Conserve-se, Transforme-se





Diante do fluxo disruptivo do mundo contemporâneo, com sua multiplicidade estonteante de cosmovisões, filosofias e religiões, e seu Zeitgeist (Espírito do Tempo) relativista, o cristão parece ter que escolher tomar uma posição perante esse mundo: ou assume uma postura conservadora, fechando-se para toda novidade que os tempos trazem, aferrando-se à tradição, com seus ritos e seus cânones, como a uma tábua de salvação, ou assume uma postura progressista, colocando-se como um homem ou mulher do seu tempo, acompanho o curso da evolução – ou revolução – histórica. Ser um cristão tradicionalista ou liberal? Conservador ou progressista? Resistir ao fluxo ou seguir com ele? Eis a questão.

Talvez valha a pena dar uma noção de que eu quero dizer com conservador e progressista, porque esses termos não se referem, aqui, a programas político-ideológicos (embora tenha reflexos inequívocos nesse plano), mas a atitudes perante o Zeitgeist. O progressista é aquele que adere ao Zeitgeist e revisa e o tem por critério último, inclusive da sua teologia, das suas crenças profundas. O conservador, por sua vez, é aquele que tem a tradição por critério último, resistindo a toda e qualquer novidade.

Quando Paulo escreveu sua carta à Igreja em Roma, esta era a cidade capital do maior império da época. Todos os caminhos levavam a Roma, e por eles chegavam e saíam todo tipo de pessoas e ideias. Do ponto de vista religioso, o Império permitia todo tipo de culto, desde que também se curvassem a César. Resumindo, Roma era cosmopolita e relativista. Não há nada novo sob o Sol.

É para uma igreja vivendo nesse contexto que Paulo escreve em Romanos 12:2: “não vos conformeis com esse mundo”. A cultura mundana fazia pressão, mas eles não deveriam se deixar ser moldados por ela. Cristãos não devem ser conforme o mundo, pois existe um antagonismo inconciliável entre Deus e o mundo, forma que ou amamos um, ou outro (2 João 2:15-17).

De fato, um dos maiores inimigos da Igreja é a pressão da cultura desse mundo para conformá-la a ele. O liberalismo (ou modernismo) teológico deixa claro que a Igreja não tem nada a ganhar cedendo ao mundo senão a irrelevância e a falência, como temos visto na Europa desde o começo do século XX. Como disse Russel Moore: “uma igreja que perde sua distinção é uma igreja que não tem nada de distinto com o que se engajar na cultura. Uma igreja mundana não é um bem para o mundo”. Um sal que não salga não serve para nada.

A opção progressista, portanto, está descartada. O cristão deve resistir às tendências da cultura do mundo que o forçam a se conformar a ele, isto é, a deformá-lo. Entretanto, é o caso de concluirmos que da recusa do progressismo se segue a alternativa conservadora? O antídoto para o veneno do historicismo é o tradicionalismo?

Tampouco. Para resistirmos à conformação do mundo, Paulo não ordena a estagnação; ordena a transformação. Mais que isso: a transformação pela renovação. Talvez porque o tradicionalismo seja ele mesmo uma forma de mundanismo, uma idolatria da tradição.

Os fariseus estavam tão apegados à tradição que não conseguiram ver o cumprimento esperado das profecias messiânicas em Cristo (Mateus 15). Da mesma forma, a tensão entre judeus apegados a suas tradições e cristãos foi uma tensão constante na Igreja primitiva, culminando no Concílio de Jerusalém (Atos 15). De certa forma, essa é a mesma tensão subjacente à Reforma Protestante e a certos movimentos de renovação litúrgica dentro do evangelicalismo.

Imaginemos se, diante dos ataques mundanistas do gnosticismo, marcionismo, arianismo e outras heresias (todas, e cada uma a sua forma, fruto do pensamento da sua época), os ditos Pais da Igreja se fechassem na tradição cristã de até então e não enfrentassem as questões de sua época? Onde estaria, por exemplo, a Doutrina da Trindade e a Doutrina da Dupla Natureza do Cristo (em suas formulações doutrinárias, não em sua verdade espiritual) sem o renovador pensamento patrístico? E os Cinco Solas, onde estariam se os reformadores (e, antes deles, os pré-reformadores) não renovassem suas mentes?

A Igreja primitiva teve que lidar com as pressões dos judeus tradicionalistas e dos hereges que traziam o pensamento pagão. Os dois eram formas de mundanismo, pois tinham sua fonte nesse mundo. Não existe motivo para acreditar que a Igreja não sofra essas pressões hoje – na verdade, temos muitas evidências disso. Não à toa, me utilizei dos termos progressista e conservador.

A resposta bíblica, contudo, permanece a mesma. Ela vale ontem, hoje e amanhã, porque sua verdade não está fundada no ontem, no hoje ou no amanhã – ela é eterna. Não é velha, nem é nova; não é antiga, nem moderna – é eterna. Não é uma verdade do nosso tempo, mas é uma verdade para o nosso tempo. Por isso, o cristão pode tomar posições ora tidas como conservadoras, ora tidas como progressistas, sem, no entanto, ser nem uma coisa, nem outra. Pode parecer um pouco confuso, e o é, chega a parecer incoerente. Os padrões aos quais o cristão é chamado, entretanto, não sendo os mundanos, são mesmo indiscerníveis para os que os são (1 Co.2:15).

Luiz Perico colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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