Não diga a alguém com depressão para ficar bem

Depression (Unsplash free imagens).

“Não peça simplesmente para alguém ficar bem de uma depressão, assim como você não falaria para alguém fazer força para respirar durante uma crise de asma”.

Há um bom nível de desconhecimento sobre o que é depressão, quais são seus sintomas e, principalmente, o que seria um tratamento adequado. Esse desconhecimento é muito generalizado na nossa sociedade, mas possivelmente ainda pior dentro das igrejas. Um crente triste é algo impossível de imaginar, porque “quem tem Jesus, como poderia perder a alegria de viver?”.

Um pouco de história e contextualização: Melancolia ou Depressão
A depressão é um termo muito recente, que tem sido utilizado desde o século 19¹. Antes disso, melancolia era o nome mais usado para descrever uma variedade de quadros que podem ou não estar associados com o que psicólogos e psiquiatras definem hoje em dia como depressão². Atualmente também, associações médicas chegaram a um consenso de que deve haver um critério de diagnóstico baseado num padrão de sintomas para se definir um quadro como depressão³. Esses sintomas incluem:

Sinais cognitivos
Humor deprimido;
Redução da capacidade de experimentar prazer na maior parte das atividades, antes consideradas como agradáveis;
Diminuição da capacidade de pensar, de se concentrar, memorizar ou de tomar decisões;
Ideação suicida.

Fisiológicos
Fadiga ou sensação de perda de energia;
Alterações do sono;
Alterações do apetite;
Redução do interesse e prazer sexual;
Agitação motora, inquietude.

Evidências comportamentais
Isolamento social;
Chorar mais e com mais frequência;
Comportamentos suicidas;
Retardo psicomotor e lentificação generalizada, ou agitação psicomotora;
Tentativa de suicídio;
Comportamento autodestrutivo.

Um ponto importante também a se contextualizar quando falamos de depressão é que embora muitas vezes ocorram simultaneamente ansiedade e depressão são quadros diferentes. Aliás, alguns sintomas são comuns, tratados com os mesmos medicamentos e acabam ainda mais dificultar a compreensão das pessoas. O acompanhamento de psicólogos e psiquiatras se faz ainda mais necessário.

Um pouco de bíblia: Dois personagens do velho testamento e um pregador reformado famoso
É curioso pensar no quanto a depressão (e porque não dizer também outras doenças psíquicas) tem forte resistência no meio cristão (nos seus líderes e nos seus membros também) mesmo que tenhamos exemplos tão próximos como são os casos de alguns personagens bíblicos que sofreram grandes tristezas e que contradizem o senso comum. Você pode até pensar em mais personagens, mas me ocorrem dois que na Bíblia ficaram bem deprimidos (não necessariamente com depressão como a conhecemos hoje) e que ainda contamos apenas seus bons feitos nos púlpitos, nos desenhos infantis para escolas bíblicas e nos murais do facebook: Elias e Jonas.

Podemos ler no primeiro livro dos Reis que Elias viu literalmente fogo cair do céu, mas ao mesmo tempo também lemos que ele perdeu todas as suas esperanças quando a rainha Jezabel lhe ameaçou de morte.

Elias teve medo e fugiu para salvar a sua vida; foi para Berseba, uma cidade de Judá, e deixou ali o seu servo. Depois foi sozinho para o deserto, caminhando o dia todo, e sentou debaixo de uma moita de zimbro. Ali orou pedindo a morte: ‘Já basta, Senhor. Tire a minha vida. Tenho que morrer algum dia, e bem pode ser agora...” (1 Rs 19:3-4).

Deus não ouviu a oração de Elias. Pelo contrário, ordenou que ele se alimentasse (vv 5-8) e o fez ter uma experiência transcendental, para que ele estivesse preparado para um percurso de 40 dias no deserto para vencer seu estado depressivo e concluir seu ofício como profeta.

