O cristão deve acreditar na evolução?






Estava eu na minha primeira graduação, quando me deparei com a situação de que a evolução fazia muito sentido diante de toda a produção científica. Daí a pergunta seguinte que veio foi: “como conciliar esse conhecimento com o pecado original? ”.
O pecado original, para quem pode não se lembrar, é um dogma teológico, proposto por Agostinho de Hipona, no século IV, e que está meio que enraizado na mente da maioria dos cristãos mesmo que essa maioria não saiba desse contexto histórico. Basicamente o pecado original é o conceito que diz que pelo primeiro casal humano o pecado entrou na humanidade, mas por Cristo, homem, o perdão e a redenção foram alcançados, sendo esse o propósito da graça salvífica do sacrifício da morte de Cristo.
Esse é um ponto. Não o único, mas desde Agostinho essa teologia já era um tema polêmico.

A Igreja Católica tem uma visão que concilia a noção de evolução com a existência de um primeiro casal. Nessa visão, independentemente do modo veio a existir um casal (dotado de alma) responsável pelo primeiro pecado. Daí por diante os eventos e os dogmas permaneceriam inalterados (como os eventos que já conhecemos e estão descritos na Bíblia). Muitas outras igrejas cristãs já se aproximam ou mesmo adotam uma compreensão muito parecida, como dita pelo pastor Timothy Keller da igreja Presbiteriana de Nova York aqui.

Se você é cientista e está lendo esse texto pode se perguntar porque a opinião manifesta de instituições religiosas e/ou de sacerdotes seria, de alguma forma, importante sobre um tema (evolução) que é estritamente matéria de debate e estudo científico. A verdade é que você não está errado, mas um número alto de pessoas tem na figura de seus líderes religiosos a fonte de conhecimento, de guia. Um número de pessoas com falhas de formação ou com baixo nível de instrução são assim, dependentes. Assim como eu tenho dificuldades de entender explicações básicas sobre fenômenos da física quântica ou argumentos que sustentam o direito civil, é bem compreensível que um bom número de pessoas confie nos seus líderes, padres e pastores para lhe instruírem sobre ciência. Pode parecer bizarro, mas isso não é novo. É uma esperança que novos líderes e sacerdotes influenciem na abertura para atualização de como se encara e se entende a natureza.

É bom, é excelente que o universo religioso se torne cada vez mais aberto para a divulgação da ciência. Mitos caem por terra, misticismos dão lugar a boas práticas e todos passam a perder o medo de tomar manga com leite ou de deixar espelhos descobertos em dias de relâmpagos.

Uma das coisas que me encanta na ciência é que nela não há compromissos com dogmas, como na religião (e assim deve ser para se entender a natureza). Na ciência uma hipótese pode ser incansavelmente testada a fim de ser refutada e sendo refutada tudo o que foi adotado até aquele momento cai por terra, sem crises (talvez com um pouco de crise para o cientista que errou nas suas conclusões). Aliás, através da ciência e seu sistemático “método científico” mitos populares são refutados como “é ideal comer de três em três horas”, “mulheres sincronizam suas menstruações quando convivem juntas” e outras tantas tolices que, algumas, ninguém sabe de onde surge, mas que se tornam verdades após o tanto que são repetidas e propagadas.

Com a teoria da evolução não seria diferente. Bom, de cara já vale ressaltar que há coisas que a teoria se presta a dizer, constatar e há muitas coisas que são extrapolações do que se sabe sobre este tema. A teoria da evolução, por exemplo, não trata sobre como o primeiro ser vivo veio a existir, não trata da origem do universo também, nem é um caminho para se refutar deus. A teoria é exatamente para entender como os seres vivos que existem hoje evoluíram e chegaram a ser o que são hoje.

