Por um ceticismo cristão

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Um epigrama atribuído a Gilbert K. Chesterton (mas sem fontes que confirmem a autoria) diz: “Quando uma pessoa deixa de acreditar em Deus, ela não passa a acreditar em nada. Ela passa a acreditar em qualquer coisa”. Eu diria que eu desenvolvi um problema inverso a esse, que eu carinhosamente batizei, talvez sem nenhuma originalidade, de “ceticismo cristão”: eu creio em Deus e em mais nada. Em um sentido, esse ceticismo vem simplesmente do fato de o cristianismo esgotar minha pouca fé. Em outro, contudo, me parece que o Evangelho está cercado de “evangelhos” concorrentes que querem desacreditá-lo e que são desacreditados por ele.

Vivemos em um mundo dito secular, mas cheio de deuses, evangelhos e messias. Há os que acreditam na sacralidade da propriedade; há os que acreditam na sacralidade da tradição; na santidade intrínseca dos oprimidos (espécie de atualização laica e brega do sofrimento cristão); há quem veja o Diabo encarnado no Estado, na burguesia, no estrangeiro, no opressor; há quem espere o apocalipse ecológico, nuclear ou social; há quem acredite nas sagradas e metafísicas  leis econômicas, sociais, científicas, dialéticas ou biológicas; há quem espere a redenção na revolução, na emancipação, na singularidade tecnológica. Enfim, todo tipo de “dogma” moderno.  Mesmo a crença no fim das grandes narrativas não é mais do que uma grande narrativa, talvez a grande narrativa do nosso tempo.

O cristão, creio eu, deve manter certo ceticismo diante desse cardápio variado de grandes narrativas. Cada grande narrativa, cada cosmovisão[1] – visão abrangente e básica do mundo - não é muito mais do que um tipo de evangelho concorrente, que traz a sua própria versão do tema criação – queda – redenção – consumação.  Em certo sentido, cada uma delas é uma religião concorrente do cristianismo.

João Vinícius de Abreu mostrou bem como essa estrutura narrativa criação – queda – redenção – consumação se apresenta na questão da tecnologia em texto para esse site.  Essa estrutura, contudo, parece subjazer a todo tipo de “evangelho”, de grande narrativa. Isso parece ficar mais explícito nas narrativas político-econômicas[2]: éramos livres; o Estado/o “Império”/a burguesia/os homens/os brancos/os héteros nos subjugaram; é preciso se livrar do jugo deles; então, o paraíso será instaurado na Terra. Com um pouco mais de esforço, contudo, podemos ver essa estrutura em todo tipo de discurso abrangente dito secular.

Mesmo o discurso do “fim dos grandes discursos” parece falhar nisso quando analisada: estávamos na realidade; criaram-se grandes narrativas para explicar e justificar a realidade, mas que, na verdade, a mascararam; é preciso romper com essas grandes narrativas; então, livres desses esquemas, veremos o mundo como ele é. A “desconstrução” das construções sociais não é a grande redenção dos pós-modernos?

O mais surpreendente é ver como essas narrativas seculares como que cometem atos falhos, deixando-se mostrar aqui e ali, mais que conteúdo religioso, como formas religiosas, traindo sua pretensa “secularidade”: do “Culto da Razão” dos revolucionários franceses ao “paraíso na Terra” de Lênin, passando pela “Deusa” das feministas, os ritos dos maçons,  o discipulado das pós-graduações, as canções de amor altamente devotas e sacrificiais, o “sacerdócio” dos educadores e dos magistrados, os decálogos e as bíblias disso ou daquilo, a Mãe Natureza, a Mão Invisível, o übermensch acima do Bem e do Mal nietzschiano, a soberania (esse atributo essencialmente divino) do Estado e a supremacia da Constituição escrita e os “ídolos” pop, nossa cultura secular é recheada de formas religiosas. Antes de sermos homo sapiens, homo economicus ou zoo politicon, somos homo religiosus, somos seres religiosos.

Por serem religiões falsas, essas cosmovisões obviamente falharão em suas pretensões. Crer na redenção por qualquer coisa que não a Obra da Cruz de Cristo é bobagem. Sequer é necessário ser cristão para perceber que depositar fé nos empreendimentos humanos é estúpido. De fato, não é preciso ser cristão para ser cético em relação às falsas religiões. Aqui, penso em John Gray, filósofo britânico crítico do otimismo e do racionalismo ocidental certo de um progressismo iluminista irreversível. De fato, ele mostra como essas crenças, desprovidas de apoio em evidências e fatos históricos, não são mais do que atos de fé.

