Na tragédia, o silêncio de Deus e o choro do jornalista

Crédito: Daniel Isaia/Agência Brasil



Todo jornalista sonha com uma grande cobertura. Na minha curta passagem pela profissão, eu cobri a maior tragédia da história do Brasil – era correspondente de um grande veículo impresso de circulação nacional a apenas três horas e meia de carro do local da tragédia. Acordei meio tarde num domingo, em que só teria culto à noite. Com o telefone tocando. Era o Jefferson, fotógrafo: "André, você vai pra Santa Maria? Parece que já são vinte mortos". Meio sem entender, ainda, falei que ia com ele. Esperei o Jefferson na frente do Beira-Rio e tocamos para o coração do Rio Grande. Rádio ligado. Conforme a gente ia se aproximando, a tragédia crescia. Eram dez, doze vezes mais mortos do que no primeiro telefone do meu colega.

Escrevo isso na semana em que o Brasil chora pelo luto de uma outra tragédia devastadora. Desta vez, ela ainda mexe com as duas principais religiões do povo brasileiro: o futebol e a torcida pelos pequenos e oprimidos, nossa fé inexplicável na bola e nas histórias de superação. Desta vez, a tragédia também se abateu sobre os jornalistas – e foi inevitável pensar se eu seria capaz de cobri-la.

Quando eu era adolescente, sonhava em ser jornalista de guerra. Não que eu gostasse de armas, aviões ou patentes. Apesar do ânimo para exaltado em discussões, eu nunca tive coragem de dar um tapa em alguém. Sempre fui muito frouxo pra me imaginar tendo que matar alguém. Mas achava que guerras eram o ápice da irracionalidade, da maldade humana, de tudo aquilo que precisa ser relatado com a maior crueza para que ninguém um dia caia na tentação de achar que é algo que se justifique, em alguma hipótese. A guerra é o mal tornado banal pelo homem de tal forma que resta a quem esteja em uma perguntar se Deus existe – porque, se existe, por que permite tanta maldade?

As tragédias como a queda de um avião ou um incêndio em uma boate, no entanto, torcem nosso senso de justiça de um jeito que não sobra quem culpar. Não há mais que se perguntar "por que Deus permite a maldade do homem?", mas apenas: por que Deus inflige, ele próprio, tamanho mal a pessoas que mal nenhum fizeram? 

Nessas horas terríveis, o trabalho do jornalista é perguntar o que deu errado. E isso nos leva às condicionais que arrancam até a última gota de lágrima, depois de um dia de muito suor: e se os seguranças não barrassem a saída dos clientes? E se o sistema de pagamentos não fosse por comandas? E se a espuma tivesse efeito retardante? E se fogos fossem proibidos na boate? E se fosse o fogo certo para ambientes fechados? E se o extintor tivesse funcionado? E se ninguém achasse que a porta do banheiro poderia levar a uma saída? E se a vistoria dos bombeiros tivesse sido adequada? E se o alvará da prefeitura não tivesse sido concedido? E se o socorro estivesse melhor preparado? E se o herói-grandalhão não tivesse voltado para salvar a décima-oitava pessoa de dentro da boate? E se o gaiteiro não voltasse para buscar seu instrumento?

E se o piloto parasse em Bogotá? E se fosse o mesmo avião fretado desde o Brasil? E se o aeroporto de Medellín desse prioridade de pouso? E se o planejamento de voo tivesse sido mais rigoroso? E se o Danilo não tivesse salvado aquela bola com o pé no último lance do jogo contra o time do papa? Realidades alternativas se atropelam tentando buscar sentido ou lógica em meio a tanta e inexplicável dor. Por mais que haja erros sucessivos, em tragédias, e sempre há, não encontramos nelas grande maldade, nem a perdição inescapável do homem, nem qualquer razão pregressa que motive Deus a agir para nos trazer um mal aparentemente inconsolável. 

