Ser de Minas em São Paulo


wallpapers (imagens de compartilhamento livre - pinterest/tumblr).


Seja constante o amor fraternal.
Não se esqueçam da hospitalidade; 
foi praticando-a que, sem o saber alguns acolheram anjos.
(Hebreus 13:1-2)



Para começar, quero dizer que o que está sendo dito aqui não pode ser generalizado – apesar de eu tê-lo feito.


Sou da terra do pão de queijo. Terra de gente acolhedora a ponto de deixar os outros desconcertados com tanta simpatia. Onde há sempre um café quentinho e mesa farta de fala cantada e recheada de “uais e trens”. Um amigo paulista uma vez me disse que se sentia constrangido em Minas porque era pedir uma informação que te levavam onde você precisava ir; entrar para compartilhar as boas novas e ter um café passando e um pão de queijo no forno. 


Sou mineira que se mudou há um mês e meio para São Paulo. E há um mês e meio que eu tenho a sensação que os ensinamentos sobre hospitalidade foram pouco difundidos por aqui. E é por isso que eu escrevo este texto. Receosa e me sentindo uma “menina mimada e criada em apartamento com vó”, mas certa de que não podemos neglicenciar os ensinamentos do Cristo sobre acolher o estrangeiro – pois estaremos negligenciando o próprio Cristo (Mateus 25:35-40).



No dia 20 de março desembarquei na rodoviária de São Paulo cheia de malas e cantando o tema de “Senhora do destino” mentalmente. “Todos os dias é um vai e vem, a vida se repete na estação...”. As malas, maiores que o meu um metro e meio, pareciam não abalar muito as pessoas que passavam por mim. E eu tentava fazer cara de que estava tudo bem e que rapidinho chegaria em casa. E depois de pagar carregador, achar a área de desembarque e pedir um Uber, eu realmente cheguei.


Os dias foram passando e eu fui conhecendo um povo frio e distante. Os pedidos de informação na rua eram sempre acompanhados de uma resposta seca, direta e nunca olhando para os meus olhos. O olhar estava no relógio, no celular, ou no local onde deveriam estar em cinco minutos. O meu “bom dia, tudo bem?” antes de pedir uma informação geralmente vinha acompanhado de uma expressão de “ham, o que você quer? Podia ter pedido de uma vez e economizado meu tempo”. As respostas diretas e sem buscar muita aproximação. Percebi que a cidade é tão cinza que aos poucos o meu guarda-roupa foi ficando também. As roupas coloridas deram lugar ao mais prático de se vestir – preto, branco, cinza, camiseta e calça jeans. E assim fomos vivendo.

No meu primeiro domingo na cidade resolvi ir à Igreja. Optei, estrategicamente, por ir de manhã. A Igreja estaria mais vazia, geralmente sem muitos visitantes e eu seria facilmente reconhecida como alguém de fora. Queria ser notada e acolhida. Cheguei faltando quinze minutos para o início do culto e ninguém foi até mim para me cumprimentar. Os grupos eram facilmente identificáveis e do jeito que estavam, continuaram. O culto seguiu e eu permaneci sendo invisível. Saí decepcionada. O meu pensamento o tempo todo era: “mas o Senhor nos ensina a acolher o estrangeiro; hospitalidade é uma temática que perpassa toda a Bíblia; a Igreja é chamada para fora, mas também convidada a cuidar dos que estão dentro”.   

E é por isso que estou aqui. A Bíblia é um livro que narra a prática de acolher do início ao fim. O texto de Gênesis 18, uma narrativa linda de acolhida de Abraão, diz que ele viu e olhou três homens que estavam à sua frente. Inicialmente podemos pensar que o texto está sendo redundante porque, se ele viu, obviamente ele olhou. Mas há uma diferença. A diferença entre ver e olhar. Olhar é se atentar, reconhecer, se incomodar, se dispor. O texto continua dizendo que após olhá-los, Abraão os serviu. Foi olhar de Abraão que o possibilitou identificar as necessidades daqueles homens e refletir sobre como poderia ser útil. Ele se importou.

Jesus também foi acolhido diversas vezes no Novo Testamento. Zaqueu, o publicano, teve o privilégio de acolhê-lo em sua casa e o fez com alegria (Lc 19:5-6). Além de ter sido acolhido, deixou inúmeros ensinamentos sobre hospitalidade. Sejam mutuamente hospitaleiros; pratiquem a hospitalidade; dediquem-se uns aos outros com amor fraternal são algumas de suas orientações. Orientações que, por vezes, temos negligenciado.  

Mas além de reclamar, quero também dizer que Cristo é criativo na forma de nos cuidar. Em dias de extrema angústia e saudade fui abraçada por crianças (trabalho em um Projeto em que visito diversas escolas de São Paulo) que diziam o quanto era legal o trabalho que eu fazia, o quanto eu era bonita e como eu falava de um jeito divertido. Em alguns lugares eu retornava às minhas origens ao repetir algumas palavras, algumas vezes, só para que elas morressem de rir. E assim, a risada, o abraço e a gratidão se transformavam no próprio abraço do Senhor dizendo: “não temas, a cidade é cinza, mas juntos podemos colori-la”. Ele faz ainda quando falhamos.    

Escrevo este relato dramático no Cristo Urbano por ter passado a entender que o Senhor está na cidade através de nós. E que temos que aproveitar a oportunidade de sermos Ele para os outros. Uma cidade cinza não pode apagar a vida de Cristo em nós – e se temos a vida dEle em nós devemos nos esforçar para acolher o próximo da mesma forma que fomos acolhidos em nossas falhas e pecados.

Que o Senhor nos ajude.

Bianca Ceres colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


Este texto, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br.

3 comentários:

  1. Muito bom!
    Independente de nossas origens o viver o Cristo deve ser a diferença em nós.

    ResponderExcluir