Mulheres que podem tudo, menos controlar o tempo biológico

(Xavier Sotomayor/Unsplash)



Antes de ir ao texto preciso fazer duas ressalvas iniciais:

1. Esse texto não é sobre pessoas que não querem ter filhos. Mas, ainda que você seja uma pessoa firme na decisão de não gerar e não adotar, eu aconselho que leia este artigo, já que provavelmente muitas de suas amigas serão mães. Ter ou não filhos é uma escolha pessoal que deve ser respeitada pelos familiares, pela igreja e pelo Estado. 

2. Eu não acho que ter filhos é necessário para ser feliz. Aliás, eu sei que é perfeitamente possível ser feliz sem filhos, assim como dá pra ser miseravelmente infeliz com uma penca de crianças em volta. A felicidade não tem relação direta com o número de herdeiros. Só que ser rica, bem formada, estar em uma excelente colocação profissional também não é garantia de felicidade inabalável. Eu confesso não saber ao certo o que e como nós podermos ser alegres, mas tendo a acreditar que tem pouco a ver com todas essas conquistas e reconhecimentos sociais. Talvez tenha a ver mais com fé, caminhos e trilhas. 

Mas, enfim, o tema é outro. Pontuado e superado isso logo de início, vamos ao que interessa. É um texto de ideias em construção, bem recortado na minha realidade urbana (sei bem que não é verdade em todos os lugares) e nas pessoas que eu conheço. 

Em abril, fui acompanhar meu cunhado na entrega da carteirinha do CRM-SP. Havia uma mulher (entre 4 homens) na mesa e ela fez um discurso interessante. Além de contar sua história de superação como médica mulher, em uma especialidade bastante masculina, ela deu diversos conselhos, mas... hum... digamos, pessoais direcionados a outras mulheres presentes.

Disse para que todas estivessem atualizadas na profissão, para morarem perto do trabalho, contratarem e aceitarem ajuda em casa e assim terem tempo de qualidade para o lazer e a família. Falou sobre usar artifícios facilitadores como lavanderia, comidas congeladas saudáveis e evitarem horas de trânsito. “Comprem uma máquina de lavar louça, leiam um artigo estrangeiro ao invés de ariar panela”.

Contraditoriamente, o ponto alto foi: se vocês querem ter filhos, não demorem. Quando tiverem, não o terceirizem a babás ou avós.

Apesar de ser difícil imaginar que um homem falaria a mesma coisa para outros homens, aquela médica sentiu necessidade de falar diretamente às outras mulheres, iniciantes na mesma profissão que ela exerce há anos.

A questão que ficou em mim é: por que, uma médica, extremamente​ inteligente, sabida de todas as questões de gênero, referência em uma especialidade majoritariamente masculina precisa dar conselhos que apenas parecem contrapostos?

E aqui, não tem NADA de errado querer adotar um filho depois dos 40. Não tem nada de errado querer engravidar depois dos 35. 

Mas ficou na minha cabeça a frase daquela médica: "não adiem demais uma coisa que a natureza cobra que seja feita antes". 

Nossos planos de vida, às vezes, tem cara de fluxograma. Primeiro a gente se forma, aí, arranja o emprego dos sonhos. Conhece o cara perfeito. Namora, noiva e casa numa festa linda e vestido maravilhoso. Aí, muito bem sucedida, rica e com a família perfeita, vem a criança mais boazinha do mundo, que dorme a noite toda desde do primeiro dia, em cesárea agendada ou num parto humanizado sem dor. 

Mas a vida bate na porta. A realidade não é assim. 

Aquela médica falava para outras mulheres médicas jovens privilegiadas. Jovens mas nem tanto. São mulheres que, com sorte, depois dos 17 ou 18 anos ainda fizeram um ou dois anos de cursinho, mais seis anos de faculdade e teriam ainda de 3 a 6 anos de residência a depender da especialidade (no mínimo). Se alguma coisa acontecer nesse meio tempo, não é difícil imaginar que quando finalmente as coisas acalmarem, elas estejam beirando os 35, antes de cogitarem planejar uma gravidez. Isso se não mudarem de ideia e tentarem uma segunda residência ou se fizerem um intercâmbio e demorarem mais para terminar a faculdade, isso se medicina tiver sido mesmo a primeira graduação delas.

A nossa natureza nos lembra que a idade fértil passa. Que há tempo para todas as coisas. Mas, não somos nós os "senhores do tempo". E que é IMPOSSÍVEL controlar isso. 

Eu pensei em mim, confesso. Eu tinha 23 anos quando descobri minha gravidez. Já era casada, já era formada e inclusive estava terminando o mestrado e tinha passado em um concurso público razoável. Mas, minha reação e meus medos iniciais eram típicos de uma gravidez na adolescência. Nos primeiros dias, passava na minha cabeça coisas entre "minha vida acabou", "nunca mais vou viajar", "não vou conseguir emprego" e "já era". Eu me senti irresponsável pelo meu método anticoncepcional ter falhado e eu ter superovulado. Por algum tempo, senti vergonha até de contar para o meu orientador do mestrado esse "inconveniente" no meio da pesquisa.

Hoje minhas filhas já têm quase dois anos, eu já viajei sem elas pra namorar e para trabalhar, mas confesso que gosto muito mais de sair por aí com elas a tiracolo. Não que a vida de mãe seja fácil, eu ainda tropeço muito em ser muitas coisas em uma só. 

Em alguns nichos, em alguns casos, nossa geração está pecando pelo excesso de controle e zelo. Algumas coisas fogem do nosso controle e isso pode ser ótimo. 

Estamos tão ansiosos o tempo todo, mas não temos coragem de começar nada. São anos na faculdade até finalmente trabalharmos. Anos no seminário até o ministério. Anos de preparação até que a gente descubra que não tem coragem de chegar no objetivo final de assumir responsabilidades. Anos no namoro ou até em corte para falhar em pouco tempo de casamento. Temos medo de sair um pouco que seja das expectativas alheias, do perfeccionismo que imaginamos nossa vida. Esquecemos que Deus não trata assim.

O objetivo do texto não é incentivar uma maternidade adiantada no meio da residência (risos). Quero apenas lembrar que os objetivos profissionais não são os únicos que importam. A vida não pode ser resumida em uma tabela do Excel. E está tudo bem se as coisas saírem dos eixos. Realmente, precisamos lembrar que a natureza exige. E eu não estou falando só de fertilidade. A saúde dos 40 e poucos não é a mesma da dos 20. Seu fígado uma hora não vai aguentar tanto álcool e fritura. Nossas rotinas não saudáveis causam fadiga e pouco retorno no que importa: risos sinceros, amigos próximos e amores maduros.

A idade vem.

Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento; Antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva; Eclesiastes 12:1-2

Marina Jacob colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


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Um comentário:

  1. Acho que o que deveria ser levado em conta na hora de ter um filho não é necessariamente a vida profissional, mas a maturidade de ambos os pais para 'abraçarem' essa criança. Estou no meio do mestrado, tenho 28 anos e eu meu marido nem sonhamos em ter filhos ainda. Dou a desculpa do mestrado quando me cobram porque é MUITO mais simples do que justificar para as pessoas: olha eu não tô afim de ser mãe agora, não sei se um dia estarei afim na real... Sei que as pessoas torcem o nariz para a realidade, mas quem adia a maternidade só tem um motivo: não tá afim.

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