Espelhos sombrios: o que está por trás da tecnologia?

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Não há como negar que a revolução tecnológica entre-milênios mudou profundamente a nossa maneira de viver. Quase toda atividade do nosso dia-a-dia passa por aplicativos e redes que há cinco anos nem existiam direito, desde reuniões do trabalho até avisar a família que você não vai almoçar. E a expectativa é que a nossa dependência e interação com os dispositivos e informações na “nuvem” aumente ainda mais nos próximos anos.

Diante de todo esse êxtase tecnológico, é importante considerar o que realmente significam os avanços que presenciamos e de que nos apropriamos. A ideia aqui não é que você jogue fora seu celular e computador e volte a viver do que a natureza te dá, mas que, ao relacionar-se com a tecnologia, você entenda melhor o que ela representa.


Espelho sombrio
Nos últimos meses, a série Black Mirror (Espelho negro ou, para mim, Espelho sombrio) de Charlie Brooker chegou ao mainstream, tendo a sua mais recente temporada produzida e veiculada pelo Netflix. Se tornou comum ver amigos na timeline compartilhando suas experiências angustiantes com os episódios. Muitos críticos apontaram que a série não é essencialmente sobre tecnologia mas sim sobre nós. A angústia que a série provoca não tem a ver com algum device, interface ou app específico, mas sobre como nós enquanto sujeitos nos relacionamos com estes objetos.

Dessa forma, a tecnologia na série é só um pretexto para escancarar algo muito maior (e sombrio): quem somos nós, como nos relacionamos com os outros e qual a nossa perspectiva para o futuro. O problema em questão é a atribuição de valor que damos aos avanços tecnológicos e como essa atribuição afeta quem nós somos.

Quando paramos para refletir através de um olhar cristão sobre a tecnologia, percebemos que por trás de todo avanço tecnológico que experimentamos até hoje está o velho e atual impulso de autonomia da humanidade, presente desde a queda, problematizado no episódio de Babel e constantemente repetido por nós enquanto seres caídos e pecadores. A ideia de depender de alguém não cabe para corações e mentes rebeldes, e a tecnologia é o louvor dessa independência: de Deus, dos outros, e até de si mesmo. Utilizando-se da ilustração de Babel, percebemos que por trás dos empreendimentos dessa antiga cidade está a motivação de ser independente e de garantir o futuro por si mesmos.
Egbert Schuurman (1), em seu livro “Cristãos em Babel”, caracteriza a filosofia da tecnologia como uma pretensão de certeza, dizendo que ela está marcada pelo ímpeto de estar certo do amanhã assim como estamos certos do passado, muito semelhante ao comportamento dos habitantes de Babel.


A tecnologia enquanto um sistema de pensamento
O estudo de cosmovisões entende que todo sistema de pensamento, ou cosmovisão, elabora para si uma proposta de criação, queda, redenção e também consumação. Vejamos como isso se dá em relação à tecnologia.

Enquanto proposta de criação, a origem da humanidade sob o viés do progresso técnico é vista como um processo puramente evolucionário, impessoal e caótico, no qual não existe moralidade além daquela construída e remodelada pela sociedade, e tudo o que existe hoje pode não existir amanhã (2).

A proposta de queda (ou de problema) para o sistema de pensamento tecnológico é justamente a falta de progresso. Se o que motiva o desenvolvimento é a constante melhora no decorrer do tempo, não melhorar (ou não evoluir) é o problema.

Para solucionar o problema da falta de progresso, o ser humano precisa fugir da inércia de não evoluir. A redenção é encontrada quanto o controle do futuro é atingido, e a grande promessa da ciência é justamente esse controle.

O fim de tudo isso, ou consumação, é o vislumbre dos cenários onde a tecnologia é responsável por livrar a humanidade do seu caos, extinguindo o trabalho, promovendo bem-estar social e criando um mundo perfeito.

Como consequência dessa cosmovisão, uma verdade única, inquestionável e religiosamente autoritativa é construída: a ciência, que torna-se um eficaz instrumento de controle e aceitação. O progresso por si mesmo torna-se um artigo de fé, no qual todos devem acreditar e que é visto como inerentemente bom. Além disso, a ciência e a tecnologia ganham um status divino, e “a divinização da ciência e da tecnologia anda de mãos dadas com a resistência da fé” (1).

Nesse contexto emerge a cultura tecnológica de babel, que é a rejeição a qualquer intervenção fora do seu controle. Essa cultura nega os principais pressupostos cristãos: a revelação de Deus pelas obras de suas mãos, em sua Escritura e em sua criação; e a revelação do Cristo salvador como aquele que concede a redenção da humanidade.


Vivendo em meio à cultura de Babel
A nossa guerra não é contra a tecnologia, mas contra as expectativas que lançamos sobre ela. Como viver em meio à cultura de Babel?

Temos dois caminhos. Um é oferecido pelos espelhos sombrios e se mantém pela afirmação do ser humano independente e da negação de Deus. O outro caminho é o caminho da renovação, que considera a dependência de Deus para os seus empreendimentos.

Como cristãos, podemos afirmar positivamente a tecnologia defendendo as estruturas criacionais originais: Deus é o criador da matéria e deu a cada átomo sentido e propósito. Ele existe antes de tudo e sem ele nada do que existe seria possível. Toda a existência é dependente de Deus.

Nesse sentido, o cristão julga a cultura de Babel através de uma melhor perspectiva, não mais do acaso, do progresso evolucionário, destrutivo e impessoal, mas sim de um desenvolvimento responsável diante do Deus vivo.

Enquanto cristãos, podemos agir de forma profética: apontando um melhor caminho e questionando as estruturas atuais; e escatológica: lembrando do sentido da nossa existência enquanto cristãos. O lembrete do profeta Jeremias (Jr 29) é importante para nós ainda hoje: nós habitamos em Babilônia (Babel), mas pertencemos à (nova) Jerusalém.
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(1) E. Schuurman. Cristãos em Babel. Monergismo, Brasília, 2016.

(2) J. Schumpeter. Teoria do Desenvolvimento Econômico. Abril Cultural, São Paulo, 1982.

João Vinícius de Abreu colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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