Que tipo de igrejas temos?

Imagem de divulgação (House of Cards Netflix).




As igrejas cristãs, mas principalmente as denominações evangélicas, estão presentes em todo o território brasileiro. Desde pequenas cidades e rincões do Brasil até grandes centros urbanos, grandes metrópoles. Templos evangélicos estão em condomínios de classe média alta, mas estão também em favelas e bairros periféricos. Estão aonde quer que formos nesse país... 

Assim como já disse Frank Underwood (personagem de House of Cards) “[…] it’s all about location, location, location” (algo como tudo é uma questão de melhor localização), diferentes denominações disputam território, melhores prédios em avenidas, cobrem valores de aluguel de  suas igrejas “co-irmãs”. Tudo numa busca de garantir o acesso dos fiéis às suas instalações e negócio ou missão urbana. Paro por um momento para dizer que tudo mencionado até aqui faria admirar qualquer teórico de estratégia de marketing e publicidade. 

Essas igrejas acabam também por cobrir mesmas regiões, bairros, distritos, de forma que em grandes cidades é impossível andar dois quarteirões sem que se tropece num novo templo ou galpão adaptado para atividades de culto. As denominações são tão democráticas nas suas crenças, liturgias e doutrinas quanto a criatividade de seus líderes permite. A liberdade de religião é um dos fatores chave para esse dinamismo, crescimento exponencial de igrejas e falta de critério na formação dessas entidades. De certo, caro leitor, você deve ter uma experiência parecida na cidade onde vive.

Ao mesmo tempo que temos igrejas suficientes para casa dia da semana, ficamos nos perguntando onde estão os cristãos dessas igrejas? Afinal, templos temos aos montes, porém cristãos parecem estar em falta. De um lado, temos diagnósticos de um número cada vez maior de pessoas que se denominam evangélicas, mas que não tem vínculos com quaisquer denominações, mesmo entre as tantas opções que temos. Por outro lado, face a crise financeira que o Brasil enfrenta faz cair vertiginosamente as arrecadações das igrejas, que por sua vez acabam absorvendo essa crise econômica, e membros das chamadas igrejas da teologia da prosperidade (muitos em suas frustrações) aderem a igrejas que sejam menos voltadas para a arrecadação buscando alívio para suas dificuldades.

Desde que o país iniciou sua abertura religiosa no século XIX, mas com real e vertiginoso avanço populacional nas últimas três ou quatro décadas, o país chegou a uma ampla cobertura do seu território marcado pela presença das igrejas evangélicas. Infelizmente, neste nosso cenário brasileiro, cenário majoritariamente cristão (seja católico ou evangélico) ainda é um cenário de injustiça social, de corrupção em todas as esferas da sociedade e de muitas outras mazelas. Uma sociedade composta de milhões de cristãos é insuficiente para mudar nosso quadro social? Isso me parece horrivelmente paradoxo!

Popularmente somos chamados tanto de cristãos, como de evangélicos e os até, menos comum atualmente, crentes, mas nos perguntamos se nos chamam de todas essas formas pelo simples fato de irmos a uma igreja ou pela semelhança com o Cristo, com a imitação que devemos fazer de Jesus como ensina Paulo ou de sermos cada um de nós um pequeno Cristo. Se concordarmos que devemos descrever e identificar de tal forma, a identidade do cristão, passando também pela mesma maneira como eram descritos os primeiros cristãos, nossa incoerência encontraremos ao olharmos para como se comportam as igrejas que temos, igrejas essas que mais se parecem com seus fundadores e líderes do que com Jesus; igrejas que vivem disputando para ver qual tem o maior número de membros, o maior templo, o maior poder de capital, qual tem a maior concentração do poder divino e espiritual nessa terra, entre outras disputas tacanhas, vãs e mesquinhas.

Ao mesmo tempo que percebemos e louvamos a capacidade de algumas denominações de penetrarem em camadas sociais bem pobres (e com isso levarem a um renovo ético e moral cristãos a pessoas que outrora até acesso a qualquer tipo de literatura fora negligenciado), também não podemos deixar de repudiar a origem de pequenos reinados, pequenos califados familiares que nada se assemelham com uma missão cristã urbana de nivelamento ou empoderamento de indivíduos das mais diversas comunidades espalhadas por esse Brasil e mundo.

Diante disso, chegamos à conclusão e que não pode ser outra senão que a igreja brasileira perdeu a sua identidade! Uma identidade que em algum momento já foi menos comercial, menos caricata do ser cristão (aquele ser da bíblia debaixo do braço, de roupas sociais e/ou humildes utilizadas cotidianamente como símbolo de virtude moral, mas também de isolamento do restante da sociedade que, eventualmente, os circulasse) e mais de virtude (como descrita por Aristóteles), de dignidade do ser humano, de resgate de milhões de brasileiros do alcoolismo, de vícios, do banditismo, do analfabetismo, de lares restaurados. Todos frutos de uma pregação simples de arrependimento de pecados e de salvação pela fé num Cristo muito próximo destes tantos brasileiros humildes e com poucos recursos financeiros, esquecidos ou mal amparados pelo estado. 

Temos sim que voltar às escrituras e dessa forma resgatar o modo de viver como Cristo nos ensinou, ainda que sem romancear nosso passado recente ou falsear expectativas nos nossos líderes humanos e suas limitações, mas sólidos na crença numa bíblia inerrante, para então sermos chamados CRISTÃOS. De outra forma, somos religiosos idólatras, quebrando dessa forma os mandamentos de Deus: 
Não terás outros deuses diante de mim (Ex 20:3).
Não há outra forma de descrever um cristianismo baseado em recompensas materiais, culto velado a pastores (e se asseclas) e pagamento de indulgências travestidos de “atos de fé”.

Que beleza há em se ter dez igrejas numa mesma rua quando os que lá frequentam, em nada se parecem com Cristo ou sequer são ensinados a O imitarem. A nossa atuação na sociedade não deve demonstrar um caráter egocêntrico ou antropocêntrico, mas, como instituição, devemos ser cristocêntricos, diminuir diferenças entre as inúmeras denominações, concentrar esforços numa desigualdade social que é tão difícil ser diminuída: 
Vocês são a luz do mundo (Mt 5:14 ).

Porque somos chamados Cristãos? 
E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja, e ensinaram muita gente; e em Antioquia foram os discipulos , pela primira vez, chamados cristãos (At 11.16).

O recorte do universo evangélico brasileiro que foi apontado aqui não deve parar ou ser limitado por esse texto, por isso oramos para que muitas pequenas revoluções que já têm se iniciado (e que são até, de certa forma, silenciosas) por meio de tantos jovens e curiosos da palavra sobrevivam, sejam nutridas e deem frutos na construção de uma comunidade cristã integrada com toda a sociedade brasileira, ainda que na posse e na manutenção de seus valores.

Maranata!

Cleiton Alves e Oséias Feitosa-Junior colaboram e escrevem para o blog Cristo Urbano.


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