Não se trata de negar as bênçãos da Graça Comum, suficientemente óbvias para serem negadas. Os benefícios da ciência e da educação, da filosofia e da política são inegáveis. Confiar – colocar sua fé – nessas coisas, contudo, é estupidez. ”Examinem tudo, fiquem com o que é bom e evitem todo tipo de mal” (1 Tessalonicenses 5:21-22). Crer que a ciência vai nos levar à imortalidade porque ela, de fato, conseguiu nos trazer qualidade de vida, ou que a educação vai ilustrar sumamente as pessoas porque ela, de fato, elevou o conhecimento geral, ou que a filosofia vai responder todas as perguntas fundamentais porque ela, de fato, respondeu algumas, ou que a política vai solucionar a questão social porque ela, de fato, melhorou algumas questões sociais, não é menos que estúpido.  O cristão deve manter distanciamento crítico dessas ideias para não passar por estúpido, pois, em linguagem bíblica, todos que confiarem nelas “ficarão confundidos”. Toda fé não depositada em Cristo é utópica, pois vai levar a lugar nenhum. Como os cem anos da Revolução Russa nos lembram, a pregação do paraíso terreno entrega o inferno material, e seus pregadores não são mais do que filhos do diabo, pois, como seu pai, mentem.

Contudo, há um motivo ainda mais básico para manter certo ceticismo quanto às novidades que os “atenienses” gostam de passar o dia discutindo (Atos 17). Sendo religiões falsas, cada um desses falsos evangelhos, cada uma dessas cosmovisões são religiões, isto é, ocupam espaço fundamental (de fundamento) no nosso coração e exigem nossa fé como crença básica, como pressuposto, como axioma das nossas vidas. Elas querem ser nossos senhores – e não se pode servir a dois senhores (Mateus 6:24 – não à toa, diretamente falando de dinheiro, esse deus). Se essas aspirações não são vistas criticamente, ceticamente, à luz da cosmovisão crista, levando o pensamento cativo à obediência de Cristo (2 Coríntios 4-5 – e sim, se trata de uma batalha de cosmovisões), elas quererão nos dominar – do latim “dominus”, senhor, elas quererão se assenhorear de nós . Não à toa, falamos em partidário fanático, em fundamentalismo de tal teoria política, de ortodoxia ou heterodoxia econômica, em militância radical e cega. Reconhecemos não só o conteúdo religioso, mas também as formas religiosas nessas coisas.

Esses evangelhos se assenhoreando de nós – isto é, nos escravizando, das duas, uma. Ou essa cosmovisão submete nossa fé ao seu crivo, tornando-se o critério supremo da nossa vida, ou compartimentamos nosso coração, deixando que o Evangelho julgue as questões propriamente religiosas e os outros evangelhos julguem as outras questões. O nome do primeiro caso é apostasia; o do segundo, politeísmo. Pode-se, também, fazer uma acomodação, uma síntese entre o Evangelho e outro evangelho, alterando pressupostos para compatibilizar as teses dos dois conjuntos de ideias. 

O nome disso é heresia.

Sendo assim, o que eu chamo de ceticismo cristão é, em seu aspecto negativo, a negação da confiança em qualquer outro evangelho, em outra religião, em outra cosmovisão é a negação de crer em outra fé; em seu aspecto positivo, contudo (e esse aspecto falta ao ceticismo secular e que faz com que o cristão tenha uma dúvida que o cético não tem, a dúvida de si mesmo), é uma obediência contundente do primeiro mandamento: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 20:3). É cantar com o salmista: “Só tu és Deus” (Salmo 86-10). É dizer como Jesus, quando tentado: “Vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás.” (Lucas 4:8). O ceticismo cristão é a outra face da fé cristã.



[1] Uma boa introdução ao tema da cosmovisão é o curso que o Pr. Heber Campos Jr. deu na Escola Charles Spurgeon sobre o assunto, disponível em https://soundcloud.com/escola-charles-spurgeon/sets/cosmovisao e também no Youtube, no canal da escola.
[2] Escrevi uma resenha do livro de D. Koyzis, “Visões e Ilusões Políticas”, que trata de como as ideologias políticas acabam sendo idolatrias, para o Jornal Arcadas, de alunos da Faculdade de Direiro do Largo de São Francisco: https://issuu.com/jornalarcadas/docs/finalizado__leve_/16.

Luiz Périco colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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