No fim do primeiro dia da cobertura em Santa Maria, liguei para meu melhor amigo, tarde da noite, de um cemitério que comportava apenas três velórios, mas que velava seis, oito corpos. Ainda pouco perto do ginásio que só comportava jogos de futsal, mas onde foram enfileirados mais duzentos corpos para serem identificados pela família. Era só mais um pedacinho da tragédia que fez com que na manhã daquele domingo, em vez dos sinos das igrejas, o que se ouvisse ali no ginásio de Santa Maria fosse a sinfonia dos celulares tocando por causa das mães tentando encontrar os filhos com vida. Um deles tinha tocado mais de cem vezes. Todas as ligações perdidas eram da mãe. 

Eu não tinha nenhum conhecido ali. O meu amigo fotógrafo entrou naquele ginásio feito de IML, mas eu fiquei no ginásio ao lado, com um rapaz que tinha perdido a irmã e cinco amigos, na festa de despedida depois de passar férias em casa e logo antes de voltar para Londres. Eu era só um observador externo, que não deveria se emocionar com aquela tragédia. Que não tinha tempo para servir água ou oferecer o ombro para familiares das vítimas. Que tinha que tirar até a última gota de choro daqueles que perderam os filhos e namorados para que o texto desse a dimensão da tragédia e emocionasse quem não tinha nada a ver com aquela história. 

Minha função era apenas ser profissional. Só ser como os jornalistas são, do jeito que eu tinha lido, dois meses antes, no livro do Gay Talese: "Esse distanciamento do mundo que observam lhes rouba uma experiência mais profunda que brota do envolvimento e, às vezes, se tornam meros voyeurs que veem muito e sentem pouco. Encaram a morte e a tragédia de modo tão trivial quanto uma greve no porto e não têm dúvidas quanto a seu direito de divulgar as fraquezas dos outros, sem nunca ter de expor eles mesmos."


Eu precisava encarar a morte de forma trivial, divulgar umas fraquezas de outros e não expor a minha. Mas aí eu me afastei naquele cemitério, liguei para meu melhor amigo e desabei. Eu não servia para nada. Não pude fazer nada diante da tragédia. Não pude oferecer meu ombro pra ninguém. Nem ligar para alguém para providenciar um caixão (já pensaram no desespero de uma mãe que não pode enterrar o filho porque, quando ele morreu, não tinha caixões nem túmulos suficientes para enterrar tanta gente de uma vez?). Nem fazer uma oração com alguém que, porventura, depois desse silêncio sepulcral de Deus, ainda pudesse crer nele. Nada que eu escrevesse poderia aplacar a dor. 

Eu queria ser jornalista de guerra. Assim como o José Hamilton Ribeiro, que foi para o Vietnã, pisou numa mina e perdeu a perna. Quando eu era estudante, ao entrevistá-lo sobre o tempo na revista Realidade, perguntei, inadvertidamente, o que mais tinha lhe marcado na guerra, pensando que a resposta dele teria a ver com o que eu achava que estava preparado para enfrentar: a miséria humana. Ele respondeu com a maior paciência do mundo para a pergunta mais idiota possível de um foca: "naturalmente, ter perdido uma perna". Não consegui pedir desculpas ao José Hamilton. E, na primeira vez que o moleque que sonhava em fazer jornalismo de guerra só via a dor dos outros, ele se desesperava sem saber o que fazer – enquanto o grande repórter que perdeu a perna em um campo de guerra escreveu em primeira pessoa o relato de tudo o que viu e sentiu. E eu só ligava para meu melhor amigo e descobria que eu jamais teria o profissionalismo do José Hamilton Ribeiro, ou a frieza de que o Gay Talese falava ou o talento dos dois. 

Tive ainda mais alguns dias de trabalho em meio à tragédia. Não havia tempo para as perguntas que importavam sobre o silêncio de Deus. Não conseguia nem formular, nas orações rápidas às três da manhã, depois de enviar o relatório para meu editor e antes de dormir quatro ou cinco horas para poder voltar a trabalhar no outro dia, o quanto aquilo tudo era injusto com todo mundo que estava ali, chorando, abandonados. 

