A Senzala, a Casa Grande e o Impeachment




Passadas todas as emoções com as eleições de dois domingos atrás (mesmo que em algumas cidades os pleitos eleitorais voltem a acontecer novamente nas próximas semanas), algumas coisas ficaram claras e a principal delas, que pode ofender muita gente, incluindo bons amigos: a esquerda está descolada da realidade.

Já adianto um detalhe: sei que não podemos simplesmente generalizar, mas as extrapolações são úteis diversas vezes. Também para fins de esclarecimento, nesse texto a esquerda a que me refiro são as pessoas que eu converso e tenho acesso com uma certa frequência, na sua maioria amigos e outras pessoas (às vezes não tão próximas) que eu presto atenção na mídia ou nas redes sociais.

Fechados no seu mundo, a esquerda se frustrou com a eleição em São Paulo, no maior dos exemplos. Houve até análises (pseudo)sociológicas do tipo: “a senzala elegeu a casa grande”.

Quanto a este bordão que tomou conta das redes sociais eu deixo por aqui e porque concordei muito com essa parte de um poste que eu vi na minha linha do tempo:

O que quero dizer [...] é que as pessoas pobres não são nada burras, não tem nada de condição de escravo (no sentido ético de se portar como um; de submissão) elas só desenvolveram uma percepção prática diferentemente de nós e que em muitos sentidos é bem mais plausível que a nossa. Parem com essa [...] de que a senzala votou na casa grande e prestem atenção nessas pessoas, elas podem e provavelmente têm muito a dizer.

A frustração pela derrota é algo muito normal. Eu mesmo fiquei muito frustrado quando soube da vitória da Dilma em 2014. Não votei nela nos dois turnos daquele ano e fiquei chateado com a forma como ela e sua equipe conduziram aquela campanha. Tempos mais tarde tudo o que aconteceu seria classificado como “estelionato eleitoral”. Mas as pessoas têm seus motivos para acreditar que ela seria uma melhor gestora do que os outros candidatos que lá estavam. Medidas dos governos do PT massificaram o acesso de muitos jovens ao ensino universitário e a transferência de recursos através do bolsa família tirou inúmeras pessoas da condição da extrema pobreza. Independente do juízo que se faça sobre a intenção dessas políticas ou do quão populistas elas o são, o fato foi o que essas políticas fizeram: melhorar a qualidade de vida de milhões de brasileiros.

A conta não fechou e o resultado foi o processo penoso, cansativo e traumático de impeachment que passamos recentemente.

A estratégia de controlar a narrativa dos acontecimentos vem mobilizando inúmeras mentes criativas de pessoas ligadas aos movimentos de esquerda. O golpe é o nome preferido e adequado para se referir ao processo de impedimento da ex-presidente Dilma. Inúmeros jovens universitários das áreas de humanas são atraídos e compõem as bases do pensamento mais disseminado em terras brasilis: a esquerda socialista (propagada como pensamento socialista e de direitos humanos). Não vou entrar no mérito do seu funcionamento ou de suas qualidades e defeitos, nem é a intenção desse texto esgotar o tema, mas se definir como “de esquerda” atrai e atrai muitos jovens. Atrai também boa parte dos estudantes universitários, principalmente os de universidades públicas (e com todas as suas ligações também com partidos de esquerda). Temos que encarar que a via política hegemônica nessa fatia da sociedade. Até por isso, então, a frustração com as últimas eleições seria esperada. Mas era necessária. A verdade é que não há essa hegemonia toda que o PT transmitiu para os seus correligionários e pra tantos outros defensores das vias de esquerda. E uma massa que supere as 200 milhões de pessoas obviamente não pensa uniforme, muito menos estática e perpétua. A tese do golpe caiu por terra não porque o candidato do PSDB ganhou em São Paulo nas eleições municipais, mas porque o número de candidatos eleitos do PT caiu mais de 60 %. Os mesmos círculos de amigos que conversam corriqueiramente após os cultos, durante os intervalos das aulas, no horário de almoço no trabalho ou mesmo nos tempos livres gastos na rede social fez muitos caírem num confinamento digno de um “mito da caverna” e, até por isso, esquecer que há muitos “lá fora” que estão sob outras influências e outros círculos e com interesses diferentes.

Esse texto, com o viés da minha formação, é mais crítico do que eu gostaria até aqui, mas ele retrata um pouco um dos cenários que ocorrem nos círculos evangélicos e quem vem aumentando suas proporções ultimamente: uma direita conservadora, reformada e influente oposta a uma esquerda liberal, da missão integral e tão influente quanto sua contraparte nessa história. Nesse sentido, não devemos, como cristãos, nos omitirmos da política, de seu debate, de uma visão humana e madura, porque a política nos permeia por todas as áreas de nossas vidas, nos serve, nos encanta e nos decepciona, mas acima de tudo devemos lembrar que há desígnios maiores do que o que conseguimos perceber.

