A reforma da linguagem

(German: Biography of a language/Daniel Pudles)

É comum ouvirmos que o Inglês se tornou um idioma universal. Esse seria, talvez, o grande trunfo da Globalização – a existência de um idioma-chave conhecido por todos (ou que caminha para isso) e que une povos e culturas diferentes em uma plataforma homogênea, com uma gramática simplificada e um vocabulário pop que pode ser adquirido com vídeos no YouTube.

É uma ilusão pensar, porém, que o Inglês é valorizado como idioma em si. São poucos os apaixonados pela língua inglesa, dentre os que aprendem o idioma para fazer um curso no exterior ou para manter um business. Poucos seguem desbravando o vocabulário amplíssimo dessa língua com potencial de ser mais rebuscada do que aparenta.

Se o Inglês favorece em algo a Globalização é por facilitar a tradução. Ele não é o idioma universal e sim o tradutor universal. Notícias russas ainda são pensadas em russo, compreendidas em russo, noticiadas em russo – rapidamente, porém, o vínculo com os falantes de russo e da língua inglesa podem viralizar a informação originada na Rússia por todos os outros idiomas.

O Inglês importa porque facilita que as informações distantes – e codificadas em idiomas também distantes – sejam rapidamente traduzidas para a língua local (ou sejam traduzíveis com maior facilidade, a partir de um inglês pasteurizado, mas nunca em russo ou em inglês sofisticado).

A Globalização conta, assim, com a manutenção de pequenos regionalismos, conectados por diversos elementos que, como a língua inglesa, funcionam como “meios comuns” para ir de uma região à outra.

Lutero talvez possa ser apontado como a raiz desse movimento globalizante.

Sua ação mais radical foi traduzir a Bíblia para o alemão, língua na qual também escreveu alguns de seus tópicos teológicos.

O latim poderia muito bem ter servido como língua universal, mas esse nunca foi o caso. Pouco a pouco deixou o latim de ser uma língua popular para transformar-se em diversos idiomas que foram se afastando do vernáculo, o qual, contudo, permaneceu na clausura eclesiástica enquanto língua oficial da religião.

O alemão não era língua universal e não creio que Lutero tenha optado por traduzir a Bíblia para o alemão objetivando que, nessa língua, o livro sagrado obtivesse seu maior alcance. Desconheço dados históricos, mas arrisco dizer que alemão não era a língua mais falada no começo do Século XVI – muito provavelmente estava também distante de ser a mais lida.

O que importou, lá na (ainda em formação) Alemanha pré-moderna foi a atitude de Lutero. O ato de tradução da Bíblia foi um ato político complementar à linha de pensamento reformada defendida desde as disputas travadas por Lutero com suas 95 teses e durante as décadas que se seguiram.

O reformador, ao traduzir a Bíblia para um idioma local, teve uma das primeiras atitudes Globalizantes, pois vacinou a Igreja – e especialmente os espíritos missionais – com o ideal de fazer o Livro acessível às regionalidades, às popularidades, a quaisquer que fossem, a todas.

O ato tradutor de Lutero foi inaugural: o que se seguiu foi apenas reflexo do globo terrestre se fazendo cada vez mais redondo.

Ocorre que traduzir a Bíblia também é, a cada vez, um ato teológico, que envolve um esforço profundo pela contextualização e recontextualização para transmitir ideias eternas em palavras etéreas.

Ao fazê-lo para um idioma popular, para retirar a Bíblia do contexto cultural restrito a uma elite cultual estagnada e do contexto dos debates acadêmicos, transformando-a em material devocional popular, Lutero fundou a hermenêutica moderna.

Hans-Georg Gadamer, Gehard Ebeling e outros pensadores da hermenêutica no Século XX apontam o papel fundamental de Lutero na definição da arte da interpretação e no próprio papel que a compreensão possui para definirmos o que significa ser humano, como ele se relaciona consigo mesmo e com os outros, bem como seu passado e com suas tradições.

Em especial, a maneira como Lutero desenvolve a dualidade entre a letra e o espírito – estancada por Paulo em suas epístolas aos romanos e aos coríntios – parece ser uma novidade única face ao platonismo silencioso que dominava algumas interpretações “oficiais” da igreja. A materialidade que Lutero atribui à existência faz com que letra e espírito sejam duas posturas congruentes do mesmo Deus, que é, Ele mesmo, espírito e verbo[1].

Assim, diferentemente de algumas escolas medievais (sobretudo as que valorizavam a metodologia interpretativa alegórica), que reservavam aos reclusos a difícil tarefa de interpretar a Bíblia em seus sentidos profundos, que se encontravam além das palavras, Lutero trouxe as palavras à tona, talvez certo de que Deus também pode se manifestar em superfície, em alemão, e para uma pessoa simples.

É nesse sentido que o ato político de Lutero se transforma em ato místico, compatível com a ideia de um véu rasgado e de um sacerdócio universal: a disponibilidade do texto bíblico é também a porta para um mundo de múltiplas leituras e debates mais intensos sobre interpretações a partir do texto – e não a partir de um sentido profundo dominado apenas por determinada casta de monges.

A maneira como Lutero lia a Bíblia parece, pois, inseparável de seus atos tradutores e de todo o impacto que causaram. Talvez disso renasça a analogia da leitura e da compreensão como tradução.

Não, claro, “traduzir” a Bíblia ao lê-la para que ela se encaixe na vida do leitor, nas suas vontades, nos seus preceitos. Mas orientar-se o fiel para que a cada leitura entenda o sentido de Cristo naquela leitura, em seu contexto escrito e imutável, aplicando a mensagem à sua vida de forma sempre nova, sempre diversa, sempre irrompendo em algum ponto inexplorado.

Ler a Bíblia passa a ser, desde a Reforma, um ato político e interpretativo, ao passo que aponta para o regionalismo das igrejas, das famílias e dos indivíduos e, por essa mesma razão, passa a ser também oportunidade para que todos possam ler e traduzir a realidade histórica e profética das Escrituras para suas próprias vidas, em sua própria língua.





[1] Nesse sentido o interessante: "Letter" and "Spirit" in Luther's Hermeneutics, de Randall Gleason.

Pedro da Conceição colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.



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