Deus e Trump

(Trump/imagem livre: Pixabay)


Considere as seguintes situações listadas abaixo, todas tiradas do texto bíblico:

1 - Após passarem quatrocentos e trinta anos no Egito, Deus enviou Moisés aos hebreus para tirá-los de lá e libertá-los de Faraó (Êxodo 3-4).
2 - Depois da morte de Josué, Deus levantou vários juízes para livrar seu povo das mãos dos seus inimigos na Terra Prometida, como Jefté, Gideão, Sangar e Sansão (Juízes 2:16-19).
3 - Quando o povo de Israel rejeitou o juízo dos filhos de Samuel (e, segundo a Bíblia, rejeitaram o próprio Deus), o Senhor lhes Deus um rei, Saul, que lhes seria pesado (1 Samuel 8-10).
4 - Como punição à idolatria de Salomão, Deus levantou Jeroboão para dividir o Reino de Israel, reinando sobre dez das tribos (1 Reis 11:26-40).
5 - Jeremias profetizou que Deus levantaria Nabucodonosor, rei dos babilônios, para destruir Israel e levá-los para o exílio, como punição. E assim foi. (2 Rei 24:1-17, Jeremias 20:4-5 e 27:5-7).
6 - Também em cumprimento às profecias de Jeremias, Deus levantou Ciro, rei dos persas, para dar a liberdade aos judeus exilados depois de setenta anos de cativeiro. (2 Crônicas 36:22).


Agora, com a lista acima em mente, responda inserindo o número adequado: a eleição de Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos da América pode ser comparada com ( ).

Eu não tenho a mínima ideia.

Tenho meus palpites, mais de exclusões que de conclusões, mas, de fato, eu não sei. O Senhor, em seus desígnios insondáveis, sabe quais são os Seus planos. (Romanos 11:34, Deuteronômio 29:29). Colocar Trump na posição de Comandante-em-Chefe da nação (ainda) mais poderosa do mundo num momento da história tão tenso como o nosso nos confunde e nos humilha – vide os sucessivos erros das pesquisas de opinião e das análises dos especialistas quanto à atitude de Trump no governo.

Donald Trump pode ser entendido como aquilo que Nassim Taleb chama de “cisne negro”: um evento imprevisível (para quem o sofre), que causa um impacto de enormes proporções e para o qual tentamos encontrar explicações depois de ocorrido. Ou seja, ele traz instabilidade e incertezas – o que, para alguns, significa fonte de ansiedade, medo, desespero.

Graças a Deus, não precisamos conhecer os Seus planos, apenas confiar nEle. Nosso Deus ainda é bom e ainda é soberano, mesmo que, às vezes, o rumo da história parece contradizer isso. Nada lhe escapa do controle. Nada. É Ele quem levanta e é Ele quem derruba governantes (Daniel 2:21, Salmo 75:6-7). Por isso, podemos ter paz em tempos atribulados.

Digo isso porque, desde a campanha do mega empresário de cabelo engraçado, mas principalmente a partir da sua eleição, Trump tem despertado reações as mais extremas, da preocupação à histeria, passando por desolação, medo, desespero, raiva, ódio, não só nos estadunidenses, mas por todo o mundo, uma vez que a política norte-americana reflete por todo o globo.

O cristão não precisa passar por isso. Mesmo quando a história vai tomando um rumo confuso, sombrio, até mesmo cruel, o crente deve estar firmado na certeza de que o Senhor é o Senhor da História e de que nada nem ninguém governa acima da seu governo. Trump governará por, no máximo, oito anos; Cristo reina para sempre, seu Reino não tem fim (Sl. 145:13; Is. 9:7; Hb. 1:8). Mesmo sem entender bem por onde ela vai, o cristão sabe como a História termina. E isso deve trazer tranquilidade e paz.

Essa paz não significa estar passivo diante da História. Deus levanta profetas no meio do seu povo contra a injustiça e o abuso, como levantou Elias, Jeremias, João Batista. Assim, Deus levantou Carey contra a cremação de viúvas vivas junto com o cadáver de seus maridos (“sati”) na Índia, Wilberforce contra a escravidão na Inglaterra, Bonhoeffer contra o nazismo na Alemanha, Luther King contra o racismo nos EUA. Aqui no Brasil, o pastor Antônio Carlos Costa, idealizador da ONG Rio de Paz, com seus constantes e vistosos protestos denunciando a violência e a injustiça social, é uma dessas vozes proféticas. Como lembra David Koyzis, em seu indispensável “Visões e Ilusões Políticas”: ''A certeza da vitória final de Deus não é desculpa para cruzarmos os braços, evitando o árduo trabalho de compreender e detalhar o mandamento da justiça nesse mundo; mas ela significa que já sabemos como a história vai terminar. Não há como saber de que modo as peripécias da trama irão se entrelaçar para desencadear o capítulo final, apesar das especulações de alguns cristãos que buscam esse tipo de conhecimento. Não há como saber quão breve Cristo voltará para trazer a plenitude prometida do seu reino. Pode ser amanhã, mas pode ser também daqui a mil anos. Também não há como saber como as nossas obras, falíveis e imperfeitas, poderão contribuir para promover o reino. Mas sabemos que o final virá e que Deus quer usar nossos frágeis esforços para os seus propósitos e a sua glória Cada ato que promove justiça, seja ele na política ou em qualquer outro âmbito da atividade humana, aponta para a plenitude final do reino da justiça de Deus no novo céu e na nova terra.''

A paz de que falo não se opõe à conflito, mas a desespero. Não é o fim da adversidade, mas a tranquilidade em meio à adversidade. Não é a paz que vem do que vemos, é a paz que vem pela fé – e que, se víssemos, não seria pela fé. É uma paz que nos foi dada pelo próprio Cristo junto com o Espírito Santo e com a promessa de que um dia estaremos para sempre com Ele (Jo. 14).

Talvez a eleição de Trump e os rumos que as coisas estão tomando lhe afetem, direta ou indiretamente. Talvez suas medidas lhe trouxeram problemas econômicos. Talvez você tivesse planos de ir para os Estados Unidos e agora os reconsidera. Talvez você tenha amigos ou parentes imigrantes lá, regularizados ou não, ou talvez você mesmo seja um deles. Sem minimizar sua situação particular, meu conselho para você é o mesmo de Paulo para os filipenses: 

Filipenses: 4. 
6. Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças; 
7. e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.

Porque Trump não é o motivo da nossa esperança, ele não precisa ser o motivo do nosso desespero. Porque Cristo é a nossa esperança, não precisamos nos desesperar.

Luiz Périco colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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