Pørnöö




Você já leu, neste Cristo Urbano, sobre como a pornografia se apresenta, para nós – jovens urbanos no século XXI – enquanto um ícone da sexualidade.
Resolvi explorar um pouco mais essa ideia.

O que é a pornografia?

A resposta apresentada pelos meus colegas de blog pega o gato dando seu pulo: pornografia não é sexo, é ícone.
Sexo, seja lá o que for, é algo absolutamente diverso de pornografia. Podemos pensar a ambos em termos de experiências.

A experiência sexual é, sobretudo, uma experiência social vivenciada em um contexto em que intimidade e privacidade costumam se confundir. Não é uma experiência singular e transborda o ato sexual em si. Explico: em um contexto tradicional cristão, por exemplo, a experiência sexual costuma ser iniciada em termos conceituais pela exploração de um ideal de família. Passa-se à vivência de relacionamentos cujos padrões são dados pelas interpretações mais ou menos flexíveis da própria comunidade cristã, famílias inclusive. De modo geral, existe um padrão no sexo cristão: um sexo reservado para ser experienciado quando já se possui a certeza da manutenção de um compromisso de amor, uma certeza que somente pode se dar a nível de confiança, pelo vínculo do casamento.

Assim, um cristão que queira experienciar o sexo dentro desse padrão, viverá um conjunto bem complexo de relacionamentos e precisará se arranjar em uma série de regras um tanto quanto difíceis de se observar em um mundo de sexo fácil.
Muito antes de ser vivido no ato sexual, portanto, a experiência sexual é social.
Mas mesmo o sexo fora da igreja costuma ser acompanhado de uma socialização. O menino, ao atingir certa idade, começava a sentir a pressão pela perda da virgindade – a menina, vivendo em um mundo ainda sexista, guardava a sua virgindade para uma primeira vez especial. As duas reações são complementos de uma mesma visão de mundo, de uma espécie de pressão que relaciona sexo e amizade de forma peculiar: uma boa integração em um grupo de amigos passa por compartilhar (em todos os sentidos) experiências sexuais na adolescência e no início da juventude.
Mas a experiência proporcionada pela pornografia não é uma experiência sexual. E dou minhas razões.

A primeira delas é que a pornografia substitui esses complexos fatores sociais em volta da experiência sexual (a família, os amigos, a igreja), por uma relação de consumo.
E o consumo na pornografia segue as mesmas regras de oferecimento de serviços em outros mercados: ele foca no indivíduo, atomizado. Ao identificar características comuns que unem indivíduos em um grupo cuja única relação é uma preferência, um gosto generalizado, a indústria massifica a produção de uma mercadoria que atenda à demanda selecionada. O consumo, por atender às diferentes demandas individuais, também costuma se dar de modo individualizado.

A experiência pornográfica, se torna, portanto, uma experiência individual e já nesse sentido ela é diversa da criação da experiência sexual.
No mundo da internet, ainda mais, esse isolamento aumenta: a única ligação entre o grupo dos consumidores que consomem o mesmo tipo de produto pornográfico é o fato de compartilharem os mesmo fetiches.
Com a pornografia o fetiche da mercadoria ganha uma denotação irônica (sim, denotação).
Mas se a experiência sexual se constrói socialmente e se coroa com o ato sexual, a experiência pornográfica nasce e morre individual. Ela compartilha com o ato sexual apenas uma preferência pelo foro da intimidade – na verdade, uma preferência pela reserva do segredo.

O sexo, ao menos, constrói uma esfera muito específica de uma intimidade vivida a dois, de um segredo compartilhado (não necessariamente o segredo de que dois é par, mas o segredo de viver uma experiência compartilhada apenas entre quatro paredes).
Pornografia é ícone.
O sexo que é filmado na pornografia é sexo-produto. Ele não serve aos atores enquanto autores, mas enquanto profissionais.
Não é à toa que, na linguagem imagética, “pornô” signifique, hoje, um estilo de se fazer imagens. Significa uma setorização extrema e explícita. No pornô, o corpo é segmentado e explorado genitalmente (não apenas as genitálias, mas qualquer parte que atenda ao fetiche procurado pelo consumidor vira uma genitália). Por isso hoje existe “porn food” e “football porn” – imagens externamente setorizadas que esfregam na nossa cara o objeto de nosso desejo temporário.
Pornografia é reduzir sexo a genitália, a penetração ou a qualquer outro setor de uma atividade complexa, de um corpo complexo; reduzir à essência do fetiche que motiva o consumidor a buscar um produto. Por quê? O objetivo da pornografia é gerar no consumidor a resposta esperada – em grande parte das vezes associada a uma satisfação “sexual” capaz de suprir a falta de... sexo.

Na pornografia o isolamento da satisfação sexual do consumidor é apenas o ápice da sua negação do sexo – longe de ser consequência da pornografia, a masturbação é seu pressuposto. Esta é apreendida pela indústria como uma ferramenta natural para transformar o consumidor em cliente.
O pior, porém, é que no mundo da internet e do consumo da pornografia “gratuita”, o consumidor não percebe que está doando seu ativo mais precioso à indústria – seu tempo.
E é pelo viés do consumo (do tempo) que a pornografia atinge, inclusive, a vida sexual das pessoas. Os aplicativos de encontro transportam a experiência de consumo para uma plataforma em que pessoas reais se “vendem” como imagens de si mesmas.

Esses aplicativos parecem grandes castings para filmes pornográficos íntimos – você encontra uma pessoa (dá um match), se encontra com ela – sexo, e nada mais. Na verdade, nem isso, não há sexo como uma experiência de interação social, há apenas uma troca de tempo e informação por prazer.
Digo tempo e informação, pois esse é o preço que o app cobra do consumidor para lhe oferecer o casting em que cada um pode se vender como um candidato para um momento pornográfico a dois.

O sexo-app é um sexo sem intimidade, sem intimidade e absolutamente, sem amor. É um simulacro de o que o sexo pode ser para além de uma masturbação a dois (ou mais).
Por fim, a pornografia é ícone porque é idólatra.
Longe de ser um estímulo à imaginação, ela é extremamente realista, ao invés de jogar o consumidor nas asas da imaginação, ela o prende no mundo da imagética e da projeção barata. Ao invés de buscar sexo, porém, o consumidor da pornografia se fideliza a ela e se torna cliente – aumentando ainda mais seu isolamento.
Nenhum ato da imaginação é idólatra enquanto permanece na esfera da imaginação: ídolos sempre habitam o real, pois é apenas quando acreditamos neles que podemos cogitar substitui o espaço dedicado a Deus, em nossos corações, por simulacros.
Não é por ser real, contudo, que a pornografia é verdadeira. Sua imagética segmentada não existe na vida real – sexo de verdade nunca é um close de penetração, são duas histórias (ainda que mal compartilhadas) incorporadas em dois corpos vivos e juntos.

Contra a pornografia, portanto, cabe não apenas celebrarmos o sexo, mas também nos lembrarmos das palavras de Deus quando foi apresentar os 10 mandamentos:
“Então falou Deus todas estas palavras, dizendo:
Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão”.
Êxodo 20:1,2
Não havia nada de mais real, à época, que as cebolas do Egito. E nem por isso elas eram a verdade. E nem por ser certa a existência de cebolas por lá que a terra do Faraó deveria ser terra que prestasse, à época, para o povo de Deus.
Na sequência do texto, pois, o primeiro mandamento:
“Não terás outros deuses diante de mim”.
Êxodo 20:3

Pedro da Conceição colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


Este texto, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br.

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