Deus e o mal nosso de cada dia




Então Samuel tomou uma pedra e a pôs entre Mispá e Sem, e lhe chamou Ebenézer; e disse: Até aqui nos ajudou o SENHOR. (1 Samuel 7:12)

Se Deus é bom e onisciente, por que o massacre de Aleppo? Se Deus é onisciente e onipotente, por que a chacina institucionalizada nas Filipinas? Se Deus é bom e onipotente, por que tantos ataques terroristas? Se Deus é bom, onisciente e onipotente, porque o avião da Chapecoense caiu por um motivo tão mesquinho? Por que um homem chuta uma mulher pelas costas na escadaria do metrô enquanto outros debocham, como ocorreu na Alemanha?

No último Natal, dois homens mataram espancado brutalmente um vendedor ambulante que tentava defender dois homossexuais de serem espancados pelos dois numa estação de metrô do centro daqui de São Paulo. Poucos dias depois, o corpo do embaixador grego no Brasil foi encontrado em um carro incendiado na Baixada Fluminense, sendo que o crime foi tramado por sua própria esposa e o amante dela. Por quê? Por que Deus permite esse tipo de coisa? Por que Deus permite o mal, tanto mal?

De fato, muitos levantam o problema do mal para refutar a existência de qualquer divindade, e mais especificamente a da judaico-cristã, que reclama para si os atributos da onibenevolência, onipresença e onipotência. A existência de uma divindade com esses três atributos concomitantemente com a existência do mal seria logicamente inconsistente.

Muito já se debateu e muitas respostas já foram dadas em favor da existência de Deus frente a esse problema. Contudo, como bem distingue Willian Lane Craig, o problema do mal é menos intelectual do que emocional. É menos uma questão de lógica do que um fato que nos incomoda. Isso não diminui o problema, talvez o torne ainda mais insolúvel, porque mais existencial e, porque mais existencial, mais básico. Algo em nós, para além e para aquém da razão, diz (sabe?) que tem algo de errado.

Muitas resposta teológico-filosóficas são possíveis. Não esperem uma minha. Há muito material filosófico e apologético disponível por aí. Contudo, olhando 2016 em retrospecto, a primeira coisa que me vem à mente é: "até aqui me ajudou o Senhor" (1 Samuel 7:12). O mal tentou, muitas vezes e de muitas formas, contra mim, mas o Nosso Pai não me deixou cair em tentação; antes, me livrou do mal (Mateus 6:13).

A espécie humana possui a capacidade de se destruir muitas vezes. Não apenas nuclearmente, quimicamente, biologicamente, militarmente. Facas, carros, fogo, cordas, a própria força física: o arsenal à disposição da maldade humana é tão vasto quanto a inteligência e a criatividade do homo sapiens, praticamente ilimitado. Também possui um inventário de desculpas, indo da mais puro egoísmo e mesquinhez até o bem comum e até mesmo a própria fé. Sobretudo, a maldade é democrática: está em homens e mulheres, ricos e pobres, negros e brancos, orientais e ocidentais, poderosos e pessoas simples. Em mim e em você.

Diante desse quadro, a questão muda, ao menos para mim, completamente. Não é mais: "Se Deus existe, porque existe o mal?"; mas: "Se o mal existe (e ele existe), porque ainda existe algo")?" Por que ainda não destruímos tudo, nem sucumbimos todos debaixo do seu nefasto poder? Sendo o mal tão grande e absurdo, por que ainda há crianças nas maternidades e flores nos jardins, música nos palcos e livros nas estantes, sorrisos nos rostos e solidariedade entre as pessoas? Por que não se rendeu tudo ao mal que nos rodeia e que (todos sabemos muito bem) temos dentro de nós?

Diante do mal, de todo esse mal, por que eu ainda estou aqui?

O que me vem à mente e ao coração é: "até aqui me ajudou o Senhor".

Para mim (e eu quero reforçar isso, porque isso não é um argumento, isso é o que eu tenho crido e vivido), o mal não torna a existência de Deus impossível. Antes, o mal torna Sua existência necessária pois só sua graça e as suas misericórdias cotidianamente renovadas explicam o fato de eu ainda estar aqui, de não ter sucumbido ao mal – e, principalmente, de eu não ter me tornado um agente do mal.

Isso não explica o mal, e eu adiantei que não explicaria. Isso explica a mim, minha gratidão e meu amor ao Senhor, bem como meu senso de dependência dele. Também explica o peso de compartilhar essa graça e de lutar contra o mal (ainda que esse peso muitas vezes não passe do plano da vontade). E eu sei que alguns de vocês, que leem esse texto, sentem isso, e outros de vocês querem sentir isso.

Por isso, olhando para o tão conturbado 2016, tão conturbado de tantas formas, eu pego minha Rocha de Socorro (Ele mesmo) e finco minha Ebenézer nos seus termos, para, olhando para ela – para Ele - não esquecer - jamais esquecer - que até aqui me ajudou o Senhor.

P.S.: Esse texto foi escrito final de 2016, como uma espécie de balanço de um ano complicado.  2017, contudo, mal começou e o mal já mostrou toda a sua insaciedade: a chacina de Campinas, em que um homem assassinou a ex-mulher, o filho e mais 9 pessoas; o massacre do presídio de Manaus; o atentado em Istambul e no Iraque; o sequestro e tortura por quatro negros de um deficiente branco, em Chicago. Isso até a entrega do texto.

Por isso, a Ebenézer, o memorial: para, em 2017, que já começou tão cruel e cruento, lembrarmos que o Deus que nos ajudou ontem é o mesmo hoje e sempre; para trazermos à memória aquilo que nos traz esperança (Lamentações 3:21).

 Luiz Périco colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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Um comentário:

  1. Ebenézer, até aqui nos ajudou o Senhor. Lemos e ouvimos diariamente essa pergunta "Se Deus existe porque permitiu esse mal"....o que me pergunto é: Por que quando algo bom ou extraordinário acontece, ninguém vem á público dizer: vejam o que Deus fez.
    Atribui-se a Deus o mal, mas, o bem é conquista humana....algo a se pensar.
    Obrigada por seu texto.

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