Cristão, vamos conversar sobre suicídio?

('Le semeur' é uma pintura de Vincent Van Gogh de novembro de 1888: google imagens).



Esse texto foi publicado em setembro de 2016, para a campanha do Setembro Amarelo pela prevenção ao suicídio no meu blog pessoal, o Teologicamente Instável. De uma forma muito inesperada teve grande repercussão, com pessoas vindo conversar comigo sobre o tema, contando suas histórias.

Recentemente a Netflix investiu um bom dinheiro para divulgar uma nova série chamada 13 Reasons Why (os 13 porquês) que causou grande impacto – tanto positivo quanto negativo. E o tema do suicídio, que sempre existiu, voltou a ser debatido como algo que nos cerca. Não cerca só as pessoas sem fé, mas a nós também cristãos. Por isso precisamos debater ainda mais, com responsabilidade, sobre o tema.
--
“Laços de morte me cercaram.
E angústias do inferno se apoderaram de mim
Caí em tribulação e tristeza...” (Salmo 1116.3)

Falar de suicídio me faz lembrar minha avó.
Ou, mais especificamente, do pai dela, meu bisavô. Este se matou quando ela era pequena.

O motivo nem chega a ser um assunto comentado na família, já que a própria morte dele não se deve falar. Só sabemos da história posterior da vida dela. A mãe dela ficou desamparada por um tempo no interior de Pernambuco e minha avó cresceu com muitos irmãos. Para logo sair de casa, ficou noiva bem jovem de um primo. Porém, para a infelicidade de minha avó, ele morreu de uma doença repentina perto do casamento. Ela não agüentou a tristeza e viu no convento um lugar de cura. Foi freira carmelita descalça. 
Assim, a religião a acolheu, como ela normalmente faz com os desamparados.

Um belo dia, depois de vários anos, percebeu que seu lugar não era mais ali. Já estava curada das feridas anteriores, podia sair. E, assim, abriu uma nova porta para a vida. Casou-se com meu avô, teve três filhos, dentre eles um excepcional. Fez duas faculdades – teologia e direito. Foi casada durante 50 anos, até o falecimento do companheiro. Depois desse falecimento, novamente, deprimiu-se. Voltou a emagrecer e tem um medicamento de auxilio. Porém, às vezes se lembra da época do convento, coloca a cruz em cima da cama como quando foi freira. Apesar de hoje ser evangélica e de meu avô ter sido pastor, lembra de lá, pois foi um lugar de acolhimento.

Depois dela, muitos outros da minha família, além de mim, tiveram problemas com depressão e com o tema do suicídio. E não falo de uma família sem Deus, mas de uma composta de católicos e evangélicos prioritariamente, com pastores e atuantes.

Você com certeza conhece alguém ou alguma história de uma pessoa próxima com tendências suicidas. E, na igreja, a resposta sempre é muito óbvia.  O suicida vai para o inferno, pois a vida é dom de Deus. Porém, é quase uma contradição, pois na teologia tradicional ensinada na igreja, aprendemos que Jesus, na cruz, primeiramente se sentiu desamparado por Deus, e depois entregou o seu espírito. Se a igreja acredita que Jesus não foi morto como um preso político, mas que se entregou para morrer propositalmente e decidiu a hora de sua morte, qual a diferença disso para um suicídio? Na teologia tradicional, Deus se suicidou para nos salvar.

Obviamente, a igreja não quer falar desse modo para não inspirar adolescentes que ouvem música triste para a morte. Claro que isso cria uma crise na concepção do porquê viver. Afinal, Jesus não lutou até o fim. Ele, enquanto ser humano desamparado pelo Pai, escolheu o próprio fim, foi dono de seu destino. Podia ter sido forte e esperado morrer pela tortura. Mas o relato bíblico e a leitura tradicional diz que não foi assim. Deus quis morrer. Ele poderia ter resolvido o problema da salvação sem que Jesus se matasse, pois ele é onipotente. Mas estava no plano de salvação o suicídio de Jesus.

Parece chocante e muito menos significa que eu acredito nessa teologia, mas é isso que está no cerne da fé popular. O Cristo morto nas paredes católicas é um Cristo suicida. E quão hipócritas somos quando lidamos quando alguém decide morrer, esquecendo deste Cristo que deu a vida. O quão fingido somos quando não encaramos os sofrimentos daqueles que estão nas nossas comunidades por causa de nossa fé.

Num livro que eu recomendo a todos, se tiverem paciência de lerem 600 páginas sobre depressão, tem um capítulo só sobre suicídio. Chama-se O Demônio do Meio dia. Nesse capítulo, tiramos algumas dúvidas sobre o tema. Primeiramente, que o suicida necessariamente é depressivo. Tem pessoas que se suicidam porque estão vivendo numa dor insuportável, como em muitos casos de eutanásia. Outras tentam sem pensar na morte em si, querendo ter um controle sobre suas vidas. E, uma parcela significante, é depressiva. Mesmo assim, é dos nove sintomas possíveis para o depressivo. Nem sempre o é. Têm depressivos que jamais desejarão tirar sua vida. Também, nem toda tentativa de suicídio irá se concretizar num suicídio ou tem o desejo para isso.

E, antes de dizerem que isso é tema para psicólogo/psiquiatra, eu quero que vocês se lembrem da história da minha avó. Minha avó nunca procurou um psicólogo, mas uma igreja. Não acredito que este seja o melhor método de tratamento, mas esta é a nossa realidade. A população que está nas igrejas não é a rica, que tem condição de pagar tratamento por fora, que tem uma vida estável. E, mesmo estes ricos tendo opções outras, sabemos a quem o Eike Batista procurou em um momento de crise: uma igreja evangélica periférica.

