Andando no Vale da Sombra da Morte: ou por que eu não quero que você ore pela cura do meu filho

Valentina com 5 dias de vida na encubadora com o pai
Marina Jacob: arquivo pessoal



Eu passei minhas 32 semanas de gestação dizendo e brincando que apesar da gravidez complicada e do repouso, o importante era que as meninas nascessem com saúde. Não importava cor do olho, cabelo, altura ou com quem pareceriam desde que nascessem saudáveis.

Eis que em uma conversa entre mães com filhos internados na mesma UTI neonatal das minhas gêmeas, percebemos que isso não é verdade. Em algum momento, nós queríamos nossos filhos vivos. A saúde em si pode se tornar menos importante. Você só quer que seu filho venha com vida. Descobre que pode desejar um filho doente, um filho internado, um filho com severas sequelas. Não é uma aceitação fácil, mas você só quer a chance de ter seu filho nos braços, mesmo sem saúde nenhuma, mesmo sabendo da árdua jornada hospitalar. A gente quer ter a chance de lutar, de amar e ter a chance de conhecer aquele que carregamos nos ventre.

O mais difícil dos bebês prematuros e a UTI é, sem dúvida, a espera. Cada bebê tem seu tempo. Eles terminam de "ser gestados" fora do útero e amadurecem do lado de fora da vida. Leva tempo. E eu, que mãe horrível fui. Apressada, ansiosa. Eu faria de tudo para acelerar elas, correr com isso. Geração Y da ponta do pé até o fio de cabelo, queria elas em casa comigo agora e já. É difícil entender que demora. As orações que eu ouvia prometiam cura, faziam votos e promessas. Enquanto eu sabia que precisava aprender mais sobre soberania e fé. 

Há tempo para todas as coisas debaixo do céu. De forma racional, é bem claro. Mas o que se faz enquanto esperamos esse tempo? Para mim, sempre foi pior ter que ficar rodando 40 anos no deserto antes de entrar na terra prometida. Chega a parecer um castigo pior do que nunca pisar lá. Sabe, se você tem a negativa logo de cara - sofre, supera, chora. Sente toda a dor do mundo. Mas, e se você simplesmente não sabe nem quanto tempo demora a resposta final? Quando a cura é necessariamente um processo demorado? E quando eu tenho que esperar, sem garantias do amanhã, sem nenhum controle? Além de confiar em Deus, na resposta em si... Ainda preciso ter paciência porque vai ser no tempo dele.

Eu notei que minha fé não estava preparada para lidar com as doenças das minhas filhas. E nem a igreja, nem a maioria dos meus amigos cristãos. Eu tinha fé o suficiente para que Deus as curasse. Eu sabia que Ele é poderoso. O que me faltava era entender o caminhar com Deus, com quem passa e vê seus filhos à sombra da morte.

Eu sabia que eu tinha dois bebês de 1 kg numa incubadora. E que não seria rápido. A questão é o quanto nossa fé é idealizada. O quanto acreditamos que aquele grande testemunho de cura improvável demonstra mais fé e intimidade com Deus do que a história daquela viúva que se viu sozinha para criar seus filhos. Teria sido um Deus misericordioso e amoroso que a fez passar por tudo isso? Sim, foi.

Depois da alta da UTI, todas as (várias) vezes que minhas filhas ficaram doentes, eu nunca mais orei pela cura instantânea. Não consigo mais. Eu peço que Deus as guarde. Imploro por força e sabedoria em leitos de hospital. Choro com elas a cada intervenção médica e depois sou grata a cada sinal de melhora. Eu aprendi a não temer o mal mesmo no vale da sombra da morte.  O que não quer dizer que esse mal não ocorra. Ao contrário, com certeza passaremos por situações horríveis. Mas, são nesses momentos que notamos o quanto Deus está conosco, o como a vara e o cajado do Pastor nos consolam. Meu desejo é que todos sintam esse amor e essa paz que nos atinge mesmo quando nossos planos não são os mesmos do Senhor.


Qualquer cura, que não seja a entrada definitiva na eternidade, é temporária. Talvez, superficial, talvez desnecessária em si mesmo. A ressurreição de Lázaro serviu aos fins de manifestação da glória de Deus, mas um dia ele morreu definitivamente, como todos nós iremos. Nossa promessa de vida integral não é por aqui.  

Marina Jacob colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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