum glamour na morte de Saul, mas seu desespero final jamais apagaram o valor da sua história.

Escrevo sobre a morte de Saul neste fim de setembro, mês marcado por uma campanha do Centro de Valorização da Vida (CVV), o setembro amarelo. Escrevo enquanto uma família muito próxima chora a morte de um filho e irmão que sucumbiu após anos batalhando com a depressão. Pelo testemunho de todos os mais próximos, era temente a Deus e devotou sua vida ao ministério da palavra. Eu mesmo me lembro das suas músicas infantis com conteúdo bíblico que divertiam minha priminha. Quando ele cantava "Pharoe, pharoe, oh baby, let my people go", com sua voz grave e sua intrepidez para falar do amor de Deus, não havia sinal algum de covardia. Desejar a morte não é sinal de covardia, nem de desconhecimento do amor de Deus.

Moisés, aliás, o mesmo que, com intrepidez, liderou os judeus para tirá-los da escravidão e enfrentou faraó, julgou, no meio da caminhada no deserto, seu fardo tão pesado que não poderia levar:

"Por que fizeste mal a teu servo, e por que não achei graça aos teus olhos, visto que puseste sobre mim o cargo de todo este povo?
Concebi eu porventura todo este povo? Dei-o eu à luz? para que me dissesses: leva-o ao teu colo, como a ama leva a criança que mama, à terra que juraste a seus pais?
De onde teria eu carne para dar a todo este povo? Porquanto contra mim choram, dizendo: Dá-nos carne a comer;
Eu só não posso levar a todo este povo, porque muito pesado é para mim.
E se assim fazes comigo, mata-me, peço-te, se tenho achado graça aos teus olhos, e não me deixes ver o meu mal."

Moisés julgou pesado o fardo que lhe deu o Senhor, que a ele se apresentou pelo seu nome próprio. Desesperado e desamparado como só o líder de 600 mil pode estar, desejou morrer. Escrevo ainda sob o impacto de ter conversado, nas últimas duas semanas, com um amigo que amo como a mim mesmo, que, não aguentando o fardo pesadíssimo que tinha que carregar, cogitou morrer. Não era pequeno o fardo de Moisés, nem era pequena a pressão sobre esse amigo. Eles olharam para o céu e não viram a mão de Deus a socorrê-los.

Escrevo com o peso de ter ouvido de outros dois amigos, nessas duas mesmas semanas, que cogitaram buscar a morte. Não são os primeiros. Toda vez que me deparo com essas ideias de morte entre gente querida, nem tão infrequentes assim, também encaro minha alma: antes de mais nada, por que eu pensaria que minha vida vale mais que as deles? Por que essa resposta não me consome?

A tristeza é inevitável, mas não porque eu julgue que também não posso senão desejar a morte. Ela é inevitável porque, tendo certeza de que as vidas desses amigos valem tanto quanto a minha, posso vislumbrar por uma fresta o tamanho da dor que faz essas pessoas cogitarem o absurdo. Alguns talvez imaginem que falta a quem deseja a morte um pouco do reconhecimento do amor de Deus. Mas todos eles, cada um desses amigos que citei, são pessoas que conheceram, em algum momento, a graça infindável, imerecida e irresistível do Pai.

A reprimenda de Deus a Moisés tem dois ensinamentos: o primeiro é lembrá-lo de que o que ele quer não é morrer, o que lhe falta é perspectiva de vida. O mesmo que Deus faz com um deprimido Elias, no deserto: mostra-lha que ele já venceu sua maior batalha e que ainda há grande sentido em viver. O segundo ensinamento é de que não se carrega todo esse peso e toda essa dor sozinho, por mais real que ela seja.

E é em carregar junto esse fardo que, talvez, aquele que não via mais alternativa possa recobrar um pouco da esperança e viver mais um pedacinho da glória que há de se fazer eterna. Com quem se recobra a esperança, com quem se renova o sentido de tudo, também se celebrará a vida.

André Eler colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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