Transformando o caos em jardim





Não peço que os tire do mundo, mas que os guarde do Maligno. – João 17:15

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. – Romanos 12:2

Recentemente aprendi que Deus não criou as cidades, mas um jardim. Rubem Alves afirmava que um jardim é a face sorridente de Deus e que essa face o basta. Depois do jardim, surgiram as cidades, fruto da pecaminosidade do nosso coração (a primeira relatada no capítulo 4 de Gênesis). Hoje cabe àqueles que foram alcançados pela Graça de Deus transformar o caos em jardim novamente.

Há cinco anos dois amigos se reuniram para iniciar esta missão em Belo Horizonte. A dupla se transformou em um grupo de mais inconformados “ao padrão deste mundo”, levando um violão debaixo do braço em ônibus coletivo em horário de pico. “Não estamos aqui para roubar, matar e nem para pedir o seu dinheiro. Somos o Desestressa BH e queremos que sua volta pra casa seja mais leve. Sorria pro coleguinha do lado; cante essa música com a gente; bata palmas no ônibus”. Vimos gente chorar por um abraço recebido, um ônibus inteiro morrendo de rir ao perceber que batiam palmas juntos ao som de “Vamos fugir” (ainda que o engarrafamento não permitisse); e tristeza sendo transformada em alegria. Em uma das oportunidades uma senhora me abraçou e aos prantos agradeceu: “vocês sabem que nós somos gente. Eu até já duvidei que eu fosse alguém e que fosse amada. Gente precisa amar gente.” foi o que ela disse. Por três natais presenteamos desconhecidos no centro da cidade; e praças e parques foram ocupadas em oito edições do Piquenique do Amor – milhares de panos estendidos compartilhando de alimentos perecíveis, mas também de alguns que não perecem – amor, gentileza e empatia. Colocamos balas nos retrovisores dos carros como se fôssemos ambulantes no semáforo e fomos atingidos por alguns motoristas que acreditavam que elas estavam sendo vendidas. Compartilho essas experiências porque cabe a nós transformar a cidade em jardim; e a missão de Deus – realizada através de nós – revela que as pessoas e os lugares não podem continuar da mesma forma após termos cruzado seus caminhos.

Gosto de uma canção do CantoVerbo que diz sobre um santo realizando um banquete em uma cidade. A canção relata que os moradores da cidade não compreendiam o fato de os fortes não serem bem-vindos à festa e que era no meio da gentalha que o mestre repartia graça e amor. Ao ouvir essa música ouço do próprio Jesus uma mensagem à senhora do ônibus e a nós. A ela, Ele oferece o banquete. A nós, designa a tarefa de prepara-lo.

Sirvam ao Senhor na cidade servindo pessoas. “O maior entre vocês deverá ser servo; Eu (Jesus) estou entre vocês como quem serve; dediquem-se uns aos outros com amor fraternal; exerça o dom que recebeu do Senhor para servir aos outros; o primeiro será servo de todos; sirvam de todo coração e toda alma” são algumas orientações práticas presentes no Novo Testamento para sermos operantes na construção deste jardim.

Há um lar a nossa espera e um dia retornaremos para a “face sorridente de Deus”, mas enquanto este dia não chega cabe a nós viver a eternidade no dia a dia e amar o que não merece ser amado (porque também não merecíamos); fazer o que o Estado não tem feito; e nutrir de esperança os corações feridos. 


Bianca Ceres colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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