Somos todos refugiados: minha experiência no Oriente Médio

(Bárbara Jacob: arquivo pessoal)


Muito tem se ouvido falar sobre a guerra no Oriente Médio. Temos acompanhado pelos noticiários o que o Estado Islâmico tem feito com cidades inteiras de alguns países específicos de lá. Podemos ver o drama de famílias que atravessam andando, de barco ou das formas mais inimagináveis, fronteiras de países estranhos, em busca de uma vida segura.

A pergunta que fica é: será que ao ver essas cenas na TV ou internet, você, como corpo de Cristo, se sente na obrigação de fazer algo por essas pessoas?
Neste texto, eu gostaria de trazer de uma forma objetiva e prática a situação de famílias reais Iraquianas e Sírias. Não de uma perspectiva jornalística e sensacionalista, mas de uma perspectiva cristã, de uma jovem brasileira que esteve recentemente, por meses no Oriente Médio, acompanhando de perto e dando apoio aos refugiados.
Para que possam entender melhor, vou dividir esse texto entre os refugiados Sírios e Iraquianos, pois há uma enorme diferença entre eles.

    1 - Iraquianos: Os refugiados iraquianos são, em sua maioria, cristãos. São a famosa Igreja perseguida que tanto oramos e pouco conhecemos.
Em meados de 2014, o ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria), basicamente deu algumas opções para a grande maioria dos cristãos do Iraque: Morrer, fugir, se converter ao Islã, pagar uma indulgência muito alta (que não adiantaria, pois, a pessoa perderia o emprego) ou fazer parte do grupo. Fácil assim...
Então, foi desta forma que os Cristãos fugidos do Iraque, deixaram de ser reconhecidos como pessoas e passaram a ser refugiados.

Tendo esta visão generalizada sobre o que aconteceu com eles, gostaria que você pudesse ver essas pessoas como se elas fossem vocês mesmos. Pois é assim. São pessoas como nós. Aqui no Ocidente criamos uma imagem muito corrompida do povo do Oriente Médio graças a alguns poucos grupos extremistas que se destacam e aterrorizam, mas esquecemos que a maior parte daquela sociedade é feita de pessoas comuns. Por isso, a história que escolhi destacar é de fácil identificação para quem está lendo.

Esta família é da região de Nínive (Sim, aquele lugar da Bíblia, de Jonas e do peixe grande mesmo, olha só o que virou hoje). O pai era gerente de um dos maiores hotéis da região e a mãe contadora. Eles têm 4 filhos, são cristãos (nominais, falarei sobre isso). Graças à boa formação e aos empregos bons que os pais tinham, puderam garantir aos 4 filhos ótimos estudos também. A filha mais velha se formou em economia, conseguiu um ótimo emprego na área, casou e teve duas filhas. O segundo filho, se formou em engenharia, trabalhava com petróleo em uma região muito rica em petróleo do Iraque. Ele morava no centro de outra cidade grande, já tinha seu apartamento e vida construída com apenas 25 anos. A terceira filha, com 20 anos, estava cursando faculdade de medicina, uma das melhores do país, realizando o maior sonho de sua vida: ser médica. A quarta filha, ainda estava terminando os estudos do colégio, mas, com toda certeza, teria um futuro brilhante com o que escolhesse.

Todos estavam muito bem com seus trabalhos, estudos e vida, até que um telefonema veio dizendo que o ISIS estava atacando aquela cidade, e que eles deveriam fugir o mais rápido possível, assim como todos os outros cristãos. Imagine, você, nessa situação, tendo que deixar tudo para trás: seus estudos, seu diploma de engenheiro que era valido só para aquela região especifica do Iraque, seus anos da Faculdade, seu emprego dos sonhos, a casa que você arrumou e decorou, suas fotos da infância, fotos do casamento... Agora, imagine-se indo ao banco pegar pelo menos o dinheiro que você tinha guardado na sua conta e descobrindo que o ISIS confiscou até isso de você? Ou seja, não vai mais dar para viajar com todas as suas econômicas, pegando possivelmente um avião. Você também não vai poder viajar de carro porque as ruas estão invadidas por guerrilheiros curdos e do ISIS se matando e matando civis... a única opção que essa família teve foi sair andando, sem saber para onde ir... E foi assim que eles fugiram, em alguns momentos conseguiam caronas em camionetes, outros iam andando, de noite dormiam em pátios de colégios... Até que chegaram em um país vizinho, e hoje vivem como refugiados. Sem direitos, os diplomas não valem mais nada, a filha mais nova teve que parar de estudar, a que fazia medicina teve que abandonar o sonho de ser médica, o engenheiro sabe que nunca mais vai trabalhar com aquilo que estudou... moram todos juntos em uma casa pequena, esperando apenas um milagre de uma liberação de alguma fronteira permitir que saiam do Oriente Médio e recomecem a vida em algum país do Ocidente. E ainda que conseguissem, nada será mil maravilhas, infelizmente.   

