Teologia do Imigrante: parte 1

(Foto: Reuters/Kevin Lamarque)



Eu comecei a escrever este texto em novembro de 2016 – acabava de completar dois anos do discurso mais inspirado e provavelmente o mais bíblico que Barack Obama fez em seus oito anos na liderança da maior democracia do mundo. Eu queria escrever sobre imigração e me parecia oportuno fazê-lo para lembrar o discurso de Obama, quando as expectativas sobre o que seria o governo de Donald Trump ainda não passavam de apostas. No Brasil, a Lei da Imigração, do senador e hoje ministro de Relações Exteriores, Aloysio Nunes (PSDB-SP), não havia passado no Congresso, nem tinha tido artigos vetados pelo presidente. 

A demora tinha um motivo muito prático: a falta de tempo para escrever. Mas não tem trabalho e faculdade que expliquem um atraso de mais de seis meses. Minha relutância em escrever sobre esse tema também tinha um pouco da dificuldade em abordar minha própria história: algo que eu devo fazer mais detalhadamente algum dia, mas que resisti a fazer até hoje. Nasci em Governador Valadares, aquela cidade de Minas que você provavelmente associa com a imigração ilegal nos Estados Unidos. 

A associação não é injusta. Não me lembro de família valadarense que não tenha sido atingida pela emigração. Quando tinha meus nove, dez anos, no colégio particular em que estudava com bolsa, eu e meus colegas falávamos não só sobre ser jogador de futebol ou médico quando crescer, mas em ir ou não morar na América. Quando tinha 18 anos, em 2007, no ano em que saí de casa pra estudar em São Paulo, essa realidade bateu mais forte lá em casa. Depois da tia-avó, dos primos, dos parentes das tias emprestadas, das famílias dos colegas de escola, das famílias da igreja, era a vez do meu pai ir tentar a sorte em Canérica, como ele falava com o sotaque de quem nunca pôde aprender inglês. E mesmo assim foi morar lá dois anos, trabalhando de jardineiro, pedreiro, o que fosse, e enfrentando o frio congelante do nordeste americano – que impedia as pessoas de saírem de casa e que significava, para imigrantes que recebem por semana de trabalho, ficar sem salário – e, para completar o cenário dramático, a pior crise no mercado imobiliário, que se tornaria a maior crise econômica no país desde 1929.

Essa história pregressa me fez adiar o texto e evitar escrever qualquer coisa sobre imigração. Em seis meses, as mudanças na política de imigração americana são notáveis. Obama fez um grande discurso em 20 de novembro de 2014, mas cometeu um grande erro ao passar as principais mudanças na política de imigração americana por meio de decretos presidenciais. Também foi por decreto que Donald Trump proibiu a entrada de refugiados, suspendeu a concessão de vistos a cidadãos de diversos países árabes e determinou a construção de um muro na fronteira com o México. As alterações que fez na política de imigração fizeram com que as prisões de estrangeiros sem qualquer registro criminal no EUA saltassem em 150%

Em dois anos e meio, a realidade parece mais distante que nunca daquele discurso que dizia: 

"As Escrituras nos dizem que nós não devemos oprimir o estrangeiro, porque nós conhecemos o coração do estrangeiro. Nós também fomos estrangeiros um dia.
Meus compatriotas americanos, nós somos e sempre seremos uma nação de imigrantes. Nós também fomos estrangeiros, um dia. E se nossos antepassados foram estrangeiros que cruzaram o Atlântico ou o Pacífico ou o Rio Grande, nós estamos aqui porque o país os recebeu bem e os ensinou que ser americano é algo mais do que como nós nos parecemos, ou quais são nossos sobrenomes, ou como nós adoramos. O que nos faz americanos é nosso compromisso compartilhado com um ideal, de que todos nós fomos criados iguais, e todos nós temos a chance de fazer o que queremos de nossas vidas. Esse é o país que nossos pais e avôs e as gerações antes deles construíram para nós. Essa é a tradição que devemos manter. Esse é o legado que devemos deixar para aqueles que ainda virão.
Obrigado. Deus os abençoe. E Deus abençoe este país que nós amamos."

De fato, a história do povo americano é uma história de imigrantes. Não é à toa que a mitologia e a simbologia dos ianques aponta para uma América que reúne em si todas as promessas de liberdade e justiça para os que amam a Deus, de um povo escolhido. Eles têm até sua própria Festa da Colheita no feriado de Ação de Graças, também comemorado naquela semana de novembro em que comecei a escrever este texto. De fato, o povo de Deus nasce, com Abrão, de uma ordem para migrar: "Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei... Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê uma bênção" (Gn. 12:1-2). Note-se, aqui, que não se trata de uma migração provocada por guerra ou perseguição político-religiosa, mas por motivos aparentemente muito mais terrenos, como glória e prosperidade, ser um grande povo.



