As bactérias conversam e elas falam sobre evolução e sobre Deus

(Células interagindo/Google)


Há algumas semanas eu participei como ouvinte de um evento que teve como tema principal a relação de Darwin com o cristianismo. 
Um excessivo apelo a pontos históricos da biografia de Darwin, onde tentou-se demonstrar seu contato com as tradições cristãs e uma intervenção pastoral onde se apontou os "erros" na teoria evolutiva para justificar ou evidenciar uma maior relevância da “teogonia do cristianismo” só demonstraram o quanto o evento como um todo foi mais um desserviço a qualquer dos lados.

Descrever a evolução apenas em seus termos técnicos soou como um certo desprezo às muitas pessoas que ali estiveram e que muito claramente desconheciam o evolucionismo como fato. É muito provável que se tenha aumentado um descrédito, ainda que frágil, sobre a teoria da evolução daqueles que já são arrebanhados pelos conceitos simplistas do criacionismo.

Essa introdução não é desmedida. É preciso tocar no assunto evolução sempre que necessário, porque a abordagem de forma geral no meio protestante brasileiro costuma ser superficial (ou, nesse caso, aponto que foi muito técnica, por um lado e, por outro, um abuso de proselitismo). Ainda nesse sentido, uma das interpretações erradas que se faz da evolução é que ela originaria seres "melhores" ou com mais poderes do que os demais indivíduos não-evoluídos de uma certa espécie. Algo como uma história de X-Men do mundo real, onde seres humanos desenvolveriam capacidade de voo, telecinese, telepatia ou qualquer outro superpoder que os filmes hollywoodianos são suficientemente bons em nos entreter com suas capacidades de efeitos especiais.
Se esse for o seu jeito de encarar a evolução as espécies, caro leitor, sinto que os mecanismos de seleção natural podem te decepcionar num primeiro momento.

Eu vou dar dois exemplos corriqueiros sobre indivíduos com vantagens numa condição ambiental que não necessariamente signifique que sejam condições desejáveis.
Imagine um grupo de pessoas com alguma condição pré-existente como uma mutação nas células de defesa (os linfócitos), especificamente a mutação no receptor celular CCR5. Isso não causa um problemapara essas pessoas (chamamos algo assim de “mutação silenciosa”, pois não causa uma limitação ou doença em quem as possui), mas essas mesmas pessoas, se têm contato com o vírus HIV (causador da AIDS), que numa célula normal conseguiria invadir e prejudicar todo o sistema de defesa, nessas pessoas a AIDS não é desenvolvida. Chamamos essa condição de resistência ao HIV. Por acaso, essa pode ser uma mutação e evolução desejável para muitas pessoas, das causas mais nobres (como a da erradicação desta doença), como nos motivos mais egoístas.
Por outro lado, um outro exemplo, a anemia falciforme, que está presente numa parte da população do continente africano e prejudica a prática de praticamente qualquer atividade física, pois se trata um tipo de mutação nas células vermelhas (hemácias), diminuindo a capacidade de circulação de oxigênio no organismo dessas pessoas. Mas naturalmente, essa condição também protege esses indivíduos contra o contágio por Malária, justamente uma doença, na qual o seu agente causador precisa entrar nas células vermelhas, mas só consegue nas células sadias.

Os dois exemplos citados demonstram que mutações podem não trazer malefícios (mas também não trazer benefícios imediatos, como no caso no caso da resistência ao HIV) ou que mesmo trazendo malefícios indesejáveis (diminuição da capacidade de praticar atividades físicas por quem tem anemia falciforme) podem proteger esses mesmos indivíduos de condições ainda piores (infecção por malária).

Feita essa primeira defesa sobre entender a evolução como fato, não como a cosmovisão, eu sigo para o outro motivo que norteiam esse texto.

A palavra “micróbio” pode gerar uma certa aversão ou nojo num bom número de pessoas, mas à medida que se conhece mais sobre bactérias e outros microrganismos (fungos, por exemplo) percebemos o quanto o universo desses seres é fascinante e o quanto ele está intimamente ligado ao nosso. 

