Um Cristo que vem do campo

(Leon Tolstoy conta histórias a seus netos, 1909/Google)



É bucólica a paisagem do Natal. São pastores que recebem a criança nascida na palha e em meio aos animais. As misteriosas figuras dos reis magos apenas remetem a uma civilização precariamente urbanizada – eram viajantes que passavam mais tempo no campo que em grandes conglomerados. Eram reis de um reinado místico, quase fantasmagórico.

Não me parece à toa que a religião mais cosmopolita de todas tenha nascido no campo.

O campo, a pesca, o pastoril: os elementos iniciais do cristianismo mostram que antes da teologia dogmática e refletida do grande citadino e universalista de Tarso, era preciso um desenvolvimento humanista e campestre da ideologia que revolucionaria o Judaísmo.

Cristo veio do campo.

Em alguma medida, foi a chegada de Cristo em Roma (pelas mãos de Paulo e de seus ajudadores) que fez Roma se tornar o protótipo da cidade e da política do futuro em que vivemos (e não apenas mais uma grande cidade-império expansionista de algum passado distante).

Por isso resolvi, desta vez, fazer algo diferente neste Cristo Urbano.

Apesar de postar muito em redes sociais, raramente abro questões verdadeiramente íntimas na internet. Desta vez o farei, divulgando uma conversa que é a quintessência da intimidade.

É um bate papo gostoso, simples e engraçado que tive com meu avô materno, há algum tempo atrás.

Chamo de “causos do Vô Simões”. Meu vô é meio português, meio pajé. Homem que veio de São Paulo como militar e erradicou-se em Bela Vista, MS – terra até hoje verdadeiramente campestre.

É uma conversa fresca sobre onças, antas, tamanduás, veados, tatus Pudju e tatus carreta, sobre plantas e chás e aves e peixes e coisas do mato em geral. A trilha sonora ficou por conta do almoço, preparado com amor pela minha mãe. O segundo áudio é sobre índios, sobre a língua guarani, sobre dialetos, sobre hábitos alimentares e receitas com milho.

Peço menos de quarenta minutos do seu tempo para ouvir esse homem sábio, meu vô, que conhece a terra como ninguém e vive um evangelho da roça, em que o mandamento de Deus de cuidar da natureza criada se efetiva como parte do quotidiano desacelerado.

Meio luso, meio pajé, o vô Simões conta causos do mato como o homem da cidade que conta as horas que perde no trânsito da cidade.

Preste atenção nos sons, no velho mago imitando bixo, imitando gente. Imagine os tamanhos: no mato, tudo quanto é tamanho é importante; tudo é tamanho, distância, espaço... tempo é coisa de gente da cidade.

Quarenta minutos ouvindo pode parecer muito, mas não imagino que Jesus e os homens do campo tivessem a pressa que temos hoje. Quarenta minutos de ouvido é pouco.

Faço isso porque não apenas Cristo veio do campo, mas nós, de longe ou de perto, também do campo viemos e do campo vivemos.

O confronto com a sabedoria do mato pode ser salutar para a geração que já conheceu a Cristo na cidade, apressada.

Esse bocado de intimidade publico também para a memória presente de um campo que fica cada vez mais no passado, um passado de um mudo desintegrado pelas longas distâncias sem internet e sem avião. Dar o play nesses áudios é se lançar, um pouco, em um museu do ouvi dizer, do diz que me diz.

Ao desfrute!


 



Pedro da Conceição colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.



Este texto e podcasts, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br.

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