Abandonar a empatia também é uma tragédia



“Preciso trazer à memória histórias que desprezei.
Não posso me esquecer, tenho que oferecer
Flores em vida
Enquanto é dia.”

Era 13 de agosto quando recebi a notícia. Um áudio contando que uma amiga (bailarina¹, 21 anos, há menos de um mês de uma viagem de intercâmbio marcada para Portugal) estava no CTI e havia perdido todos os movimentos. Ninguém sabia explicar como e nem o que tinha acontecido. As informações eram desencontradas e só havia uma unanimidade: não adianta nem mandar mensagem porque ela não tem acesso ao celular no CTI e nem mexe do pescoço pra baixo. Naquele momento a minha sensação foi de culpa. Eu havia adiado diversos encontros com esta minha amiga e agora o nosso próximo encontro seria em um leito de hospital.

De lá até o dia da alta foram 27 dias de internação – parte deles no CTI. Fui visitá-la mais de uma vez, fiquei alguns dias no hospital e era nítido a mobilização das pessoas para visitá-la e ajudá-la. Em um final de semana que eu estava de acompanhante precisei descer e organizar o tempo de visita – tinham aproximadamente 30 pessoas aglomeradas na portaria do hospital para visitá-la em um período de quatro horas.

A medida que o quadro clínico ia melhorando, a mobilização e envolvimento das pessoas (no qual eu me incluo) também ia diminuindo. Sorrateiramente íamos deixando os grupos de atualizações e oração e deixava de ser necessário uma pessoa para organizar e controlar os horário de visitas.
O diagnóstico foi feito e aos poucos os movimentos começaram a voltar. A paralisia agora tinha nome -  Neuromielite óptica. Uma doença rara, crônica, inflamatória, autoimune e semelhante à esclerose múltipla. A evolução² e o distanciamento aconteciam no mesmo ritmo. Aos poucos íamos assumindo nossas próprias tragédias e deixando de nos deixar afetar pela dor do outro. Por vezes mandei mensagens pra essa amiga pedindo perdão pelo meu distanciamento e a resposta era sempre a mesma: “não se preocupe! Agora que já sabem que não vou morrer está todo mundo assim mesmo”. Era uma brincadeira com um imenso fundo de verdade. Eu (também) havia a deixado no momento em que ela mais precisara de mim.

Escrevo sobre isso porque provavelmente é o que vai acontecer com as famílias das vítimas da maior tragédia do futebol nacional e que acontece diariamente com centenas de vítimas de outras tragédias. Aos poucos o coro de “Força Chape” vai perder a potência (da mesma forma que a hastag da minha amiga perdeu); e aquela mãe que disse ter perdido o filho, mas ganhado outros milhares, se enxergará solitária e “orfã” de uma multidão. Nossas tragédias nos levarão para nós mesmos e não mais em direção ao outro.

Conversando com esta amiga sobre a tragédia de Chapecó, ela disse que sofria mais pelos sobreviventes do quê por quem havia partido. O sofrimento se justifica por vislumbrá-los enfrentando o mesmo que por vezes enfrenta – uma comoção nacional seguida de um silêncio ensurdecedor em um quarto fechado esperando que as manifestações virtuais se transformem em visitas e ouvidos prontos a ouvir desabafos ainda mau elaborados.

O que sustenta essa minha amiga é a fé que ela mantém no exemplo mais pleno de empatia que já existiu. Os olhos turvos pelas lágrimas visualizam um Deus que levou tudo o que há de errado em nós. Um Deus que foi ferido, dilacerado e esmagado por ter assumido as nossas tragédias e carregado as nossas falhas. A Sua disposição em se entregar voluntariamente em nosso lugar foi o que possibilitou a nossa restauração. Provavelmente neste ato de entrega Ele queria nos dizer que tragédias são amenizadas quando nos entregamos em favor do outro. E que pecados podem ser jogados no mar do esquecimento, pessoas não. Tragédias são noticiadas diariamente e “descartadas” quando a próxima se instaura, pessoas precisam de suporte mesmo que a próxima manchete faça com que elas caiam no anonimato.

Que possamos aprender com Aquele que na praticidade  nos ensinou que não há amor maior do que dar a vida pelos amigos e que cumpriremos a Lei de Cristo quando levarmos os fardos uns dos outros.

¹: Esta imagem é um desenho feito por ela pouco tempo depois de ter recebido alta e com os movimentos dos braços ainda bem debilitados.

²: Hoje, quase quatro meses depois da primeira internação os movimentos têm voltado gradualmente. Hoje ela faz o uso de andador e cadeira de rodas.


Bianca Ceres colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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