Essa é apenas uma história dos Iraquianos. E uma das que, graças a Deus, não tem sangue ou morte.
Infelizmente, não é difícil ouvir histórias de famílias que perderam filhos, pais, mães só porque são cristãos. Há relatos tão absurdos que nossa mente não consegue entender como o ser humano pode ser capaz de fazer isso. Como o ser humano pode ser capaz de matar crianças na frente dos próprios pais em nome de uma ideologia, religião ou luta, ou seja lá o que for... Há relatos de crianças que foram mortas com bombas no jardim de casa enquanto brincavam, só porque a família era cristã e ainda não tinham feito o que havia sido pedido. Que culpa tem uma criança disso?
Como citei a cima, essa família era cristã nominal, assim como a maioria dos cristãos no Oriente Médio. Infelizmente, o cristianismo por lá é bem fraco. Claro que há a opressão pelo fato da religião predominante ser outra (e uma não muito aberta), mas mesmo em regiões onde pode haver mais abertura não há igrejas tão fortes, isso porque há vilarejos cristãos por lá.
A parte boa é que a separação entre cristão católico e evangélico não é tão competitiva quanto aqui no Brasil. Lá, se você acredita em Cristo, você é cristão e ponto. O problema é que a grande maioria acredita em Cristo porque foram criados e ensinados a acreditar em Cristo, quase como uma tradição de família. Mas, não sabem quem Cristo realmente é, ainda não tiveram o encontro real com Ele (o que vemos por aqui também não é mesmo?).

Deus, em sua eterna misericórdia e sabedoria, soube usar essa guerra para trazer esse povo para mais perto dele. No caso desta família que citei como exemplo, pude ouvir dos lábios dos próprios filhos falando que antes da guerra, eles só iam a igreja no Natal e Páscoa. Eles não tinham intimidade nenhuma com Deus, não conheciam a Cristo verdadeiramente. Eles eram apenas cristãos e não seguiam o Islã. Porém, depois de tudo o que aconteceu, foram acolhidos por cristãos verdadeiros, que além de ajudar em todas as necessidades, ajudaram no amadurecimento espiritual também. Hoje o filho que era engenheiro e a filha que estudava medicina estão ajudando como voluntários em uma igreja, ajudando outros refugiados como eles, até conseguirem ir para outro país. 


Para quem ia na igreja 2 vezes por ano, hoje vão todos os dias.



    2 - Sírios: Os refugiados sírios são em sua maioria, muçulmanos. Na Síria, a guerra é ainda pior. Até porque lá há conflitos de todos os lados, o ISIS e outros grupos extremistas não se importaram com religião, eles expulsaram, maltrataram ou mataram todos que estavam (estão) por lá. É impossível escrever as histórias dos sírios sem mencionar sangue e morte.
Visitei diversas famílias da Síria que hoje estão como refugiados em países vizinhos. Em todas as famílias há algum trauma terrível da fuga. Gostaria de destacar algumas histórias:

Uma das famílias que visitei é de um ex-líder religioso de alguma mesquita da Síria. Um muçulmano extremista, que segue à risca sua religião, sua esposa anda com o véu cobrindo até os olhos e não podia sair de casa. Ele e sua família tiveram que fugir da síria por causa da mistura de conflitos entre o governo de Bashar al-Assad, milícias livres e ISIS, há quase 3 anos. O pai da família e os três filhos mais velhos começaram a ser obrigados a tomar partido de algum lado e lutar por isso, as crianças dos vilarejos começaram a ser sequestradas e a vida deixou de ser livre e segura. 




Essa família tinha 9 filhos, sendo que desses 9, seis são crianças. No vilarejo em que moravam, muitas crianças estavam sendo sequestradas e mortas (por sinal, um familiar muito próximo deles foi sequestrado, pediram uma quantia enorme em dinheiro e depois que entregaram o dinheiro, encontraram a criança morta). Os dois filhos mais velhos desse homem, eram contra o governo e se recusaram a lutar com os rebeldes. Por causa disso, foram mortos sem piedade nenhuma, como se fossem animais. O outro filho, se declarou contra o ISIS e teve a cabeça decapitada. Esses pais nunca conseguiram encontrar os corpos dos seus 3 filhos para ao menos se despedir e velar. 



