Descobrindo-se uma cristã feminista

(fragmento da obra "Deep in thought", Lashun Beal/google imagens).

Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:28)

Numa semana tão marcante, em que se “comemora” internacionalmente o dia da mulher, gostaria de conversar um pouco sobre o termo “feminismo” – e sobre como essa palavra, afinal, tem se conciliado com a minha trajetória cristã.

Nasci mulher numa família cristã, e essas, talvez, são as duas características que vem mais rapidamente à minha cabeça quando preciso falar sobre quem eu sou. Para a minha felicidade, pude crescer frequentando uma Igreja, aprendendo desde muito nova sobre o amor maravilhoso de Cristo, que me acolhia do jeito que eu era: pecadora, criança, menina.

Durante todo este tempo, estive cercada por algumas das mulheres mais fantásticas que eu conheço, verdadeiros exemplos de coragem, resiliência, piedade e amor. E essa situação não era diferente nos tempos bíblicos. É só comparar, nas escrituras, a prontidão das mulheres em abraçar a fé com as dúvidas frequentemente expostas pelos homens.

Mas basta uma reflexão rápida para entender que nem a sociedade daquela época, nem a de nosso tempo, e sequer a Igreja, muitas das vezes, enxerga a nós, mulheres, como seres tão cheios de valor e capacidade quanto qualquer homem.

Ainda que clichê, é preciso lembrar que não conquistamos nossa representatividade em cargos de liderança, quer no mercado de trabalho, quer na política. Que somos ameaçadas e sofremos violência pelo simples fato de havermos nascido mulheres. Particularmente, me lembro dessas diferenças quando me recordo de vários sermões, nos quais os valores da santidade, pureza e castidade eram extremamente reforçados em relação apenas às meninas – geralmente, se faz vista grossa ao conversar sobre o mesmo assunto com os rapazes. Ou quando tive que deixar de frequentar os cultos da noite por algum tempo, porque alguns homens me encurralavam no caminho de volta para a casa, mesmo que eu sempre carregasse uma bíblia enorme nos braços.

Não foi difícil me descobrir feminista, portanto, depois de entender que o termo significava a luta, política e ideológica, para que as mulheres conquistem a igualdade, passando a ser reconhecida como destinatária dos mesmos direitos e respeito usufruídos pelos homens.

Ser feminista não significa querer afirmar a superioridade do gênero feminino sobre o masculino – mesmo porque, nós, mulheres, já sofremos com a diferença de valores de uma sociedade machista, e não desejamos que tais desigualdades se perpetuem. Não é sobre desconsiderar a importância dos homens ou querer que sintam, na pele, qualquer forma de sofrimento.

É um movimento de mulheres e para mulheres, que visa dignificar, e não desmerecer. E, como qualquer tipo de movimento, suas correntes são as mais diversas possíveis, mais ou menos radicais, e que carregam bandeiras diversas – obviamente, nem todas as feministas concordam com todas as pautas deste ou daquele movimento. Mesmo porque, a partir do momento que o feminismo se orienta pela liberdade, seria ridículo querer impor qualquer comportamento ou prática (liberal ou conservadora). Todas, porém, se motivam na crença de que as mulheres, afinal, importam.

(A título de curiosidade, por exemplo, me identifico como feminista interseccional, que além de se preocupar com a luta pela igualdade de direitos das mulheres, dá uma atenção especial às questões de raça e desigualdade socioeconômica, que se fazem sentir de uma maneira terrível dentro de toda nossa sociedade, e, de um modo especial, sobre as mulheres).

Ainda que eu possa falar apenas por mim, acredito na possibilidade de, ao mesmo tempo, ser feminista e cristã. Nossa luta é baseada na fé de que homens e mulheres, ainda que diferentes, são iguais perante os olhos de Deus, cuja misericórdia ultrapassa qualquer segregação criada pelo homem. É entender que por meio de Cristo, que sempre se voltou às mulheres durante seu ministério, somos verdadeiramente livres, porque seu amor não distingue “judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher”. É lutar para que as pessoas nos enxerguem, finalmente, com o mesmo olhar gracioso - e revolucionário – de Jesus.

Isadora Eller é membro da Igreja Presbiteriana Missional do Buritis em Belo Horizonte, advogada e mestranda em direito penal pela UFMG.


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2 comentários:

  1. Adorei! Me representa totalmente. Muito orgulho de vc!!!

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  2. Feminista e cristã é uma contradição de termos!

    http://www.ultimato.com.br/conteudo/e-possivel-ser-feminista-crista

    http://pulpitocristao.com/2016/04/porque-feminismo-e-cristianismo-nao.html

    tempora-mores.blogspot.com.br/2011/12/o-feminismo-cristao-como-tudo-comecou.html

    http://www.editorafiel.com.br/produto/7891468/Feminilidade-Radical

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