Vamos viajar no natal para ver o vô e a vó?


(Li Wubin/Unsplash)

Não dá! Seu pai vai pregar no culto de Natal e vigília de Ano Novo, lembra? Vamos ficar aqui mesmo."

Eu já sabia que iria ouvir isso da minha mãe, mas todo ano eu perguntava assim mesmo. Só para me certificar de que novamente eu passaria o Natal na "tia" Ilza, uma senhora adorável da igreja. Em meio a dezenas e dezenas de presentes na árvore, havia ali seis muito especiais: o do meu pai, da minha mãe, dos três irmãos e o meu. Hoje, a impressão que tenho é de que a tia Ilza sabia que eu não queria estar ali e por isso se esforçava para fazer daquele almoço de Natal o mais agradável possível para mim. E ela conseguia. Afinal quem seria tão sensível para se lembrar dos filhos do pastor? A tia Ilza.

O intuito aqui não é me vitimizar, mesmo porque nas quatro igrejas por que passei ao longo da vida como "a filha do pastor" fui muito bem recebida e acolhida. O que eu não nego é que muitas vezes o pastor abdica de seus sonhos em prol da Palavra e, às vezes, dos sonhos dos filhos também. Quando vejo naqueles murais em algum canto da igreja as fotos de missionários e suas famílias, me atento para as crianças. Elas não escolheram passar Natal longe dos avós, muito menos morar no Timor Leste.

Certa vez recebemos em casa um casal de missionários que servia na Turquia e, como eles tinham uma menininha de uns cinco anos, resolvemos chamar uma vizinha nossa da mesma idade para brincarem. A filhinha dos missionários, ao ouvir a outra garota falando português, se espantou sorrindo: Você fala? Você fala? Provavelmente ela não convivia com crianças que falavam sua língua materna e isso mostra quão solitária pode ser a vida dos filhos de missionários.

É aí que entra a família da fé! Precisamos de muitas "tias Ilzas" e de crianças que falem a mesma língua dos filhos de pastores e missionários. E daqueles que sejam mais chegados do que um irmão.

Aqueles votos que se escuta em casamento como "na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza" parece que não são só para os noivos. Às vezes eu acho que o pastor faz esses votos com a igreja, e a igreja com o pastor. Atender ao telefone lá em casa era sempre uma surpresa e acho que foi uma grande escola de empatia. "Oi, seu pai tá aí? E sua mãe? Então fala pra eles que..."

Você podia esperar de tudo, avisos sobre alguém que morreu, ganhou neném, perdeu o emprego, está enfermo, precisa de indicação, vai fazer aniversário ou quer uma oração de gratidão na casa própria recém-adquirida. E não era fofoca, não, quem ligava era a própria pessoa ou familiar e, ali mesmo no telefone, a gente aprendia a rir com os que riem e a chorar com os que choram.

Com isso a gente estava em todas, nós seis, tínhamos sempre um churrasco, um aniversário, um casamento, um culto ou um funeral em nossas agendas. Meu irmão mais velho conta que quando acordávamos durante as férias na praia e meu pai não estava, minha mãe ao servir o café já dizia: Lembra daquele senhorzinho da igreja? Faleceu! Seu pai foi lá fazer o sepultamento e amanhã ele volta. A gente sempre saía perdendo ou ganhando alguma coisa quando algo de muito bom ou de ruim acontecia na vida de um membro da igreja.

Muitas pessoas já me perguntaram: "e aí, como é ser filha de pastor, rola muita cobrança?" É como eu disse acima – você aprende a ter empatia pelas pessoas e a ser tolerante, também. Hoje menos, mas antigamente, principalmente em Minas Gerais, algumas pessoas achavam que podiam escolher seu marido, se seu irmão devia ou não fazer seminário, se você tinha de contar histórias para crianças na Escola Dominical ou qual o tamanho da saia da sua irmã.

Isso me ensinou a ser mais tolerante, a relevar o que os outros diziam e também a ser mais autêntica. Se eu estou afim de me explicar, eu explico, e se eu estou com preguiça eu devolvo a pergunta: "Por que nenhum dos seus dois irmãos fez seminário?". Nem todo filho de médico quer fazer medicina.

Eu não faço isso para alfinetar ninguém, eu respondo assim porque é o que eu acredito. Minha mãe também é filha de pastor e ela sempre se preocupava com o que os outros iam pensar. Meu pai era bem menos preocupado com isso, e esse equilíbrio foi muito bom para nós quatro. Cada um fez a faculdade que queria, casou-se com quem gostava e, antes disso, usou o comprimento de saia que quis, furou a orelha ou fez tatuagem quando achou que era a hora. Nenhuma dessas coisas é tão relevante assim, mas vindo dos filhos de pastor, pode se tornar uma questão, principalmente em cidades pequenas. Criamos uma relação de respeito e hoje meus pais, com mais de 60 anos, estão mais tolerantes e autênticos, coisas que eles nos ensinaram e nós ensinamos a eles.

É isso, ser filha de pastor é quase um sobrenome. Geralmente me apresentam assim: "essa aqui é a Raquel, filha do pastor".
Olá, muito prazer!

André Eler colabora e escreve para o blog Cristo Urbano e nessa semana compartilha o texto da Raquel Delage na sua coluna.


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