Depois de perder 3 filhos, depois de muita ameaça, depois de perder tudo por causa da guerra, este homem, sua esposa e mais 6 crianças pequenas fugiram da Síria. Fugiram andando, pois perderam todas as suas economias também. Andaram pelo deserto durante 1 mês e duas semanas. Sim, eles ficaram andando mais de um mês pelo deserto, dormindo no chão de areia. Hoje, quase todos apresentam sequelas dessa fuga, o filho mais novo, perdeu o movimento do braço por causa da circulação do sangue, outra filha anda mancando, outra tem problema na perna, a mãe não consegue mais andar e tem problemas de pressão e coração.


Depois de andar por mais de um mês com 6 crianças, eles conseguiram chegar em um campo de refugiados que fica na fronteira da Síria com outro país do Oriente Médio. Conseguiram a autorização para entrar no acampamento que fica na fronteira. Porém, neste acampamento, eles não tinham vida. O lugar era extremamente perigoso por causa do sequestro de mulheres e crianças. Não tinha luz, água e aquecimento. Era uma cabana para cada duas famílias com várias crianças. De alguma forma, eles conseguiram fugir e chegaram até um vilarejo. Hoje vivem nesse mesmo vilarejo e não podem sair de casa direito, pois tem medo de serem mandados de volta para a Síria e, se caso forem, serão mortos ou levados para fazer parte do exército.

Ou seja, é uma família com 6 crianças, que não frequentam a escola, a mãe não consegue andar mais, e o pai também não pode trabalhar. Eles vivem de doações ou empréstimos. Eles têm uma dívida de quase 10.000 reais com diversas pessoas. Ele me mostrou a lista e são contas com médicos, mercados, remédios e coisas básicas para a sobrevivência.
Enquanto este homem contava sua história, e contava o que fazia para a sobreviver, ele se emocionou dizendo que ele e sua família só estavam vivos por causa do nosso Deus/Cristo, porque o Deus que ele segue não o estava ajudando, o povo dele não estava fazendo nada por ele, apenas o povo da cruz ajudava.

Em outra família, o pai nos contou detalhes sobre como era a vida na cidade dominada pelo o ISIS. Nos disse que lá não havia sinal de TV, nem celular, as pessoas não podiam sair da cidade e se, caso saíssem, eram mortas. Se apenas tentassem ou pedissem para sair, eram mortas também. As pessoas eram obrigadas a ir nas mesquitas todas as sextas. Deviam fazer todas as práticas extremas religiosas. As mulheres são violentadas sexualmente pelos guerrilheiros. Pessoas são mortas nas ruas sem motivo nenhum, no meio do nada. Ele contou de uma situação em que poucas pessoas foram na mesquita orar na sexta. Na semana seguinte, o ISIS anunciou que seria obrigatório ir na mesquita todas as sextas-feiras. Na sexta seguinte, quando quase todo o vilarejo estava lá orando, eles saíram atirando e matando várias pessoas, para que todos aprendessem a nunca desobedecerem. 


Este homem que me contou esses relatos, perdeu quase todos os membros da família dele e da família da esposa por causa dos bombardeios e ataques dos conflitos da Síria. Ele conseguiu ir para outro país do Oriente Médio, legalmente, com todos seus 5 filhos. Porém, há quase 1 ano, seu filho mais velho, estava andando de ônibus no centro deste país, quando foi parado por um policial e imediatamente levado para a fronteira com a Síria e expulso do país. O menino tinha apenas 14 anos, e por ser Sírio, foi expulso e agora está sozinho na Síria, provavelmente, nas mãos do ISIS ou de algum outro grupo. Pensem na aflição dessa família que não tem nem mais contato com o filho.


Em uma outra casa, assim que abri a porta, me deparei com mais de 13 crianças. A maioria não tinha pai, pois foram atingidos pelos bombardeios aéreos russos. Dos únicos homens da família que sobreviveram, um está inativo no hospital e outro vive debilitado, porque a bomba afetou o cérebro. São 13 crianças pequenas criadas por 3 mulheres, em uma cultura machista, onde mulher nem mostrar o rosto pode direito. Agora, qual a chance de uma mulher refugiada e viúva conseguir sustentar uma família? Essa guerra tem feito milhares de mulheres muçulmanas quebrarem todos os paradigmas do machismo de sua cultura, e sair a luta para garantir o sustento e futuro de sua família, sem precisar depender de um homem para isso.

