Reforma e Revolução: 500 anos de Lutero, 100 anos de Lênin

Expressionismo abstrato, Jackson Pollock (reprodução google imagens).


Se você for reformado ou comunista, 2017 é um ano importante para você. Seja pelos 500 anos da Reforma, seja pelos 100 anos da Revolução Russa.

Se você for reformado e comunista, porém, 2017 se torna um ano duplamente importante.

Agora, a pergunta que de pronto vem à mente é: pode alguém ser reformado e comunista?

Para responder a essa pergunta é preciso ser arbitrário, ou seja, é preciso definir cada um desses termos de modo que possam entrar em relação. Por um lado, um comunista não teria medo se essa fosse uma relação contraditória (a contradição é elemento central do comunismo). Por outro lado, um reformado não teria medo se essa fosse uma relação que motivasse... alguma reforma, afinal, reformadores não tiveram medo de debater (o debate é essencial para a Reforma).

Como vocês podem ver, trago aqui minhas próprias definições, com as quais me identifico.
Resolvi, então, fazer 10 pontos para rememorar os 600 anos mais importantes dos últimos 500 anos de história (500 de Reforma e 100 de Revolução)[1].

1. “Ao dizer: `Fazei penitência`, etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência” – 1ª tese de Lutero
Lutero abre sua seção de teses chamando a igreja católica (representada pela porta da igreja de Wittenberg, onde suas teses foram pregadas sem consentimento) para um debate específico, no caso, sobre o sentido da “penitência”. Não à toa, estas são as duas teses subsequentes: “2ª tese: Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes); e 3ª tese: No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne”.

Reformar é debater, é expor, contrapor e concluir, e então mudar. Qualquer reformador que tenha medo do debate – inclusive, medo do debate sobre suas próprias práticas – presta um desserviço à memória protestante.

2. “Feuerbach retira do fato da auto-alienação religiosa o desdobramento do mundo em um mundo religioso, representado, e um mundo real. O seu trabalho consiste em dissolver o mundo religioso, reduzindo-o à sua base mundana. Ele não nota, porém, que, depois de realizado este trabalho, falta ainda o principal. Com efeito, que o mundo terreno tenha se separado de si mesmo e se fixado nas nuvens como um reino independente, só se pode explicar pelo próprio desgarramento e pela contradição desse mundo terreno consigo mesmo. Este deve, primeiramente, ser compreendido em sua contradição e, então, pela supressão dessa contradição, deve ser revolucionado de modo prático. Por conseguinte, depois de descobrir, por exemplo, na família mundana o segredo da sagrada família, deve-se primeiro criticar a esta de modo teórico para então revolucioná-la no plano prático”. 4ª Tese de Marx sobre Feuerbach.

Como se pode perceber, o procedimento revolucionário não difere muito do reformador: primeiro se coloca o debate, o entendimento sobre termos, sobre conceitos e sobre contradições e, então, se procede para a revolução na prática.

3. Se o intuito da Reforma era reformar a Igreja – no caso, a Igreja Católica Apostólica Romana – a Reforma foi um fracasso.

4. Se o intuito da Revolução Russa era inaugurar o comunismo na Terra, a Revolução foi um fracasso.

5. Reforma e Revolução, para além dos marcos históricos, podem ser pensadas como posturas, como práticas, motivadas por ideais utópicos (a igreja reformada, a sociedade comunista). Nesse sentido, enquanto houver reformadores e revolucionários, nem a Reforma nem a Revolução cessaram, muito menos, fracassaram.

6. A Reforma deixou um legado importante ao reconciliar a cultura eclesiástica e a cultura popular. O maior marco disso foi a tradução da bíblia para o alemão feita por Lutero. O fato de as reformas terem todas ocorrido em seus idiomas locais (sobretudo, inglês, francês e holandês) também é significativo. Hoje, um dos maiores desafios da Reforma, talvez, seja questionar essa prática reconciliadora e delinear os limites de consenso entre os valores da Igreja e a cultura popular, a cultura musical, a cultura literária, a cultura filosófica, a cultura sexual, etc.

7. A Revolução Russa marcou as dificuldades de se lidar com um capitalismo que, em evolução constante, já não era o capitalismo de Marx. A frase de Lênin “um passo pra frente, dois pra trás”, imortalizou a estratégia reformista de Lênin (aqui tida no sentido Reformador de reforma). Cabe, hoje, nos perguntarmos qual a melhor estratégia para compreender e revolucionar o capitalismo cambiante. Parece, nesse sentido, impossível ignorar 1) a análise econômica, 2) a sociologia fundada no trabalho e 3) a dialética.