Dentro da evolução há forças como a seleção natural, a deriva genética, a migração e a mutação. Nossa sequência de nucleotídeos – o tão falado, nosso DNA – está sujeita a uma infinidade de estresses, e pelos estresses mutações, que podem ter consequências na forma como interagimos com o ambiente. As mutações estão ocorrendo constantemente no nosso organismo, muitas vezes sem nenhum efeito visível ou patológico, muitas delas também compõem o que somos desde que nascemos: cor dos olhos, falta de pigmentação na pele, entre outras tantas variações... Mutações podem ser deletérias e tornar um ser inviável de ter vida, sobreviver, mas podem ser absolutamente neutras num determinado ambiente. É aí que a evolução que conhecemos começa a nos desafiar a pensar. A seleção não escolhe melhores, ela apenas permite que se mantenham os mais adaptados. Um exemplo disso é que temos menos pessoas com anemia talassêmica no Brasil do que em muitos países africanos (já que as células desses indivíduos lhes conferem uma proteção contra um protozoário) onde a malária é endêmica. Mas a seleção natural não é a única força que dirige a evolução em função das mutações. A deriva genética e as migrações representam outras forças e que não estão ligadas à adaptação ao ambiente: a primeira pode ser explicada, por exemplo, por um casal de estatura média de 1,90 cm que se isola de uma população de altura média de 1,70 cm sendo possível já imaginar que após muitas gerações essa nova população formada será muito diferente da população original (ou seja, de 1,70 cm), a segunda, pode ser exemplificada por pessoas de olhos castanhos se integrando numa população que tenha na sua maioria indivíduos com olhos azuis, aumentando em algumas poucas gerações a frequência dessa característica (olhos azuis) naquela população (de maioria de olhos castanhos).

Todos esses eventos estão acontecendo a todo momento no nosso dia-a-dia, quando aumentamos a população de insetos resistentes aos inseticidas (matamos os insetos sensíveis, mantendo os resistentes) ou quando selecionamos cada vez mais bactérias resistentes a antibióticos de última geração no uso indiscriminado de medicamentos (tornando algumas infecções praticamente impossíveis de serem tratadas).

Nós já aceitamos inúmeras coisas que são parte do conhecimento vindos com toda a teoria da evolução, mas muitos de nós ficam extremamente receosos de ir de encontro ao que aprenderam desde os tempos de escola bíblica dominical. Eu afirmo que a narração dos eventos descritos em gênesis 1 e 2 não é mentirosa, nem fantasiosa. Não acredito nisso, nem quero transmitir essa ideia com o pouco que disse até aqui. Mas tampouco creio que seja uma narrativa literal. E não penso assim porque creia numa limitação de Deus. Pelo contrário. Tenho fé num Deus soberano sobre o universo, assim como Ele mesmo se descreveu a tantos na Bíblia e também a muitos outros em nossos dias. 

Creio sim, que a narrativa dos dois primeiros capítulos de gênesis foram a melhor maneira de contar a origem do universo. Uma narrativa com recursos poéticos ainda que não seja um poema característico do hebraico, mas com muitos termos pouco usuais ou descritíveis como “movia-se sobre as águas” ou “criou luminares”. Mais ainda, Sol e Lua foram criados num quarto dia, mas esta estrela e astro são os responsáveis pela noção de dia terreno... Como conciliar essas peculiaridades? A Bíblia nunca se propôs a ser um tratado científico, mas é a palavra de Deus revelada, como a conhecemos. Fonte da noção de certo e errado (influenciando a tantas constituições e leis mundo afora), fonte da noção de nossa limitação e finitude e do nosso maravilhar diante de Deus e sua criação.


Como há ainda um desconhecimento e descrença de muitos cristãos sobre a evolução é um pouco missão de cada um de nós estudar e ter interesse mínimo pela biologia e pelas ciências, de modo geral. A fé sem um componente lógico, sem um raciocínio é muito rasa, muito fraca e bem fácil de ser combatida. É na fase das graduações que muitos sentem que o pouco que aprenderam durante a infância e adolescência é totalmente descolado da realidade. Por outro lado, alguns outros já passam por muitas disciplinas da forma mais indiferente possível com a finalidade de não comprometer o que sempre acreditaram. As coisas velhas passaram, renovamos nossa mente diante da verdade que vem de Deus e não há nada, que nos pode separar do amor nem da verdade. Não há descoberta científica que tem poder de mutilar, de enfraquecer nossa fé, pelo contrário, o estudo da natureza, a noção do seu funcionamento nos nossos melhores ou piores dias dá dimensão da imensidão dAquele que está também dentro de cada um, a um passo de oração.


Oséias Feitosa-Junior é um dos criadores do blog Cristo Urbano e se aventura a escrever ocasionalmente.


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