A fragilidade da acepção do feminismo no contexto cristão

(Imagem da Obra "Mulheres protestando" de Di Cavalcanti, 1941/google imagens)

A cultura da submissão da mulher se disseminou e arraigou em diversos povos e culturas e se laicizou ao longo da história. Mas é possível encontrar na historiografia do século 15 indícios de denúncia contra a opressão de mulheres, apesar de o termo feminismo só ter sido concebido séculos depois. Hoje, o movimento feminista é assustadoramente amplo e divergente em diversos aspectos. Não tenho o propósito de explicar detalhadamente o que é o feminismo ou discutir suas vertentes aqui, até mesmo porque não conheço todas. Minha intenção é breve e concisamente instigar a reflexão e tentar desconstruir a noção de que ser cristã e feminista é algo paradoxal.

Nasci, cresci e me tornei mulher em um lar cristão. Evangélico, sendo mais precisa. Desde cedo a figura da minha mãe tornou-se minha referência mais proeminente. Sempre muito determinada, estudiosa e trabalhadora, teve que me criar sozinha por alguns anos após se divorciar do meu pai, em meio à uma delicada situação financeira. À medida que crescia, percebia o quão influente eram também minha avó e bisa, com a qual tive o privilégio de conviver por boa parte da minha infância. Minha vó: exemplo de educação e simpatia. Mesmo com pouca instrução, sua criatividade, inteligência e visão de mundo continuam a me encher de admiração. Esposa de policial militar, teve cinco filhos. Lidou com a prisão do irmão, a morte do filho mais novo e tantas outras mazelas que a vida lhe impunha e ainda impõe, mas sempre as agarra com unhas e dentes e dilacera, preservando a frágil, esquálida beleza da vida. Minha bisa: mulher de fibra. Filha de latifundiários, teve uma infância abastada. A família perdeu toda a riqueza numa empreitada arriscada. Casou-se com um caixeiro viajante que a deixou viúva com duas filhas ainda meninas e um filho na barriga. Migrou, trabalhou na lavoura, lecionou crianças e adultos. Já em idade avançada, escreveu um livro de contos e poesias que minha mãe se empenhou em publicar e é a coisa mais valiosa que eu tenho, com a dedicatória na grafia mais linda. A história dessas mulheres, a fé inabalável, seus ensinamentos e minha percepção do modo de agir e viver particular de cada uma delas tiveram grande influência na construção do meu caráter e personalidade.


Por muito tempo, desconheci o termo feminismo. O movimento em si posso dizer seguramente que estou longe de conhecer a fundo. Quando conheci o termo, veio a mim imbuído em conotações e percepções pejorativas que me distanciaram. Mas sei desde cedo o que é ser mulher cristã. Se me perguntassem há alguns anos se é possível ser uma cristã feminista, negaria facilmente. Cresci e descobri que não é bem assim. Ser mulher cristã significa seguir a vontade de Deus, que, entre outras coisas implica se submeter ao esposo em matrimônio ao papel como esposa. O homem é o provedor e a mulher é a administradora do lar e é quem cria os filhos. O homem pensa, planeja, decide e a mulher, executa, auxilia e obedece. O homem é “o cabeça da mulher” em Efésios 5:23, e mais a diante, em tudo as mulheres devem estar “sujeitas a seus maridos”. Essa é a vontade perfeita de Deus. Mas o mundo não é perfeito, não somos perfeitos. Nascemos e vivemos em pecado. Pelo pecado, a vida toma rumos que muitas vezes não podemos alterar e corrigir. E erramos e sofremos. Quantas mulheres, assim como a minha mãe, não tiveram sucesso no casamento apesar de entregarem de coração a vida conjugal a Deus? Quantas, assim como minha avó, não tiveram que assumir as rédeas de situações extremamente difíceis nas quais os homens se ausentam ou não podem de assumir? Quantas não tiveram que de repente, sozinhas, assim como minha bisa, assumirem a liderança de uma família mesmo com todo temor a Deus? São mulheres desvirtuadas? A palavra de Deus é clara, mas a intenção do ser humano não. Por séculos mulheres foram oprimidas e sujeitas a violências morais e físicas dentro e fora do matrimônio legitimadas pela deturpação das ordenanças. O homem agia, não apenas na esfera matrimonial, vale ressaltar, de acordo com suas intenções corruptíveis disfarçadas aos olhos da sociedade como cristãs.

O feminismo preconiza fundamentalmente a liberdade da mulher. Somos livres e temos o mesmo valor social do homem pois também somos seres humanos, portanto temos os mesmos direitos. E lutamos para que a sociedade reconheça e pratique isso. Somos livres para escolher se queremos assumir a diretoria de uma empresa ou se queremos viver exclusivamente para o lar e o marido e criar nossos filhos. Somos livres para sermos cristãs e seguir a viver de acordo com a palavra de Deus. E somos livres para escolher unir tudo isso, se quisermos. Isso não nos torna menos mulheres, menos femininas, menos cristãs. Acredito que o maior problema vem de interpretações bíblicas sobre o papel da mulher. É extremamente fácil levar ao pé da letra diversas passagens e descontextualizá-las para servir o propósito de manter a mulher "em seu devido lugar", mas é ainda mais fácil dessa forma, desviar da verdade e seguir um caminho torpe disfarçado de virtuoso. Quando mulheres bíblicas de destaque como Débora (Jz 4:1-5) e Hulda (2 Rs 22:14-20) são citadas, no entanto, surge grande dissonância no meio cristão.

Aos poucos a concepção negativa que eu tinha do movimento feminista foi se dissolvendo e hoje me considero feminista. Mas isso não significa que eu defendo ferrenhamente todas as lutas que surgem ou que eu seja filiada a alguma vertente, porque posso sim discordar de vários pontos que entram em conflito com a minha fé. Sou feminista e cristã pois conheço a história da minha mãe, da minha avó, da minha bisa, de tantas outras mulheres e vivo a minha própria história e sei o quanto é duro ser julgada, abusada, menosprezada e negligenciada nas mais diversas situações que simplesmente foram impostas a nós pelas vicissitudes da vida. Nem todas tiveram modelos sólidos de mulheres que eu tive. Muitas não tiveram as oportunidades que tive. Não tiveram a segurança, o amor ou a fé que eu tive e que tenho. O incentivo à busca por empoderamento na formação de meninas nas mais diversas situações de vida salva vidas. Não apenas no sentido literal, que e é evidentemente, crucial, mas especialmente por instigar a busca das liberdades e do espaço na sociedade que é de cada uma delas por direito.


Jessica Caieiro é membro da Igreja Presbiteriana do Butantã (IPBut), cursa Ciências Econômicas na Faculdade de Economia e Administração da USP e aceitou escrever para o blog Cristo Urbano na semana que se comemora o dia internacional da mulher.


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3 comentários:

  1. Jéssica, parabéns pela clareza, discernimento, sabedoria e atitude, que através de seu texto vc declarou tão bem o que é ser uma mulher cristã. Sabemos que envolve muitas coisas e situações, inclusive o feminismo. Reconheço a influência de mulheres maravilhosas na sua educação e formação como a da sua mãe, avó e bisavó. Sou testemunha de que Deus as usaram para ser a mulher maravilha que vc é hoje. E agora Deus está te usando para gloricar o nome D'Ele como mulher cristã e fazer a diferença na sociedade onde vivemos tempos tão difíceis. Que Deus continue te abençoando sempre. Bjs.

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  2. Jessica o texto está excelente, fiquei muito emocionada com suas palavras.Seu texto tem o ritmo perfeito e vai nos empolgando a medida que avançamos na leitura!Parabens

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