Por que ter um filho com síndrome de Down?

(Nathan Anderson - USA: unsplash free high resolution images).



Este nosso corpo está constantemente enfrentando a morte, tal como aconteceu com Jesus; assim, fica bem claro que a vida de Jesus é revelada em nosso corpo! ” (2 Co 4:10).

Nessa semana comemora-se o dia mundial da síndrome de Down (21 de março) e eu, por acaso, li dois artigos em inglês muito bons sobre esse assunto aqui e aqui que me levaram à nossa própria versão sobre o assunto aqui no Cristo Urbano.

A síndrome de Down ocorre porque alguns indivíduos nascem com uma cópia a mais do cromossomo 21 (por isso ela também é chamada de Trissomia do cromossomo 21) o que leva a algumas dificuldades de habilidade cognitiva e desenvolvimento físico, assim como de aparência facial.

Apesar das suas diferenças e limitações, as pessoas com síndrome de Down estão cada vez mais integradas ao dia-a-dia da nossa sociedade. Seja estudando, seja praticando esportes, seja tendo um trabalho formal. Sei também de muitos profissionais da pedagogia que se interessam em incluir da melhor maneira possível crianças com síndrome de Down. O que, obviamente, permite a aceitação e formação de laços com as demais crianças da mesma faixa etária.

Embora tenhamos na mídia pessoas que não “escondam” seus filhos por serem portadores da síndrome de Down (caso, por exemplo do ex-jogador e atual senador Romário Faria), e que, por sua vez, impactam a vida de milhares de pessoas que passam a ter uma maior aceitação de crianças e adultos com síndrome de Down é comum vozes dissonantes, pessoas que não desejam ou não se achem capazes de criar filhos com Down.

Se você descobrisse no início de uma gravidez que o seu filho a ser gestado nasceria com síndrome de Down ou alguma outra condição de desabilidade, optaria pela interrupção e tentaria uma nova gravidez ou aceitaria aquela criança que viria e passaria a considerar todas as consequências e as necessidades desse novo ente na sua família?

Sim, esse é um dilema moral. Não, não é um dilema novo e está ocorrendo agora em muitos lugares com ou sem amparo do estado (seja no país que for).

Essa pergunta, no Brasil, parece um pouco sem propósito já que não existe uma lei de aborto que regulamente casos como esse (abortar um feto que tenha diagnóstico de Down). Nem é meu ponto discutir direito do aborto da mulher nesse texto. É um pouco além...

Em todo caso, no Brasil começamos a tomar contato com essas ideias de forma mais midiática quando um dos cientistas mais famosos da atualidade, o biólogo Richard Dawkins, no ano de 2014, através da sua conta no Twitter afirmou que uma mulher, se estivesse grávida de um feto com síndrome de Down, "deveria abortar e tentar novamente. Seria imoral trazê-lo para o mundo, se você tem a escolha".

Naquele ano eu lembro que essa declaração se tornou muito polêmica e foi contestada o máximo possível dentro dos limites do Brasil, mas eu não tinha a menor ideia de como viam esse assunto lá fora (das nossas fronteiras).

O aborto de crianças com síndrome de Down é uma realidade nos EUA e em muitos países da Europa. Em países como Islândia, Dinamarca e EUA há testes eficientes que conseguem predizer se os fetos a serem gerados terão ou não síndrome de Down. Nos EUA, algumas estatísticas sugerem que cerca de 50 % das mães decidem pela interrupção da gestação quando descobrem a síndrome. Na Dinamarca 98 % dos bebês com síndrome de Down são abortados e na Islândia de 2008 a 2012 não nasceu nenhuma criança com síndrome de Down desde que existem acompanhamento pré-natal universalizado para a população do país (e não parece ter mudado o quadro nos anos que seguiram até hoje). A principal justificativa para a disseminação da prática de aborto nesses países acontece em termos de produtividade e custos para o estado, ou seja, indivíduos com Down seriam apenas um gasto em saúde para seus países e ainda por cima não seriam capazes de gerar capital ou força de trabalho.

Com essa crescente onda de controle sobre as características dos bebês que têm ou não oportunidade de nascer eu fico me perguntando quais serão os limites e algumas das consequências daqui a alguns (talvez poucos) anos.

Disse-lhe o Senhor: Quem fez a boca do homem? ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o Senhor? (Ex 4:11).


Eu lembro de assistir ainda criança um filme chamado GATTACA, cujo título é exatamente um trocadilho com as bases dos nucleotídeos que compõe o DNA. Esse filme retrata uma sociedade dividida em castas na qual procedimentos de melhoramento genético eram realizados para se ter indivíduos aparentemente sem imperfeições e desabilidades. Pessoas concebidas de forma natural eram consideradas inábeis para a maioria das funções de destaque na sociedade. Eu convido você a assistir essa história, mas adianto que como se possa imaginar o personagem principal vai buscar subverter essa situação que pode parecer para você hoje absurda. É absurda e tem nome.
A ideia de eugenia não é nova. Ela foi utilizada como propaganda e prática da Alemanha nazista. E ela pode ser uma pequena semente em cada um de nós. Com o avanço das ciências médicas e biológicas vai ser cada vez mais comum aquele pequeno desejo de intervir nos caracteres dos filhos e esse desejo vai se tornar cada vez mais forte e mais próximo da realidade.  

Sem ser um pai, uma mãe ou irmão de um indivíduo com síndrome de Down é fácil o distanciamento e, por isso, o desinteresse nesse assunto, nas crianças e adultos com desabilidades por aí. Mas não são poucos os casos onde Jesus incluiu pessoas com deficiência e o quanto ele nos demonstra seu cuidado, compaixão e amor por todos sem diferença. Não parece fora da realidade imaginar que seu exemplo seja também um convite para homens e mulheres dos nossos dias, a começar por mim e por você.

Uma sociedade com pessoas e suas limitações é uma sociedade com suas dificuldades e com sua missão de tornar-se mais justa; procurando não olhar para as pessoas em função da sua utilidade, mas reconhecendo o valor inerente de cada ser humano que nós encontremos e vivendo de forma que honremos a imagem do Senhor no nosso próximo.

E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?
Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifeste nele a GLÓRIA de Deus ” (Jo 9:2,3).

Oséias Feitosa-Junior mantém e escreve para o blog Cristo Urbano.

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