Já no capítulo 4 do livro do profeta Jonas podemos assistir um diálogo bem ofensivo para quem tinha acesso direto à divindade:

Foi isso mesmo que eu pensei que o Senhor ia fazer, meu Deus, quando eu ainda estava na minha terra e o Senhor me disse, pela primeira vez, que viesse até aqui. Foi por isso que eu fugi para Társis. Eu sabia que o Senhor é um Deus misericordioso e compassivo, que demora a perder a paciência e é cheio de amor, e está sempre pronto a mudar de ideia e não castigar. Por favor, Senhor, tire a minha vida. Eu prefiro estar morto a viver, porque nada que eu disse vai acontecer” (vv 2-3)
Mas Deus perguntou a Jonas: ‘Você tem razão de ficar tão aborrecido por causa da planta?’ ‘Sim’, respondeu Jonas, ‘tenho razão de ficar triste a ponto de querer morrer!’” (v 9)

O relato bíblico indica que Jonas nunca quis a tarefa de profetizar arrependimento a uma nação que não era a sua. Ele foge, e ao estar dentro de um barco no meio de um temporal pede para ser atirado ao mar e é atendido num ato definitivamente suicida. Ter profetizado aos ninivitas gerou um estresse tão grande que Jonas não conseguiu perceber o quanto a sua profecia trouxe consequências boas a uma nação estranha. O tratamento de choque divino aplicou um último teste em Jonas. O seu desespero com destruição de uma planta que lhe dava abrigo do sol causticante trouxe uma lição: se podemos sentir compaixão de uma planta, quanto mais deveríamos sentir por uma nação de 120 mil pessoas.

Mais recentemente e fora dos escritos bíblicos temos a história do pastor batista britânico Charles Spurgeon. Spurgeon foi um pregador calvinista do século XIX conhecido simplesmente pelo apelido de “príncipe dos pregadores”. Seus sermões cativavam inúmeras pessoas e também era muito reconhecido pela qualidade do que pregava. Porém após a morte de 6 fiéis durante um dos seus cultos desenvolveu depressão que o acompanhou por boa parte da sua vida, com crises recorrentes. Temos noção do quão profundos eram seus dilemas por relatos como o seguinte: “meu ânimo estava tão abatido, que eu poderia chorar durante toda uma hora, como uma criança, e ainda assim não saberia por que chorava”.
Apesar de sua imensa contribuição ao cristianismo recente e o seu entusiasmo em propagá-lo percebemos que este homem de Deus estava sujeito as mesmas mazelas que qualquer ser humano.

“Imagine que a depressão é metaforicamente como um buraco. Você pode cair ou simplesmente entrar neles durante a sua vida. Às vezes você pode entrar num buraco raso e conseguir sair por conta própria, por seus próprios esforços. O problema é achar que você pode resolver suas quedas sempre sozinho. Você pode cair num buraco muito profundo e perder quase todas as suas forças tentando sair, sendo que a saída seria simplesmente pedir ajuda, uma mão para te tirar dali. Esse papel seria o de profissionais como o psicólogo e o psiquiatra”.

Um pouco sobre saúde: o que acontece por dentro da depressão
A depressão não deve ser definida como um evento espiritual puro e simples. Pelo contrário, a depressão é um estado patológico, ou seja, a pessoa nessa condição está doente e pode estar momentaneamente incapacitada para fazer as suas atividades cotidianas. Situações adversas, fins de relacionamento, problemas familiares, luto, perda de emprego, lutas, todos esses são exemplos de gatilhos que desencadeiam maiores ou menores reações de tristeza nas pessoas; num grau extremo qualquer um desses exemplos de estresses pode gerar depressão.

A depressão está ali ocorrendo no cérebro das pessoas doentes. Há toda uma bioquímica que está normalmente envolvida na formação dos nossos pensamentos, movimentos e, mais propriamente, com o que estamos falando ou sentindo. Células do nosso cérebro, os neurônios, emitem sinais, moléculas, para outros neurônios próximos e estes, por sua vez, precisam sentir essa sinalização -  a essa comunicação damos o nome de sinapse. A teoria que ainda domina é a de que, aparentemente, no organismo de uma pessoa com depressão há uma falha nesse mecanismo, mesmo que outros fatores como imunidade baixa e alterações no ciclo circadiano também possam interferir na saúde de uma pessoa com depressão4. A sinalização que deveria ocorrer está comprometida, há menos moléculas sendo emitidas ou as moléculas são pouco “sentidas”. É nesse mecanismo falho que boa parte dos medicamentos vai atuar4. Fato é que cada vez mais se entende como nosso cérebro funciona, mas ainda há muito que se compreender em relação à fisiologia da depressão e independente do quanto se avança nesse conhecimento algumas coisas já se sabe. Por exemplo, que depressão não é frescura. É bom que amigos e conhecidos fiquem atentos a sinais e comportamentos de indivíduos que possam estar afetados por uma situação que tenha desencadeado uma tristeza profunda. Da mesma forma, em tempos de conectividade como o nosso, mensagens postadas nas redes sociais são mais uma forma de percebermos alterações psicológicas em pessoas próximas. Por outro lado, penso que vale salientar que, mesmo que redes sociais sejam constantemente utilizados para desabafos, eles continuam não sendo divãs nem o melhor local para contornar problemas psíquicos. É aí que a indicação de terapia pode vir dos parentes ou amigos próximos. Nas igrejas cristãs, Padres e Pastores tendem a ter um trabalho fundamental, pois ao atuar por meio de aconselhamentos e acompanhamento dos membros de suas igrejas devem, dependendo do grau de complexidade, atuar também encaminhando esses indivíduos para atendimento psicológico e psiquiátrico profissional.

Ilustração artística livre de uma fenda sináptica (google imagens).

Acompanhamento psicológico é o primeiro nível de acompanhamento, de tratamento para pessoas com depressão. Para crianças, aliás, é sempre o tratamento escolhido ao invés do uso de remédios.
Porém, para os casos que a terapia não é suficiente psiquiatras vão prescrever tratamentos medicamentosos de antidepressivos, que normalmente tendem a durar 12 meses. Após esse período as doses dos medicamentos são diminuídas até que o paciente seja liberado do tratamento.

Doenças ligadas ao aumento da expectativa de vida para se entender o tratamento medicamentoso da depressão
Com o aumento da expectativa de vida aumentaram os casos de doenças associadas ao envelhecimento como diabetes do tipo II, hipertensão, Alzheimer e mal de Parkinson e porque sabemos o quão prejudicadas se tornam as vidas de pessoas acometidas dessas doenças, nenhum de nós irá questionar o uso de acompanhamento médico, muito menos o uso racional de medicamentos para diminuir, retardar os efeitos que essas doenças causam. Já passou um pouco da hora de enfrentarmos a depressão da mesma forma e com a mesma racionalidade. Nem sempre o uso de remédios será necessário. Muitas vezes atividades físicas associadas à psicoterapia podem ser suficientes para gerar num paciente a disciplina necessária para que ele retome o controle das suas ações e principalmente possa voltar a ter prazer nas demais atividades do cotidiano.

Um pouco sobre a “frescura” ou o mal do século que é a depressão
Recentemente uma jovem belga de 24 anos pediu às autoridades do seu país permissão para a prática da eutanásia, pois alegava que vivia com depressão desde que a infância. Rapidamente o caso ganhou repercussão internacional, inclusive com fortes críticas. Com a aproximação da data do procedimento a jovem desistiu da sua eutanásia, embora continuasse a declarar a persistência do desejo de morrer5.
Outro caso chocante foi o de um policial militar do Rio de Janeiro que, após três meses de salários atrasados e atravessando um processo de divórcio, decidiu transmitir ao vivo seu próprio suicídio pelo Facebook6. A dimensão de uma tristeza e das consequências que perdas podem provocar em indivíduos não podem ser subestimadas. Numa crise extrema o indivíduo perde todo o sentido da sua vida e o suicídio pode ser a única alternativa para acabar com o sofrimento, independente de em nosso estado são não acharmos a decisão certa a se tomar.
Embora esses casos tragam outras discussões, como a intervenção do estado na manutenção e qualidade da vida das pessoas e também sobre o suicídio assistido de pessoas fisicamente saudáveis, a noção de que a depressão é uma doença que pode se tornar crônica, a de que é altamente incapacitante e que pode levar indivíduos à morte precisa nos chamar a atenção.
Uma das críticas que se faz com relação às pessoas que sofrem com depressão é que enquanto em locais pobres do mundo muitas pessoas lutam para sobreviver e encontrar formas de escapar das mazelas a que estão submetidas, em países desenvolvidos e grandes centros urbanos pessoas fisicamente saudáveis pensam em acabar com suas vidas em função de depressão5.
Fato é que o número de casos de depressão aumentou exponencialmente no último meio século. Mesmo que boa parte dos indicadores mostrem que a qualidade de vida aumentou, em termos de expectativa de vida, taxa de mortalidade infantil, acesso a planos de saúde e medicamentos mais avançados e eficientes, isso não impediu a incidência de muitos novos casos de depressão nos últimos anos. Parte da explicação se atribui a melhor notificação que ocorre atualmente, mas entre outros múltiplos fatores os estresses da vida urbana e uso indiscriminado de remédios (e não só antidepressivos) surgem como alguns dos culpados7.

A importância do meio versus predisposição
No nosso mundo cada vez mais urbano, muitos acreditam que a sociedade de modo geral vem se tornando muito melindrosa e suscetível. Muitos acreditam que as gerações que vão chegando têm cada vez menor repertório emocional para lidar com perdas, com frustrações, com respostas negativas e que essa limitação se reflete como uma característica de adultos mimados que somos. Somos sim imediatistas, somos egoístas e egocêntricos e um “não” como resposta é um tremendo baque. Essa pode ser uma falha no caráter muitas e muitas vezes, mas não é a única resposta8, 9.
Indivíduos com quadro depressivo nem sempre esperam o mundo se adaptar ao seu gosto, aos caprichos do que motiva sua depressão. Aliás, é diferente uma pessoa que sente uma tristeza profunda, considerada normal para quem tem um quadro persistente de desânimo (comum em pessoas com depressão).
Pessoas que apresentam quadro diagnosticado de depressão, muitas vezes também tem histórico familiar de depressão. O que indica que esses indivíduos podem ter herdado essas características. A ciência vai chamar essa herança de pré-disposição genética.

O que esperamos daqui para frente
Tratamentos para a depressão como os que conhecemos hoje salvam vidas e dão dignidade aos pacientes. O estigma pode ser maior ou menor do que quaisquer outras doenças, mas com a melhor aceitação da sociedade e principalmente em locais onde a depressão ainda é tabu, como acontece dentro dos círculos cristãos, pode ser um fator para aumentar a eficácia dos tratamentos e impedir recaídas de nossos queridos amigos e irmãos com Depressão.

Devolve-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer” (Sl 51:12).



Referências
¹ Berrios GE (1988). Melancholia and depression during the 19th century: A conceptual history. British Journal of Psychiatry. 153 (3): 298–304. doi:10.1192/bjp.153.3.298. PMID 3074848. Disponível em: <goo.gl/YsVxde>. Acesso em: 16 fevereiro de 2017.
² Starobinski, J. A tinta da melancolia: uma história cultural da tristeza; tradução Rosa Freire d’Águiar. – 1a. ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
³ Spitzer RL, Endicott J, Robins E (1975). The development of diagnostic criteria in psychiatry. Disponível em: <goo.gl/jkwA1Y>. Acesso em: 16 fevereiro de 2017.
4 Ruhe, HG; Mason, NS; Schene, AH (2007). Mood is indirectly related to serotonin, norepinephrine and dopamine levels in humans: a meta-analysis of monoamine depletion studies. Molecular Psychiatry. 12: 331–359. doi:10.1038/sj.mp.4001949. PMID 17389902. Disponível em: <goo.gl/IxBPwF>. Acesso em: 16 fevereiro de 2017
5 Belgium would-be suicide girl’s change of heart proves euthanasia isn’t the answer: disability activists. LIFESITENEWS. Publicação 16 nov 2015. Disponível em: <goo.gl/pTo49b>. Acesso em: 10 fevereiro de 2017.
6 PM transmite suicídio ao vivo no Facebook. EXTRA, grupo Globo. Disponível em: <goo.gl/OVN0ws> Acesso em: 16 fevereiro de 2017.
7 Randy Paterson. Why is Depression Incidence Increasing? Disponível em: <goo.gl/jBN1mi> Acesso em: 10 fevereiro de 2017.
8 Bem-formada, nova geração chega mal-educada às empresas, diz filósofo Folha de São Paulo. Disponível em:<goo.gl/PouURu> Acesso em: 16 fevereiro de 2017.
9 Para autor, a sociedade se tornou ninho de pessoas mimadas. Folha de São Paulo. Disponível em: <goo.gl/mZXKrt> Acesso em: 16 fevereiro de 2017. 

Oséias Feitosa-Junior mantém e escreve para o blog Cristo Urbano.


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