Foi quando começaram a aparecer as primeiras gotas de graça no oceano de tristeza. A moça, amiga de amigos meus, que marcou o aniversário na boate, mas desmarcou porque passou mal. Nenhuma amiga dela foi. As dezoito pessoas que foram dizer para o pai do grandalhão, no enterro dele, que só estavam vivas por causa do ato heroico do seu filho. A psicóloga que veio de Porto Alegre para ajudar famílias. A força-tarefa para abrir espaços em cemitérios, que não deixaram nem uma mãe ter que esperar dois dias para ter que enterrar seus filhos. Cada professor da universidade que atrasou as provas ou aprovou alunos sem presença porque estavam em tratamento. 

Os voluntários colombianos para carregar sobreviventes para o hospital. O filho do técnico que esqueceu o passaporte e ficou. O jogador que não foi relacionado e ficou em Chapecó. O radialista que não viajou porque deu de presente a possibilidade de narrar uma final internacional para outro narrador da rádio local. O jornalista que não viajou porque queria jogar uma partida de futebol num campeonato de jornalistas. 

A torcida do Nacional de Medellín, o maior time da América, imbatível em 2016, que prontamente abraçou a proposta de abrir mão do título e declarou, cantando como que numa língua que todo mundo pudesse entender, assim como no livro de Atos: "que lo escuchen en todo el continente, siempre recordaremos: campeón a Chapecoense"¹. O silêncio e o canto da torcida do Liverpool. A faixa da torcida do Torino, o primeiro time a enfrentar a mesma tragédia, décadas atrás. O português da torcida do Copenhaguen. A sugestão dos cartolas de emprestar jogadores para não deixar morrer também a paixão de 200 mil chapecoenses.  

E a gota de graça que fez transbordar a certeza da graça foi de dona Ilaídes, a mãe do herói que numa defesa milagrosa salvou o gol da Chape no último minuto da semifinal contra o time do papa, o mesmo que saiu na primeira lista de mortos, mas depois foi declarado com vida. E que morreu no hospital, mas a Cruz Vermelha tirou o nome dele da lista dos mortos. E dona Ilaídes só foi descobrir que ele tinha morrido mesmo à tarde. E em nenhum momento deixou de ter esperança. 

Quando não restou nem fé, nem esperança, dona Ilaídes deu vida ao que escreveu Paulo em I Coríntios 13 e abriu caminho à maior das três coisas que permanecem. Rumou para a Arena Condá, porque se viu na obrigação de consolar cada torcedor que chorou a morte de seu filho. E sustentada por esse amor, respondeu a cada pergunta do repórter Guido Nunes. Mas antes do fim da entrevista, tomou o papel de repórter – sem chorar, mostrando uma força que eu jamais tive – e perguntou como o jornalista se sentia pela morte de seus colegas. Guido não conseguiu responder². Primeiro calou. E não segurou mais o choro. E foi assim que mais uma gota de graça se derramou sobre cada um que gosta de futebol ou de histórias do fraco que se faz forte. 

No velório, no mesmo gramado em que a Chape escreveu sua história de glórias recentes, veio da improvável boca de um prefeito a única teologia que se pode fazer em meio a tragédias. Debaixo de chuva torrencial, chuva como a que caía no dia da queda do avião na Colômbia, Luciano Buligon explicou: "Deus também tem o direito de chorar, por isso chove tanto na Arena Condá". A graça de Deus não pode ser explicada nos nossos limitados raciocínios de justiça e retribuição. Assim como o jornalista que não consegue mais encarar a morte de modo trivial, Deus abdica da sua posição de voyeur da história. O que mais nos toca no Deus que sustenta quem chora na tragédia não são as prontas respostas que ele dá sobre o mal que ele nos inflige. É perceber que ele também chora conosco. Até o dia em que não houver mais choro. 


²http://sportv.globo.com/site/programas/selecao-sportv/noticia/2016/12/mae-de-danilo-e-reporter-do-sportv-choram-abracados-durante-entrevista.html

André Eler colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


Este texto, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br.

0 comentários: