Por uma teologia da beleza

(Emma Watson: The circle/imagem de divulgação).


1.
Fui assistir a "O Círculo" no cinema. Não é um ótimo filme, mas é bom. A trama do filme se passa em torno de Mae, personagem interpretada por Emma Watson, uma garota que vai trabalhar na empresa que dá nome ao filme, uma gigante da internet. Com o desenrolar do filme, mostra-se como a tecnologia pode acabar com a privacidade, concentrar informação e poder e alienar as pessoas, dentre outros problemas. Entre uma discussão e outra levantada pelo filme, contudo, uma coisa me chamava ainda mais a atenção: meu Deus do céu, como a Emma Watson é linda!

Bebês recém-nascidos, mesmo com visão ainda precária, já distinguem um rosto belo de um rosto feio e preferem aqueles a esses, olhando mais tempo pros mais bonitos. Também preferem rostos femininos a masculinos. Essas crianças são pequenas o suficiente para não serem acusadas de reforçarem preconceitos e padrões sociais. Nascemos buscando o belo.
Além disso, a despeito das diferenças dos padrões sociais, há uma universalidade na preferência de rostos e corpos harmônicos e simétricos, repetindo padrões como o número de ouro e a sequência de Fibonacci - que, aliás, estão por toda parte. Não importa sua cultura, a falta de um olho, de um braço ou de uma perna, uma corcunda, tudo que quebra a harmonia torna a pessoa menos atraente - e, antes que me acusem de capacitismo, este que vos escreve é um cadeirante e não é nenhum Rodrigo Hilbert.

Não é que não haja fatores sociais interferindo, mas os fatores universais (em geral, puramente geométricos) estão suficientemente por aí para que possamos negar a naturalidade da beleza.
(Parêntese: eu acho engraçado quando se vende anúncios com pessoas "fora dos padrões" e elas são versões um pouquinho maiores ou menores de pessoas lindas e perfeitas. Não enganam nem a si mesmos.)

Nada disso diz nada sobre o caráter de ninguém. Como diz o ditado, "beleza não põe a mesa"; ainda assim, abre o apetite. A beleza traz expectativas consigo. Todo mundo espera coisas boas de pessoas bonitas e põe um pé atrás com pessoas feias, especialmente com desconhecidos, de quem tudo o que sabemos é a aparência. Dizem que a primeira impressão é a que fica, e a primeira impressão é dada pela aparência da pessoa. Todo mundo se decepciona com aquela pessoa linda cujo caráter ou cuja personalidade parece não corresponder ao que se vê. "Como pode? Obviamente tem algo errado". Isso chegou ao ponto de Lombroso, um médico italiano do começo do século XX, desenvolver uma criminologia que é quase uma criminalização do feio, correlacionando personalidades criminosas e traços atávicos. Não é à toa, também, que heróis e mocinhas, em geral, são sempre belos, que vilões, ou reforçam sua maldade com feiura, ou criam ambiguidade com beleza.  É como se a gente acreditasse instintivamente na união metafísica do belo, do bom e do verdadeiro, que, no fim, a beleza salvará o mundo (não vai). Talvez seja mesmo reminiscência de um tempo áureo (mas esse é o caído e desarmônico).

A união perfeita entre o belo, o bom e o verdadeiro só pode ser encontrada em Deus, e isso pode nos dar a dica de porque a beleza ser tão importante para nós. Ela não é apenas um adorno, um detalhe, um bônus; como diz o título do documentário de Roger Scruton, beleza importa. Queremos o belo tanto quanto queremos o justo, o bom, o verdadeiro, o útil, o agradável. Mas porque? Por que há beleza? Por que ela importa?
Talvez um pouco de teologia nos ajude nisso. 

2.
Em Tiago 1:17 está escrito: "Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação." Não temos dificuldade em pensar em nossa saúde, força, sabedoria, amabilidade, integridade moral e todo tipo de virtude como dom de Deus, criados e dados por Ele e para a glória dEle e, em certa medida, reflexos da Sua própria perfeição. Quando se trata de beleza, contudo, a coisa muda totalmente. Talvez porque não consigamos conceber a Deus como belo; talvez por ver a beleza mais como um vício carnal do que como uma virtude; o fato é que não conseguimos relacionar bem Deus e beleza.