Mas esse não é o povo na maioria evangélica. Não. As igrejas estão povoadas de pessoas que perderam seus filhos na guerra ao tráfico, pessoas que sofreram racismo a vida inteira, abuso de familiares próximos que precisavam cuidar de você enquanto os pais estavam trabalhando. As igrejas estão cheias de mães solos que tiveram depressão pós-parto, de mulheres que o marido abandonou. Pessoas que só tem a igreja como refúgio, que não tem tempo para um teatro, mas tem seu lazer e alegria no encontro de mulheres no domingo antes do culto. Essas pessoas querem morrer também. 

Essas pessoas têm depressão também. Aliás, nesse livro O Demônio do Meio Dia tem um capítulo sobre depressão e pobreza que desconstrói toda aquela teoria de quem tem depressão é somente rico.

Vamos abrir os olhos para essa população porque ela existe e está morrendo. O suicídio se alastra silenciosamente. Além disso, o tabu de que falar estimula as pessoas piorou ainda mais a possibilidade de auxilio. É uma situação mal elaborada, em aberto e completamente estigmatizada na igreja.

Porém, eu não posso falar de fé evangélica sem falar de esperança também.

Não aquela esperança que vemos na igreja, que ignora a morte. Na faculdade de teologia, lembro-me de um professor que dizia que na igreja evangélica se fala só do Jesus vivo e esquecemos que ele morreu, enquanto na igreja católica se lembra tanto do Jesus sofrido que esquece que ele ressuscitou. Porém, é necessária ver uma esperança que não seja um nem outro. Uma esperança que nem a de Jesus, que manteve as marcas da cruz.

E, para isso, vou contar um pouco da minha história.

Quando eu tinha treze anos, eu estava realmente disposta a tirar minha vida. Sabe, e quando conto isso, algumas pessoas levam como se fosse uma crise normal de adolescência. Não, não era. Eu estava no auge quase sete anos de violências cotidianas na escola, desde xingamentos, roubos e violências físicas. Eu havia confiado minha amizade num cara que abusou sexualmente de mim. Um homem mais velho. Pedofilia. Confiei a amizade de outros amigos que viraram as costas para mim quando eu comecei a piorar. E, infelizmente, eu lembro até hoje de um menino na escola, quando soube que eu tinha vontade de morrer, que disse: “mas ninguém gosta de você mesmo. Se mata logo.”.

Sabe, se você já está em um comportamento auto-destrutivo como eu já estava, de se cortar, de fingir estar doente para não sair da cama, essa é a gota d’agua. Eu realmente ia tirar minha vida, planejei. Mas naquela mesma noite, por algum motivo sobrenatural, Deus apareceu para mim. E, olha, ele nunca tinha aparecido para mim. Eu achava que ele nem existia mesmo.

E, novamente, a fé foi um lugar de cura.

Aliás, um adendo interessante: eu descobri na faculdade de psicologia que pessoas com depressão severas às vezes têm alucinações, se estiverem em crise. Se eu tivesse contato com essa informação na época, talvez eu me sentisse muito pior achando que estava enlouquecendo e seguiria em frente na tentativa. Graças a Deus, eu não conhecia a ciência.

Porém, retornando a fé. Demorei mais de um ano para ter outra experiência com Deus, mas essa experiência primeira me fortaleceu para procurar terapia, conhecer outras pessoas, mudar de escola. Na minha segunda experiência, que me fez ter certeza que eu seria evangélica, tive uma visão de Jesus, com o braço aberto, sangrando e, naquele instante, percebi que Jesus era o Deus que me entendia, porque ele sabia o que era estar machucado.

Faz-se dez anos desde tudo isso. E eu só vivi esses dez anos porque da mesma forma que Jesus ressuscitou, eu ressuscitei também. Apesar de a igreja falar que só vamos ressuscitar no último dia, que a esperança é no porvir, não é isso que Jesus ensinou. Jesus não morreu e disse “está tranqüilo porque vocês vão me ver no porvir”. Ele voltou como carne, na história. A esperança é agora. A ressurreição é agora. O Reino de Deus chegou. Ele é porvir, mas ele é aqui também. E é muito especial conseguir viver para ver esse Reino! Não há nada que substitui a vida para Deus, tanto que ele se fez vida material, como a nossa. Por isso Deus quis que Jesus subisse para dentro da trindade como ser humano de carne e osso. E não só carne e osso, mas com as cicatrizes da morte, do sofrimento.

Me lembro de olhar para meu braço e não ver mais cicatriz. Nossa! Quem diria que eu estaria aqui hoje... Não significa que está tudo tranqüilo. Eu choro muito, sofro ainda de depressão, de vez em quando preciso de terapia. Tenho dificuldades diversas. Mas ainda é melhor do que antes. A ressurreição só entende quem passou por ela.

Há esperança ainda!
“Volta, minha alma, ao sossego,
Pois o Senhor tem sido generoso para contigo.
Pois livraste da morte a minha alma,
Das lágrimas os meus olhos,
Da queda, os meus pés.” (Salmo 116.7-8)

Rebecca Maciel é psicóloga, teóloga e atualmente realiza seu mestrado em ciência da religião pela UMESP. Inicia aqui sua colaboração para o blog Cristo Urbano.


Este texto, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br.

Um comentário: