Quem tem medo da cidade?

Uma breve resenha e algumas ideias sobre o livro de Tiago Cavaco, Fé na Cidade.
João Vinícius de Abreu
23 de abril de 2017
Campinas, SP
Introdução
Provocativo. Se eu pudesse resumir em uma palavra este pequeno livro de pouco mais de 100 páginas do Tiago Cavaco eu o faria assim. Tiago tem uma notável habilidade de provocar os seus leitores com alguns insights desconcertantes. 


Thiago Cavaco (TopBooks: http://topbooks.pt/autor/tiago-cavaco).

Tiago é português, pastor batista, roqueiro e pai de família. Talvez ele discorde da ordem dos elementos aqui (que é apenas descritiva, ok). Gente boníssima. Aliás, tive a feliz oportunidade de pegar autografado a minha edição deste livro. O Tiago esteve com a minha turma do 3º ano no Seminário Martin Bucer e pude estar com ele após o almoço, ali ele falou da música brasileira e de algumas impressões sobre missões no contexto “pós-cristão” da Europa, foi uma conversa instigante. 
O livro “Fé na Cidade” foi lançado este ano por Edições Vida Nova (São Paulo) junto com mais outros dois livros do Tiago, que são: “Seis sermões contra a preguiça”, compilado de uma série de sermões apresentados na sua igreja, e “Cuidado com o alemão”, que trata de possíveis provocações de Lutero para os nossos dias. 
O problema do livro
A problemática de discussão deste livro (e também deste texto) baseia-se na seguinte constatação: A igreja em termos gerais é um agente que tem um certo “medo” da cidade e da urbanização, preferindo a vida bucólica como uma vida ideal, inocente e livre de pecados. O que é irônico nisso é que o desenvolvimento urbano está presente desde os primeiros dias da vida da igreja. O trabalho missionário dos primeiros séculos direciona-se para os grandes centros (Roma, Antioquia, Alexandria, entre outras), ainda que estes não tivessem ainda a maior concentração populacional da época (situação distinta da que vivemos hoje). A pergunta importante aqui é: O que eles viram na cidade? 
A minha resposta para isso é simples. Eles viram gente e gente diferente. O pluralismo cultural-filosófico-religioso que as cidades abrigam escancara o que há de pior e de melhor nas pessoas. A fé cristã por sua vez é a melhor resposta para ambas as direções. Ela confronta o que há de pior, redimindo, e afirma o que há de melhor, ecoando. A fim de que essas duas direções encontrem na pessoa de Cristo o seu verdadeiro significado. 
O texto do Tiago irá construir uma modelagem positiva da cidade e da posição que a igreja deve ter na cidade a fim de que cumpra o seu propósito. Ao final do livro ele traz alguns insights quanto a sua experiência de igreja em Portugal. Quero tratar sobre as minhas impressões quanto a modelagem proposta. 
O modelo bíblico de cidade


Cidade noturna (unsplash high resolution images).

É compreensível que inicialmente nós tenhamos um “saudosismo bucólico”, pois a cidade não é algo que é inicialmente bom no texto bíblico. Deus cria um jardim onde tudo era perfeito e nós estragamos esse jardim. Como consequência do pecado nós somos expulsos dessa experiência e partimos para construir uma morada distinta da primeira. É irônico que o primeiro bebê do mundo é o primeiro assassino e este primeiro assassino é o primeiro urbanista da cidade como Tiago aponta. Nada poderia estar pior para os entusiastas da cidade. 
Entretanto, em um movimento gradual e progressivo, que acompanha a revelação de Deus e redenção do seu povo, a cidade começa a ser uma experiência melhor do que a vida nômade e independente. Os primeiros ajuntamentos oferecem proteção diante de ataques e desenvolvimento comunitário de cultura e criatividade. 
Nesse sentido Jerusalém é a melhor imagem da cidade que podemos ter até então na história bíblica. É uma cidade que tem uma ética voltada para Deus e que serve ao homem à medida que serve principalmente a Deus.
Mas outra imagem de cidade surge, que é a Babilônia. A Babilônia é a antítese de Jerusalém. Uma cidade que oprime e que serve a si mesma, e não a Deus. Uma cidade que aniquila os valores dos povos que domina e que existe pela sua própria exaltação. 
A palavra de Jeremias (Jr 29) em desenvolver, não uma fuga da cidade, mas, muito pelo contrário, um comprometimento com a cidade, pode no primeiro momento colocar em parafuso as nossas cabeças. Entretanto a sua proposta faz parte da ideia de Deus para a cidade. A cidade precisa ser reconstruída pelos seus, em seu interior, tratando do problema que existe no coração dos homens. Tiago Cavaco diz: “Não há cidade que viva inteiramente fora do coração dos homens”.
O modelo bíblico da cidade traz o caminho que Deus faz para a salvação da própria humanidade. O início é o jardim, mas o fim é a cidade. O propósito da cidade no “momento Babilônia” é de se afastar de Deus, mas o propósito da cidade no “momento Jerusalém” é ter comunhão com Deus. 
Esse modelo apresenta a cidade não como vilã nem como mocinha da história, mas enquanto lugar que é afetado por homens e mulheres que ou se submetem a Deus ou se submetem a si próprios. A direção da sua submissão irá dar o tom da cidade que eles habitam e a esperança que eles têm com Deus e com as pessoas ao seu redor. 
O modelo bíblico de igreja na cidade
O sentido do texto vai na direção de responder qual é o papel da igreja (congregação) na cidade. Para Tiago o papel da igreja está em representar o amor para a cidade. Essa cidade por sua vez tem uma visão distorcida sobre o que é amor. Para muitos na cidade o amor é um assunto “fofo”, enquanto para a bíblia e para a igreja é um assunto que trata sobre “força” pois, “o amor não acontece por ser natural. O amor acontece porque é necessário. A existência do amor numa igreja não é resultado de essa igreja ser boa, mas o resultado dessa igreja ser má [...] O amor não é uma fofura em que nos deitamos - o amor é uma força que transpiramos”. 
O ponto principal do amor está fundamentado na afirmação bíblica de que “Deus é amor”. Deus é amor, mas nós não. Nesse sentido a igreja inclusive não é uma comunidade que naturalmente expressa o amor, mas sim um grupo de pessoas que poderia naturalmente odiar, como a cidade o faz, mas que decide amar pois é alcançada pelo amor demonstrado por Deus em Jesus. Somente dessa forma que o amor é possível. Tiago diz “Uma igreja que verdadeiramente ame faz sempre uma inesperada declaração de derrota - foi vencida pelo Espírito Santo. É um paradoxo - é preciso que Deus ganhe e que nós percamos para realmente podermos amar os outros”. 
Nesse reconhecimento de derrota está a constatação de nossas fraquezas e incapacidades para amar e nisso reside uma direção paradoxal: “somos chamados a amar como Deus porque odiamos como os homens odeiam”.
Minhas últimas considerações
Diante do problema do medo da cidade e da falsa expectativa de salvação fora da cidade devemos caminhar para o amor, pois é no amor que a igreja encontra o seu senso de propósito na cidade. 
A igreja não existe na cidade para si mesma mas para amar a Deus e ao próximo. Isso é extremamente confrontador para a igreja dos nossos dias. Estas refletem o que seus membros são: egoístas e orgulhosos. Muito mais voltados a si mesmos do que aos outros. Muito mais interessados em se promover do que promover aos outros. Pessoas que vivem mais o momento Babilônia. 
Mas nós precisamos de mais Jerusalém. Nós precisamos voltar-se para a escola do amor de Deus, a qual nos lembra na primeira lição de que somos alvos deste amor e que na segunda lição nos lembra que a história não para por aí e que temos uma tarefa para com as cidades que é representar a elas este amor.
Por fim, dentre todas as cidades possíveis a que interessa mesmo é a última (ou porque não a primeira), a Jerusalém de Deus. Cidade onde o Deus-trino reina e onde toda a fé e a esperança das antigas cidades se materializam em amor.

João Vinicius colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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