8. A economia impõe desafios para a Reforma e para a Revolução. Da Reforma surgiram inúmeras facções religiosas, às quais parecem corresponder diferentes perfis econômicos, sendo que nas grandes facções (as que conseguem absorver diferentes perfis religiosos), notam-se subdivisões internas que podem estar relacionadas aos perfis econômicos. Essa hipótese talvez precise ser testada sociologicamente, mas também pode ser antecipada teologicamente: qual o papel do dinheiro, da riqueza, da pobreza, e do progresso para a Igreja do Século XXI? Como interpretar, em um mundo que exige constante acumulação, os textos que condenam o dinheiro por sua capacidade de originar males? Como integrar isso com o fato de que as igrejas, enquanto organizações civis, precisam organizar sua vida financeira como uma empresa? Como decidir “alocar recursos” da igreja – como investimentos ou penitências?

Para a Revolução, fica a pergunta: somos capazes de dialogar com o mainstream econômico, como Marx era, à sua época? Seria preciso compreender o discurso econômico atual e realizar sua crítica teórica antes de revolucioná-lo? Ou podemos pular esse passo?

9. Marilena Chauí estava certa[2]. Quando a filósofa gritou que “odiava a classe média” ela tinha uma tese que era: a construção sociológica da “classe média” é uma construção ideológica que visa suprimir, teoricamente, o debate sobre a luta de classes. Cria-se uma “esfera intermediária”, a classe média, e, assim, a alienação do trabalho da classe operária deixa de ser assunto pautado. O ponto de Chauí, porém, é: a classe média é a classe trabalhadora. Afinal, fosse a classe média formada de capitalistas (que tivessem o domínio dos meios de produção), seriam ricos – não apenas na renda, mas também no poder de orientar os processos produtivos e de alocação de riqueza social.

A dita classe média é apenas a classe trabalhadora iludida com suas varandas gourmet e seus investimentos em letras de câmbio. Longe de terem o poder político advindo de participações significativas no capital financeiro ou industrial, são apenas operários com maior renda. A tese da classe operária é que esta é marcada pela alienação, não necessariamente pela pobreza. Afinal, a filósofa não odeia ninguém (nem a si mesma, que, pela renda, seria uma pessoa classificada como “de classe média”), mas apenas odeia esse conceito mal construído de “classe média”.

Já para as igrejas, o problema do trabalho se coloca, sobretudo, como um problema da alienação de Deus, ou seja, como um problema do pecado. A Reforma está intimamente ligada a uma revalorização social do trabalho e de seus frutos (a renda) que foram desassociados de qualquer resquício da ideia de que o trabalho ou a riqueza que dele deriva são pecados (a tese de Max Weber), mas hoje, talvez, caiba perguntar qual será o papel da Reforma em um mundo dominado pelo trabalho e pela renda. Talvez caiba voltar ao labor para perguntar qual parcela do nosso trabalho é fruto do pecado. Qual trabalho é pecaminoso? Quando trabalhar se torna uma alienação de Deus? É claro, isso envolve desenvolvermos e aprofundarmos a teologia do descanso, do contentamento, do dinheiro (ponto 8, acima), e vários outros tópicos que a Reforma deve enfrentar sem medo.

10. Ser reformado e comunista é um ato de fé. A fé é a mais pura essência da ação racional. Passo necessário após práticas revolucionárias fracassadas que permanecem vivas. Passo prévio às novas transformações que podem ser geradas a partir de uma fé ideal.




[1] Apenas para facilitar o acesso, as referências são tiradas do Wikisource. Pequenas alterações nas traduções para o português foram feitas, a partir da releitura dos originais, também disponíveis no Wikisource.


Pedro da Conceição colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


Este texto, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br.

Um comentário:

  1. O artigo ficou muito confuso, pois além de tentar passar um ar de neutralidade( que claramente não tem), tenta igualar a reforma protestante com a revolução comunista, dois movimentos históricos completamente antagônicos e para suprir esse hiato o autor tenta de forma superficial igualar pontos de verdade em ambos os movimentos históricos para justificar uma igualdade de sentido ou até de propósito, para assim convencer os leitores de que ambos podem andar juntos, nada mais do que uma ação sem lógica e incoerente, tentar unir duas religiões o cristianismo e o comunismo, alias ação essa como o próprio autor diz comum entre comunistas(não se importar com a lógica).

    O artigo no mínimo não honrou com a ideologia/religião comunista/esquerda e nem muito menos com a reforma protestante.

    O tempora o mores!

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