Lembro-me de uma entrevista do cardeal Dom Odilo Scherer logo após a última eleição papal (Francisco) na qual o cardeal brasileiro dizia, sendo ele mesmo apontado como um candidato ao papado, que a igreja não seguia tendências e critérios naturalmente humanos, mas que os acontecimentos da igreja de Roma eram frutos da condução do Espírito Santo.
Não quero ser simplista e dizer que a vontade das ruas representa a vontade perfeita de Deus, mas que, sim, em última instância os acontecimentos nesse mundo são controlados pela vontade soberana divina.

Há um exagero na frustração com o que aconteceu nas eleições e que constrói futuros apocalípticos para os próximos meses.
Ora, uma guinada para experiências ruins não irá acontecer tão somente porque o perfil de gerenciamento de partidos da esquerda de cidades, estados ou do país mudou. Afinal, essa mesma história foi contada quando do término do ciclo do PSDB no poder do país.

O PSDB de passos lentos, de características privatistas e, portanto, mais afinado com a direita liberal (embora muitos membros deste partido não gostem de ser classificados como “políticos de direita”) chegou ao seu limite 12 anos atrás e deu lugar ao PT, partido com muita comunicação com os movimentos sociais e outros tantos milhões de pessoas de classes sociais pobres desse país. Era óbvio que em algum momento esse modelo petista também se esgotaria. Nossa democracia brasileira não sustenta pessoas no poder como nas dinastias japonesa, chinesa, romana ou mesmo mexicana (de um PRI no poder por mais de 70 anos). Aliás, o poder retirado da ex-presidente é questionado como mui traumático e antidemocrático, como se os54 milhões que a elegeram continuassem estáticos com a mesma opinião ou também,que a opinião deles fosse irrepreensível até deles mesmos por longos edesastrosos 4 anos. Se esquecem esses que a eleição de membros do legislativo e do judiciário faz parte desse mesmo processo democrático. Ainda que indiretas, as ações de deputados e senadores representam decisões de um momento político da população. Seja quais os critérios que usem ou sofram influência (opinião pública mediada pela imprensa ou eleitores/população se manifestando atualmente pelas redes sociais nos perfis dos políticos) eles, 513 deputados e 81 senadores, agem representando a população brasileira. Arbitrados por um colegiado de 11 ministros-juízes e vigiados por uma cobertura da mídia, numa era da internet, sem precedentes chegou-se a uma troca de poder que é sem sombra de dúvidas não tão problemática quanto se tenta contar.

Nos Estados Unidos, onde atualmente o embate direita x esquerda cresce à medida que as eleições presidenciais se aproximam fica claro o quão complicado é para os evangélicos tomarem uma posição sobre qual partido-e-candidato apoiar. Se por um lado os evangélicos têm tendência a apoiar candidatos republicanos (evangélicos, conservadores e economicamente liberais), por outro, caem desanimados por ter como opção um candidato inescrupuloso, inconsequente e que afronta toda a ética cristã, no agir e no falar: Donald Trump. Hillary, a candidata democrata, representa uma oligarquia que domina a política americana há anos, com seu partido tendo valores ligados aos direitos humanos (como aborto legal, casamento homoafetivo e direitos da comunidade negra), mas também com relativizações que diminuem muitos dogmas do cristianismo. Diminuídos e taxados como retrógrados. É assim que Sho Baraka, um rapper evangélico americano pinta o panorama de sua nação, concluindo que não votará em nenhumdesses dois candidatos. Essa visão é colocada aqui porque também é como muitas vezes nos sentimos na “crise de representatividade”.

Embora a descrença nos nossos líderes políticos seja constante e recorrente, parece sofrer também de uma falta de identificação histórica com personagens passados que nos transmitissem nos dias atuais características dignas e necessárias para gerenciar a coisa pública. Homens e mulheres que inspirassem e fossem conhecidos como pais de nossa nação como ocorre em outros países como George Washington e Abrahan Lincoln nos EUA ou Simon Bolívar para muitos países na América do Sul. Líderes que fossem mais conhecidos pelas ações tomadas em função do povo do que pelo apego ao poder ou necessidade de se sentir dono do poder. “O poder que emana do povo” a um líder que realize mais no conduzir de seu povo, no representar de seu povo. Isso não é demagogia, nem utopia se concordamos que a integridade e idoneidade de candidatos são seriamente avaliadas pela opinião pública e necessariamente podem mudar rumos de eleições.