Até certo tempo atrás se poderia pensar que bactérias seriam apenas seres unicelulares se dividindo infinitamente e sem um critério aparente, produzindo substâncias tóxicas com a finalidade apenas de facilitar o trabalho de matar e devorar aqueles que as hospedassem.

Mas simplesmente não é o caso... Bactérias, apesar de "unicelulares" evoluíram de uma tal forma para organizar entre si o melhor momento de produzir certos "armamentos" contra eventuais inimigos ou mesmo contra defesas dos seus hospedeiros.

E elas fazem isso se comunicando. Tudo bem que o termo conversar é uma mera metáfora, mas a analogia é bem adequada.
Bactérias de uma mesma espécie falam uma mesma "língua", ou, melhor dizendo, utilizam uma mesma substância para tomar uma ação em conjunto. Bactérias de uma mesma espécie falam um idioma comum, mas também podem falar uma segunda língua. Aliás, bactérias podem entender uma "língua", mas sem conseguir falar essa "língua". Ou seja, sentem a comunicação que está acontecendo entre outras espécies, podendo responder a essa comunicação estranha se necessário.

Nessa ação conjunta percebemos que as bactérias evoluíram para sobreviver em ambientes muito competitivos e apesar de não pensarem e não entenderem o que está acontecendo, elas agem como pequenas máquinas sob membranas fluidas que respondem ao ambiente de acordo com sua biblioteca de arsenais (ou melhor, respondem de acordo com a capacidade do seu genoma).

Bactérias “não querem” destruir os seres que as hospedam porque destruiriam justamente a sua fonte de energia. E por isso muitas, milhões delas na verdade, vivem sobre a nossa pele, agindo como a nossa primeira linha de defesa contra outros microrganismos que, esses sim, com capacidade de causar doenças e outros tantos microrganismos vivem no nosso intestino podendo inclusive, segundo pesquisas recentes, produzir substâncias (em função da nossa dieta) que influenciem no nosso humor. Já pensou estar chateado porque aquele almoço que você comeu não foi muito aprovado pela sua flora intestinal (que é o nome que se dá aos muitos microrganismos que habitam seu trato gastrointestinal)?

As bactérias conversam sobre evolução porque esses processos de comunicação foram desenvolvidos e aperfeiçoados ao longo do tempo (de muito tempo) por alguns dos mecanismos que regem a evolução como seleção natural, mutação, transferência lateral de genes, deriva genética e erosão genética.

Também falam sobre Deus porque a complexidade do mundo aponta para algo. Apesar da aparente desordem e do que já foi mencionado (sobre a evolução não produzir necessariamente seres melhores dos que já existem ou existiram) a sincronia da criação e sua desenvoltura (o modo como as coisas e situações coincidem e se ajeitam) traduzem a existência e o domínio de um criador sobre todas as coisas, além de apresentarem a sua glória através da sua imensa e maravilhosa criação.

Todos os dias são feitos planos e intenções são postas à prova nos mais diferentes círculos e sob as mais diferentes circunstâncias deste mundo, mas o impensável, o não esperado, na nossa perspectiva está sempre ali esperando para acontecer, para nos surpreender.

É assim com o nascido do Espírito ou do “vento”, como diz a bíblia. O vento sopra, você escuta o seu som, mas não sabe de onde vem ou para onde vai, você aceita e fica maravilhado por sua capacidade (Jo 3:8). 
_____________________________
- ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3185609/pdf/viruses-02-00574.pdf
- g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2011/11/grupo-descobre-como-anemia-falciforme-protege-contra-malaria.html
- youtube.com/watch?v=KXWurAmtf78
ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4822287/pdf/13073_2016_Article_292.pdf



 Oséias Feitosa-Junior mantém e escreve para o blog Cristo Urbano.


Este texto, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br.

Um comentário:

  1. Excelente!!! Muito gostoso de ler e uma interpretação legal de procesos naturais observados normalmente vistos como isso: procesos que mantem vivo um ser.

    ResponderExcluir