Não é essa, contudo, a forma como a beleza é encarada na Bíblia. As Escrituras são pródigas em destacar positivamente a formosura de suas personagens: Sara, Rebeca, Raquel, José, Moisés, Abigail, Tamar, Saul, Davi, Bate-Seba, Ester, as filhas de Jó, Daniel e seus amigos, entre outros que eu certamente não lembrei aqui. A diversidade de enredos e finais bons e/ou ruins, aprovados e/ou reprovados por Deus, deixa claro a restrita atuação da beleza, a não união empírica entre a beleza e a verdade, a justiça ou o bem, e menos ainda a aprovação divina. 

Nem por isso a beleza é destacada de modo menos intenso. O ápice da exaltação bíblica do belo é alcançado no livro de Cantares, com elogios francos e intensos entre o Amado e a Amada, indo de metáforas vívidas e elaboradas (  "Qual o lírio entre os espinhos, tal é meu amor entre as filhas"; " Jardim fechado és tu, minha irmã, esposa minha, manancial fechado, fonte selada") a descrições apaixonadas de partes do corpo (" Eis que és formosa, meu amor, eis que és formosa; os teus olhos são como os das pombas entre as tuas tranças; o teu cabelo é como o rebanho de cabras que pastam no monte de Gileade."). Um dos elogios mais bonitos já escritos é do capítulo 6, versículo 10:  "Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com bandeiras?" Uma beleza que não se pode ignorar, nem resistir.

A linguagem intensa tem dado margem a muito escândalo na história da Igreja, seja pelos que se chocam com sua vivacidade, seja pelos que abusam de sua eroticidade, seja pelos devaneios interpretativos que já gerou. Contudo, é nessa linguagem intensa, viva e bela que o Apóstolo João encontrou a forma ideal - e inspirada -  de expressar a relação entre Cristo e sua Igreja; é a figura do Amado e da Amada que Apocalipse resgata para descrever a união mística escatológica (Apocalipse 19; 21). A Igreja é bela aos olhos de Cristo. Efésios 5: 27 diz: " Para [Cristo] a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível." A Igreja é a Noiva de Cristo, que Ele tomará na Consumação, é linda aos olhos de Deus - mais linda que a Emma Watson!

Esse último versículo ainda dá uma pista importante sobre o que significa beleza, pois essa Igreja sem defeito algum, não é descrita como simplesmente bela, mas "santa e irrepreensível". Há uma relação entre beleza e santidade. A santidade é bela e a beleza, em seu grau máximo, é santa.

Mas não só a Igreja, Deus também é belo, bem como Sua Santidade. Está escrito em Salmo 29: "Dai ao Senhor a glória devida ao seu nome, adorai o Senhor na beleza da sua santidade". Salmo 96 diz: "Glória e majestade estão ante a sua face, força e formosura no seu santuário. (...) Adorai ao Senhor na beleza da santidade: tremei diante dele todos os moradores da terra". Deus é belo; Sua Santidade é bela; o culto a Ele implica a contemplação de Sua Bela Santidade e de Sua Santa Beleza e a resposta adequada a elas. E como não ser afetado por tal beleza?

Como disse Jonathan Edwards:

Holiness is a most beautiful, lovely thing. Men are apt to drink in strange notions of holiness from their childhood, as if it were a melancholy, morose, sour, and unpleasant thing; but there is nothing in it but what is sweet and ravishingly lovely. 'Tis the highest beauty and amiableness, vastly above all other beauties; 'tis a divine beauty, makes the soul heavenly and far purer than anything here on earth—this world is like mire and filth and defilement [compared] to that soul which is sanctified—'tis of a sweet, lovely, delightful, serene, calm, and still nature. 'Tis almost too high a beauty for any creature to be adorned with; it makes the soul a little, amiable, and delightful image of the blessed Jehovah. How may angels stand with pleased, delighted, and charmed eyes, and look and look with smiles of pleasure upon that soul that is holy!

