A magia do Natal



Dedicado a Ari Marcelo Solon

Se os protestantes têm um dogma bastante compartilhado este é o da unidade da bíblia. Trata-se de um pressuposto da ideia luterana de sola scriptura (a Escritura apenas).
Ao falarmos da unidade da bíblia, porém, estamos pressupondo também uma série de outras “unidades” que são assumidas além da mais difícil de ser aceita, que é a unidade entre Antigo e Novo Testamentos. Além desta, podemos falar em:

- Unidade da narrativa dos 4 evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), subdividida em uma unidade específica entre os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas);


- Unidade do pentateuco, um dos principais motivos da tão duradoura tradição da autoria mosaica;


- Unidade na narrativa histórica entre Josué, Juízes, I e II Samuel, I e II Reis e I e II Crônicas;


- Unidade na narrativa histórica entre Esdras, Neemias e Ester;


- Unidade no discurso sapiencial salomônico de Provérbios e de Eclesiastes;


- Unidade dos Salmos multiautorais (tendo destaque, como autores, Davi e Asafe);


Unidade dos discursos apocalípticos de Daniel e Apocalipse (e das passagens apocalípticas de Isaías, dos Evangelhos, das cartas paulinas, etc.);


Enfim, unidades.
Mas em que consiste essa unidade?
Os católicos são, nesse ponto, mais realistas que os protestantes – parece que antes de haver uma oposição entre Tradição e Escritura há uma unidade adicional, a qual explica, inclusive, a unidade do texto bíblico: essa unidade é dada pela Tradição de Igreja (sólida e única) por uma ação histórica coordenada pelo Espírito.
Essa explicação, que apesar de realista, não deixa de ser teológica, foi abandonada em grande medida no período das reformas. Antes disso, porém, ela parecia já não abarcar a verdadeira tradição no seio do qual nasce a própria igreja – voltarei logo mais nesse ponto, do que chamo a Tradição Antiga.
Lutero não chega a desenvolver uma teoria da unidade bíblica, mas esbarra nela, o que o levou a ser considerado, hoje, um cânone da hermenêutica, que é a arte da imputação de sentido. Indo muito além da exegese dos textos ou mesmo da interpretação, a hermenêutica bíblica somente passa a existir no momento em que se atribui à bíblia completude e autossuficiência, de modo que é a partir dessa premissa que se desenvolveram as regras de interpretação bíblica tão comuns aos protestantes [1].
Não é por acaso, percebam, que há diversas denominações protestantes: são divergências interpretativas que fundam as diferentes correntes denominacionais (doutrinas), mas não necessariamente uma diferença hermenêutica.
Há, isso sim, uma diferença hermenêutica entre católicos e protestantes.
Mas apesar de existirem diversas denominações protestantes, quero frisar a existência de uma unidade hermenêutica entre elas – sendo que, geralmente, os “protestantismos” sectários costumam, inclusive, ser marcados pela existência de um segundo livro... rompendo, portanto, com a unidade hermenêutica da sola scriptura.
Essa unidade hermenêutica protestante se aproxima mais da Antiga Tradição e justifica a unidade bíblica de forma muito similar à Antiga Tradição – falo aqui da antiga tradição judaica.
Não é à toa que, assim como os protestantes hoje em dia, os judeus também eram divididos em “denominações”, sendo que as mais conhecidas são as apresentadas pelos evangelhos e outros textos da época: os fariseus, os saduceus, os zelotes e os essênios.
Muitas das diferenças entre eles se pautavam em diferenças interpretativas (ainda que se possam fazer recortes étnicos e de classe, da mesma forma que ocorre hoje entre as diversas denominações protestantes).
A tradição judaica, ou seja, a Tradição Antiga, possui uma sintonia grande com o protestantismo ao criar uma dependência do livro. Não se trata, porém, de uma dependência justificada, como no catolicismo, pela Tradição. Antes, trata-se de uma dependência mística.