É com uma promessa de prosperidade que boa parte dos 38,4 milhões de imigrantes chega nos EUA. Desse total, estima-se que 11 milhões são ilegais. Em geral, eles não compartilham muito além do ideal de que todos são criados iguais, perante Deus – ainda que não rezem para o mesmo Deus. Obama, acertadamente, colocou todos eles, em seu discurso e em sua política para imigrantes, no mesmo barco: os que cruzaram o Atlântico no Mayflower, os que cruzaram o Pacífico e os que cruzaram o Rio Grande.



Alguns tentariam diferenciar os dois casos – defenderão que migrar é direito quando o imigrante é desejado, legal. Outros diriam que uma grande violação na terra de origem seria uma justificativa razoável para migração. A realidade e as políticas de Trump desmentirão esse cinismo. A qual violação, por exemplo, Melania estava submetida para que a ela fosse dado o direito de se tornar americana? Ou que legalidade vai realmente tornar moral um ato desesperado de deixar a vida para trás para tentar buscar o mundo a sua frente? A do país de origem ou a do país de chegada? Qual é a legalidade, por exemplo, das missões em países onde o cristianismo é proibido e a conversão ao cristianismo é punida com a morte?



Para cristãos, não há medida de moralidade na razoável na mera legalidade de governos de homens corruptíveis – e convenhamos que esse cinismo cai por terra quando eles se opõem a políticas públicas governamentais de um governo por julgá-las ruins; na verdade, é a legalidade que se molda à sua moralidade. Dito isso, resta saber qual é a medida de moralidade do texto bíblico.

Assim como a migração é negligenciada como fato social, e seus benefícios na economia são subestimados, há toda uma teologia da migração que, apesar de ser ponto central da formação do povo hebreu e do próprio cristianismo, é amplamente ignorada nas igrejas cristãs.

O primeiro ponto dessa teologia é o cuidado com o estrangeiro, sobre o que a Torá já não deixa qualquer dúvida: desde Abraão, a ordem para o povo de Deus é de tratar o estrangeiro como alguém do próprio povo. O primeiro sinal da aliança de Abraão com Deus, a circuncisão, é instituída com essa premissa: "e todos os homens de sua casa, nascidos em sua casa ou comprados a preço de dinheiro a estrangeiros, foram circuncidados ao mesmo tempo." (Gn. 17:27)

Essa obrigação de cuidar do imigrante é estabelecida de forma irrefutável na lei, com uma norma fundante do povo hebreu, em Êxodo 22:21: "O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás ; pois estrangeiros fostes na terra do Egito". A importância dada ao estrangeiro é tão relevante para a lei mosaica, que a norma é repetida várias vezes, como em: "Também não oprimirás o estrangeiro; pois vós conheceis o coração do estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito" (Ex. 23:90).

Mais do que uma norma de proteção ao estrangeiro, a lei estabelece um modo de olhar o imigrante,estabelecendo não só as obrigações, mas definindo o próprio filho da terra a partir da presença do imigrante: "Como um natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-ás como a ti mesmo, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o SENHOR vosso Deus" (Lv. 19:34). É justamente a essência de estrangeiro, essa característica marcada na alma dos hebreus, que define até mesmo qual deve ser a relação do povo com a própria terra: "Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós sois estrangeiros e peregrinos comigo" (Lv. 25:23). Só esse primeiro ponto do que chamei aqui de teologia do imigrante já seria suficiente para exigir, de culturas cristianizadas, uma postura completamente diferente daquela instituída pelos governos mais protecionistas. 

Mas é o segundo ponto da teologia do imigrante talvez o mais negligenciado. Essa ordem de respeitar o estrangeiro decorre de outro pressuposto: o de que a migração é vontade de Deus. Mais do que algo que acontece, a migração é, por vezes, valorada positivamente e, em diversas oportunidades, ordenada por Deus.

Essa ordem também nasce no pacto com Abraão e precede, inclusive, o sinal do pacto na circuncisão, que já a tem como premissa. "Então o Senhor lhe disse: "Saiba que os seus descendentes serão estrangeiros numa terra que não lhes pertencerá, onde também serão escravizados e oprimidos por quatrocentos anos" (Gn. 15:13).

Não reside apenas nisso a teologia do imigrante, como pretendo demonstrar no próximo texto. De qualquer forma, apenas esses textos seriam suficientes para afastar as acusações de que qualquer proteção a imigrantes seja alguma vaga formulação de ideais de esquerda ou qualquer progressismo vago e ingênuo propalado por Obama. Se um discurso velho de Obama tem mais Bíblia que nossos púlpitos, talvez devêssemos reparar nele. Sem Bíblia, podemos até nos ater à legalidade. Só Cristo e sua palavra pode fazer um cristão lembrar-se que nosso chamado é para exceder, em muito, a lei e a justiça dos "gentios".

André Eler colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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4 comentários:

  1. Parabéns André.
    Tá aí teu projeto de pesquisa pronto para um dia fazer mestrado na EST. Daria um baita mestrado.
    Tiago

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