Depois dessa explosão de informação com algumas histórias sobre a realidade prática do que tem acontecido com os refugiados sírios e iraquianos, eu volto com a pergunta que fiz logo no início do texto: você, como corpo de Cristo, se sente na obrigação de fazer algo por essas pessoas?
Eu tive a oportunidade de visitar algumas famílias sírias no mês de janeiro de 2016 e depois voltar para a mesma família, no mês de janeiro de 2017, a sensação que tive é que 1 ano depois, as famílias estão extremamente cansadas. Estão no limite, o que faz com que aceitem ainda mais nossa ajuda, nosso abraço, palavras e orações. Passam a ver nossas doações, cestas básicas e presentes não como uma mera obrigação que devemos ter, mas como um ato de amor, que ninguém tem por eles, só os cristãos. Esse povo tem visto e conhecido um Deus novo através da nossa atitude, sem precisar de palavras, e se continuarmos parados, sem dar nem ao menos um sorriso para eles, perderemos uma ótima oportunidade de mostrar Cristo.

A parte boa é que você não precisa necessariamente ir até o Oriente Médio para ajudar, dar apoio e ser luz (claro que se você puder e quiser ir, será algo maravilhoso, pois são poucos os que vão), mas chegamos a um ponto onde eles estão vindo até nós. Eu tenho certeza que você já encontrou na rua um árabe, muçulmano, haitiano, angolano ou alguém que está aqui que em busca de refúgio. Infelizmente, não duvido que você tenha dado um olhar torto para o véu da muçulmana ou para a diferença. Espero que depois desse texto você não olhe mais para o véu dela ou para a diferença cultural, mas que você veja a essência daquela pessoa, que você dê valor para a história que ela já teve e foi forçada a perder, espero que esse sentimento transborde de dentro de você em forma de ação, seja com um sorriso, com um elogio, com um ato de carinho... Cristo é isso.

Lembra daquela família do Iraque que mencionei? Lembra da filha que estudava medicina? Pois, então. Em agosto, depois de muita espera, ela conseguiu liberação para ir morar no Canadá e continuar a faculdade de medicina lá. Porém, ela teria que ir sozinha, sem a família (note que há uma grande diferença entre você escolher ir estudar fora do país e você ser obrigada a estudar fora porque sua casa foi bombardeada). Ela foi para lá, sem saber se algum dia voltaria a ver sua família. No fim, ela ficou menos de dois meses no Canadá. Não conseguiu se adaptar à cultura, não teve pessoas acolhendo, se sentiu sozinha, julgada, mal interpretada. Preferiu voltar para a situação precária que vivia no Oriente Médio do que ter uma vida “boa” no Canadá, mas sem ter ninguém. Agora, imagine quantos refugiados estão nessa mesma situação aqui no Brasil? Quantos refugiados estão se sentindo sozinhos, mal acolhidos, julgados, mal interpretados, assustados com a cultura nova, assim como essa menina se sentiu no Canadá?

É seu papel, como cristão, acolher esse povo. É papel da sua igreja, como extensão da casa de Cristo, ser um lar para essas pessoas, mesmo elas não acreditando em Cristo como Salvador. Mas antes, tenha em mente que acolher, não significa impor uma religião e cultura nova, Cristo não é imposição, Cristo é amor.
Muito provavelmente, seu avô, bisavô ou tataravô veio de um país estrangeiro em busca de uma vida digna. Se você está com o seu celular de última geração ou notebook lendo esse texto, é porque alguém, lá no passado acolheu e garantiu uma vida de oportunidade a ele. Tanta oportunidade que hoje você está aí, saudável para poder ajudar outro estrangeiro/refugiado, sabendo que você também é um deles, porque: “Quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele; quando um membro é honrado, todos os outros se alegram com ele. ” (1 Coríntios 12:26)

Se você gostaria de ajudar os refugiados e não sabe como, aqui vai a dica da organização na qual faço parte e faz um belíssimo trabalho humanitário com os sírios e iraquianos no Oriente Médio. Você pode ajudar de diversas formas como indo até lá e ajudando nos projetos (clinicas médicas e odontológicas, miniescola para crianças, esportes, cursos de inglês, projeto com mulheres, visitas de casa em casa, distribuição de cestas básicas, roupas e entre outros) e ajudando financeiramente na manutenção dos projetos, divulgando e principalmente, orando: https://www.facebook.com/familiaaziz/?fref=ts

Bárbara Jacob realiza trabalho humanitário com refugiados no Oriente Médio e foi a nossa convidada especial da semana para o blog Cristo Urbano.


Este texto, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br.
  

Um comentário:

  1. Quantas vezes lemos relatos como esse, e depois mudamos a página e nem nos damos conta da seriedade do que acabamos de ler. Neste caso, tive a oportunidade de vivenciar esta experiência, de sair da minha zona de conforto e me deparar com essas vidas relatadas no texto que acabei de ler.
    Por isso eu peço, que esse não seja mais um texto lido e esquecido. ENVOLVA-SE.Nós podemos fazer mais.

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