A Santidade de Deus é tão bela que a forma adequada de expressá-la só poderia ser bela. Por isso a Bíblia está cheia de poesia, por isso os Salmos, a maior expressão de devoção, são tão belos. Qualquer outra forma de falar sobre Deus e Seus desígnios. não o expressaria a altura. Deus é belo e deve ser belamente adorado.

3.
Isso traz pelo menos implicações estéticas, morais e espirituais importantes. A primeira é que o sacrifício de Cristo na cruz foi a coisa mais terrível e feia que já aconteceu, pois a expressa imagem da Santidade de Deus (Colossenses 1:15; Hebreus 1:3), a beleza mais bela possível de existir se tornou "sem parecer ou formosura" por nós (Isaías 53:1-3). Cristo se tornou feio por nós para que nos tornássemos belos aos olhos do Pai e de aos Seus próprios olhos. (Aleluia!) A vitória na cruz não foi só uma vitória sobre o pecado, a morte e o diabo: foi também uma morte sobre a feiura. No ato da justificação, fomos declarados santos e, com isso, belos aos olhos de Deus; além disso, o processo de santificação que o Espírito Santo opera em nós é um processo de embelezamento, aperfeiçoando-nos para o Noivo; por fim, a glorificação exterminará todo rastro de morte e pecado do nosso corpo, mas também todo rastro de fealdade. 

Em segundo lugar, é preciso tomar cuidado para que a beleza, seja de outros, seja a nossa própria, não tomem a primazia do nosso coração, tornando-se ídolos. É comum ver isso acontecer, seja em forma de vaidade fútil, seja em forma de paixão fanática. Sendo a beleza humana um breve vislumbre da beleza divina, ela deve nos apontar para a adoração da Beleza verdadeira, não para a idolatria. Cada traço de beleza em cada rosto humano deve ser visto como a assinatura do Seu Criador, não como mérito da própria criatura. Pessoas belas, como tudo o mais, são criadas para a glória de Deus, não para a nossa ou para a delas.
(Mais um parêntese: a beleza aponta para um Criador sábio e de bom senso estético, pois é completamente impossível que o rosto da Emma Watson seja resultado de processos aleatórios sem propósito algum. A beleza não é apenas doxologia,  é também apologética.)

Disso se segue que cristãos devem desenvolver um senso estético cristão, um gosto pela contemplação da beleza que redunde em contemplação da Santidade Divina. Como diz novamente Edwards:

"So that when we are delighted with flowery meadows and gentle breezes of wind, we may consider that we only see the emanations of the sweet benevolence of Jesus Christ; when we behold the fragrant rose and lily, we see his love and purity. So the green trees and fields, and singing of birds, are the emanations of his infinite joy and benignity; the easiness and naturalness of trees and vines [are] shadows of his infinite beauty and loveliness; the crystal rivers and murmuring streams have the footsteps of his sweet grace and bounty. When we behold the light and brightness of the sun, the golden edges of an evening cloud, or the beauteous bow, we behold the adumbrations of his glory and goodness; and the blue skies, of his mildness and gentleness. There are also many things wherein we may behold his awful majesty: in the sun in his strength, in comets, in thunder, in the towering thunder clouds, in ragged rocks and the brows of mountains. That beauteous light with which the world is filled in a clear day is a lively shadow of his spotless holiness and happiness, and delight in communicating himself."

Se isso é verdade para o resto da criação, quanto mais para a sua coroa, para aqueles criados a Sua Imagem e Semelhança.
Por último, devemos considerar como isso tudo deve impactar nosso relacionamento com a beleza do próximo ou próxima. Se a beleza existe para a glória de Deus, isso deve guiar nosso olhar. Nossa depravação total transforma o objeto de contemplação em objeto de consumo e satisfação de nossa concupiscência, de forma que a beleza alheia, ao invés de elevar o pensamento, o rebaixa às paixões mais animais e feias. A cobiça destrói o belo, porque não o reconhece. "A candeia do corpo são os olhos" (Mateus 6:22): se eles foram bons, a luz revelará o real significado da beleza vista; se forem maus, contudo, as trevas cobrirão a beleza, não permitindo a contemplação adequado, gerando abuso, feiura e pecado. (Que Deus nos ajude).

Doxologia
A Emma Watson é linda. Glória a Deus por isso.


Luiz Périco colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.



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