Você e o Diabo em uma terra sem sol – sobre A Bruxa




(contém SPOILERS)


Você não acredita no diabo, até que se muda para a floresta.

Na floresta, sem luz elétrica, sem GPS, e com uma fé ferrenha de que tudo dará certo, o Diabo te come por dentro.

Esse é o tema do filme A Bruxa, com certeza, o melhor filme da temporada 2015-2016 e um dos melhores filmes de terror dos últimos anos e coloca em evidência Robert Eggers, autor e diretor da trama muito bem construída.

A história é muito bem localizada: uma família de puritanos ingleses, emigrados nos novos estados unidos, é expulsa de sua pequena comunidade colona e vai fundar uma fazenda ao lado de um bosque.

Chegam no verão ou na primavera, mas a excelente trilha sonora de Mark Korven rapidamente anuncia o outono em que o filme se desenrola. O uso e abuso de cordas e percussões coloca bem o encontro da cultura europeia emigrada com a nudez pagã dos sons tribais. A trilha sonora é angustiante, sufocante e reforça a imagem de que não existe nada naquele mundo além de ficar na fazenda à espera da Bruxa ou, como fez o menino mais velho da família, ir ao seu encontro no meio do bosque. O sentimento de clausura Korven parece recuperar de outra excelente trilha sonora que fez, a de O Cubo, esse clássico B da minha geração.

Logo nos primeiros minutos de filme, a grande família – são um casal, a sensual filha mais velha, Thomasin, o filho mais velho, Caleb, os gêmeos, Mercy e Jonas e o recém nascido Sam – sofre um segundo baque após a expulsão de sua comunidade urbano-eclesiástica. Enquanto brinca com Sam perto da floresta, Thomasin percebe que seu irmão foi levado.

Ao expectador nada é escondido: a bruxa corre pelo bosque com o bebê, chega em sua casa, mata o bebê, esmaga seu corpo e se esfrega em seus restos mortais fazendo uma dança nua à luz da lua.

Mas a vida continua.

A fé vivida como uma obsessão opressora é aliviada com algumas mentiras, com alguns olhares incestuosos, com o desabafo da angústia da incerteza do destino do pobre Sam – o bebê que pode ter ido ao inferno, afinal, não podemos saber se era ou não um eleito, um filho de Abraão.

Os homens da casa pagam o preço mais caro por tentarem se apegar a fé de forma teológica: a racionalidade com que vivem a fé é atacada sexualmente e fisicamente.

Caleb é um jovem teólogo, conhece as armadilhas do pecado e do inimigo em versos da melhor coletânea de teologia sistemática, mas não consegue não olhar para Thomasin, sua irmã, com desejo. Esse desejo se consuma na maçã envenenada que recebe da bruxa, depois de beijá-la e fazer sabe Deus mais o quê. Ele morre diante da família, conjurando amor a Satã.

O pai, William, é poupado até perder todos seus filhos. Ele só morre depois que percebe que seus gêmeos eram mesmo aliados do estranho bode negro que se relacionava com eles como um amigo imaginário – Black Philip. O pai morre com uma chifrada do bode, talvez certo de que sua filha mais velha é mesmo a Bruxa.

A mãe é o caso mais interessante – quando todos já sabem que Thomasin está estranhamente envolvida em tudo que acontece de estranho na fazenda, a mãe ataca a filha. Não antes de participar de seu próprio ritual satânico para revisitar os filhos perdidos. Mas ela não completa o rito e precisa morrer – pelas mãos de Thomasin, que se defendia de sua mãe ensandecida.

Thomasin, por fim, sabe orar. Ela sabe que não se entregou a Satã e que não é uma bruxa, mas o que lhe resta? Tratada como a grande vilã, ela não fez nada de errado... Toda a família morta, ela procura falar com o único que poderia ouvi-la em seu universo: o bode.

A conversa com Black Philip é sintomática. Ela incita o bode a falar – ou melhor, a sussurrar, porque é assim que o diabo fala - e ele lhe faz uma proposta.

Lhe oferece o gosto da manteiga, um vestido bonito e viver deliciosamente. Por fim, oferece-lhe ver o mundo.

Esta é e sempre foi a tríade da tentação. Assim como o fruto oferecido a Eva era bom para comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento. Somente Satã pode nos prometer o mundo tal como ele está, pois o que Deus oferece é um mundo redimido, apocalíptico e messiânico, um mundo por vir.

O erro da família campesina foi viver a fé de modo racional – acreditar no diabo apenas porque é isso que a teologia implica, e duvidar que ele mora em nós, nos nossos olhares, nas nossas mentiras, no bosque.

Thomasin não soube escrever seu nome no livro diabólico. O diabo a ajudou. Ele não apenas fez o melhor processo de recrutamento de talentos já visto no cinema, ele também inicia uma carreira de formação e de novas oportunidades – o filme parece uma paródia do mundo corporativo, recrutando talentos e destruindo famílias.


A Bruxa é um pacto de psicologia social, que questiona a maneira como alguns religiosos vivem sua fé, mas também a nossa fé no fato de que Black Philip é nada além de um bode saltitante.


Pedro da Conceição colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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Um comentário:

  1. Tô com medo só dá resenha, nunca vou assistir essa joça, não tô em aí que é obra de arte e tals

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