Explico: tanto judeus, quanto gregos (romanos são os católicos) creem em um poder unificador da palavra mesma, do texto escrito ou falado (o texto falado por Deus é o que está escrito?) ou encarnado (o logos do apóstolo João).
Trata-se de uma crença injustificada, autocolocada. É claro que ela se reflete em diversas passagens bíblicas, como as seguintes:
“E o terá consigo, e nele lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer ao Senhor seu Deus, e a guardar todas as palavras desta lei, e estes estatutos, a fim de os cumprir” – Deuteronômio 17:19
“Meditarei nos teus preceitos, e terei respeito aos teus caminhos. Recrear-me-ei nos teus estatutos; não me esquecerei da tua palavra. Faze bem ao teu servo, para que viva e observe a tua palavra” – Salmos 119:15-17
E
“E desde a infância conheces as Sagradas Escrituras e sabes que elas têm o condão de te proporcionar a sabedoria que conduz à salvação, pela fé em Jesus Cristo. Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra” – 2 Timóteo 3:15-17
Mas a própria relação que podemos estabelecer entre esses textos e que nos leva a afirmar que os três se referem à mesma Escritura é um presente que os protestantes herdaram da Antiga Tradição.
Agora cabe explicar que a Antiga Tradição não é apenas o judaísmo, tomado em seu cânone, mas a própria mística judaica.
Prestem atenção na seguinte passagem, que comenta a subida de Moisés no monte Sinai para receber a Lei das mãos de Deus:
“Said R. Nathan: Why did Moses stay the entire six days without communication from the Shekhina? To cleanse his body of all the food and drink it contained, that he might be like angels at the time of his consecration
Said R. Mathia b. Heresh to him: Rabbi, all this stated above was done only to overawe him, that he might receive the words of the Torah with awe, terror, fear and trembling, as it is written "Serve the Lord with fear and rejoice with trembling"
O trecho foi retirado do Livro V do Talmude Babilônico [2], e retrata a conversa de dois Rabis sobre a demora de Moisés para receber efetivamente a Torah (aqui tratada como os mandamentos). O primeiro Rabi entende que Moisés precisou passar por um processo de purificação até que pudesse, finalmente, receber a escritura.
O segundo Rabi, porém, traz a verdadeira explicação mística: o que aconteceu com Moisés teve a função de assombrá-lo, de enchê-lo de temor e tremor pois é com temor e tremor que se serve ao Senhor e se alegra nEle – e a única forma de fazê-lo é por meio... das escrituras!
A mística judaica é um passeio pelas histórias que circundam as escrituras e é justamente sua fidelidade ao tema central das escrituras que faz com que ela não resvale na magia, que sempre lhe foi proibida.
A magia não se centra nas escrituras, muito pelo contrário, ela usa a escritura e a técnica repassada nas escrituras para mudar o mundo que as envolve. Não é à toa que o trabalho da magia é sempre um trabalho, no sentido forte do termo, um exercício, porque executar uma magia requer utilizar uma técnica (o que requer domínio e prática).
É o que se vê com a manutenção do dogma da transubstanciação no catolicismo, evento mágico que adentra a eucaristia se forem atendidos os requisitos estabelecidos no manual de magia – no caso, da tradição. Mas é também o mesmo fenômeno que se vê nos festivais de expulsão de demônios de algumas igrejas evangélicas.
A mística não guarda relação com isso.
Diferentemente da magia, a mística não nos apresenta fórmulas que, uma vez repetidas, mudam o mundo (faça isso, aquilo e aquilo outro e você verá o pão sendo a substância da carne, e você verá os demônios deixando a vítima, etc.). A mística verdadeira, que os protestantes herdaram da antiga tradição judaica, não visa transubstanciar o mundo, mas tão apenas o próprio homem, ou melhor, o leitor.
Isso porque todo fiel – em uma religião do livro – é, ele também, um leitor. Mesmo o crente analfabeto aprende a ler a linguagem com que Deus escreveu a existência e percebe que a unidade hermenêutica da bíblia é um reflexo – místico – da palavra que sustenta o Universo. Ou seja, mesmo que não consiga ler a letra do livro, ele a valoriza e a guarda no coração, como o salmista.

Nesse sentido, a unidade do mundo é pista da unidade do livro, sendo que o místico reconhece que não se trata de aprender a manipular a palavra para transformar o mundo, como se o mundo fosse mais importante que a escritura – para o místico, pelo contrário, a escritura é mais importante que o mundo porque ela permanece santa, imaculada, se tornando nosso único refúgio real para encontrar o divino.

Nos aproximando do natal, vale à pena lembrar que o nascimento de Cristo foi marcado não apenas por um evento místico por excelência – o cumprimento da profecia, escrita, que apontou no céu o lugar em que nascia o menino-Deus – mas também a visita ao mesmo tempo miraculosa e simples, gloriosa e anônima dos reis magos e dos pastores de ovelhas.
Ambos, magos e pastores, apontam para lados complementares da antiga tradição e da mística judaica, e apontam para o Cristo que é humano e messias, que é a unidade entre Deus e homem, entre a profecia quotidiana e o apocalipse.
O Cristo místico é a maior herança que recebemos, nós, protestantes, da antiga tradição judaica e não podemos perdê-la para o conforto da técnica (técnica cultual, técnica devocional, técnica discipulal) e dos rituais mágicos que nos prometem mudar o mundo ao redor – nosso coração deve sempre estar voltado para o momento místico da estrela guia que aponta não apenas para o Salvador, mas para a realização toda da própria escritura. Nossos olhos devem estar voltados, como diz Paulo, para o piscar de olhos em que Kronos e Kairós passarão, na volta do messias.

Quando a nossa fé se torna automática, quando perdemos o encanto – o medo de abrir a Bíblia e nos depararmos com Deus em pessoa diante dos nossos olhos – então sabemos que é chegado o momento de procurar, mais uma vez o que há de espantoso no nosso Cristo e em seu milagroso Natal – ou seja, buscar não a magia do natal, mas toda a sua beleza mística.



[1] Essa diferença também se reflete na preferência protestante por Santo Agostinho, em detrimento de São Tomás. O que os protestantes gostam em Agostinho é sintoma da identificação com o espírito hermenêutico dos seus longos comentários diretos ao texto bíblico (seus comentários aos Salmos sendo mais famosos) e indiretos, presentes tanto nas Confissões quanto na Cidade de Deus. Já São Tomás é conhecido prioritariamente pela Summa, em espírito claramente organizacional da tradição, sendo que seus comentários à Ética à Nicômaco são mais conhecidos que seus comentários às epístolas paulinas.
[2] Tradução par ao inglês disponível em: http://www.sacred-texts.com/jud/t05/abo05.htm.


Pedro da Conceição colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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