Na bíblia, Davi representou esse indivíduo que unia todas as tribos do seu país, que motivava o desenvolvimento do que deu os moldes aos israelitas como nação. Já Moisés, pode ser identificado como o líder-legislador que implementou uma espécie de constituição para os hebreus e a descentralização do poder executivo (ainda que sob conselho de seu sogro para se chegar a essa ideia) e, por tal atitude, a melhoria do condução e liderança daquele grande povo.

O ideal de liderança para nós crentes é sempre Jesus, óbvio. Seu modo de abordar as pessoas ao seu redor deixando todos inquietos e desconfortáveis com o que apontava, mas muito mais pela fixação e magnetismo de sua figura, que atraía a milhões de pessoas, ricas e pobres, pescadores e membros da elite romana local. Jesus é o líder que ensina a máxima que liderar é servir... Servir ao pobre, à viúva, ao órfão, ao estrangeiro, se necessário nos fins de semana, a doentes, a empregados e até ao próprio inimigo.

Como num artigo de jornal que eu li, entre tantos outros que me ajudaram a escrever esse texto, não dá para esperar que as pessoas aprendam a votar. Não formalmente. A política é um jogo de interesses, dinâmico, fluído, com nuances pouco definidas. Há muitos eleitores “inocentes” ludibriados por quaisquer alegações políticas e eleitoreiras, muitos eleitores “torcedores” aos quais não importa os problemas apontados no seu partido de afinidade se negará a aceitá-los e poucos os eleitores “esclarecidos”, que sejam ponderados o suficiente para julgar o melhor candidato independente de preconceitos. Basicamente, não dá para aceitar que apenas esclarecidos votem, entre outras coisas, porque a sociedade é formada por uma infinita diversidade de grupos e justamente porque essas classificações são necessariamente subjetivas, quando se trata de conceitos políticos, podendo rearranjá-las de acordo com quem narra as personagens.

Portanto, para todos nós, de esquerda e de direita, é hora de superarmos os últimos acontecimentos das eleições. É hora, pra quem não quer reconhecer um mundo com outros valores e métodos que não os do socialismo, de se reciclar, se repensar, se reinserir nas demandas da sociedade como um todo e não apenas em círculos de amigos que curtem mutuamente textos longos nas redes sociais. Dizer que os que elegeram fulano ou beltrano não sabem votar é indiscutivelmente arrogância de nossa parte: TODAS AS VEZES QUE DISSERMOS ISSO. Essas pessoas não merecem nossa pena, muito menos se instalará um apocalipse neoliberal a partir de 1 de janeiro de 2017. Deus ainda é soberano e até que haja um novo esgotamento da direita (seja por meio do voto ou mudanças previstas na constituição) e/ou de seus programas, métodos de governar o país, seus estados e cidades essa será a toada dos nossas políticas.

Para terminar, numa palestra proferida por Faisal al Mutar, iraquiano, ateu e refugiado nos EUA, que eu tive oportunidade de assistir na Universidade da Califórnia (Berkeley) ano passado (2015), apontou que os maiores problemas no seu país são as mortes de políticos e líderes moderados e não tanto a interferência externa (como a que países como os Estados Unidos realizam). Para Faisam a religião islâmica tem em seus dois maiores grupos (Xiitas e Sunitas) as maiores dificuldades para a pacificação do país e que todas as vezes que esforços são feitos por grupos interessados na estabilização do país novos embates, traições e atentados são realizados provocando profundas separações entre os lados rivais. O ativista iraquiano vê como solução uma uma sociedade racionalista, livre dos dogmas da religião muçulmana ou de qualquer outra. Concordo muito quando ele fala sobre se preservar indivíduos moderados e que estes são as pontes entre grupos rivais. Na nossa realidade brasileira e mais especificamente na comunidade evangélica brasileira, nos grupos políticos rivais dentro da igreja, é necessário se construir redes de diálogo entre as partes e fomentar essas ações pelos nossos líderes e/ou intelectuais. Por outro lado, não podemos deixar florescer ofensas mútuas, nem julgamentos, muitas vezes, da idoneidade de irmãos que tanto têm contribuído para a missão que Cristo nos confiou, simplesmente por representarem posições políticas opostas.

Oro para que Deus seja nosso centro, nossa prioridade e que por isso transborde nossa vontade de transmitir a realidade do seu Reino às pessoas ao nosso redor. Principalmente às mais necessitadas. De direita ou de esquerda essa é a nossa comissão, por Cristo. 

Amém.

Oséias Feitosa-Junior é um dos criadores do blog Cristo Urbano e se aventura a escrever ocasionalmente.


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Um comentário:

  1. Bom texto... Gostaria apenas de fazer um comentário quanto à imagem utilizada: o impeachment É um golpe. Institucionalizado, sim, mas não deixa de ser golpe. Então (pra mim) é meio sem sentido chamar de "governo golpista", quando seria a mesma coisa que chamar de "governo impeachmista".

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