A Reforma do Trabalho

“Somos todos sacerdotes como ele é sacerdote; filhos, como ele é filho; reis como ele é rei”
Martinho Lutero*

             


The Geographer, 1668 – 1669, Johannes Vermeer (Oil in Canvas)
Johannes Vermeer, um dos grandes mestres holandeses, é conhecido pela sua habilidade com perspectivas e inter-relações nas suas obras. Em sua obra “O geógrafo”, que faz rima com “O astrônomo”, temos a representação de uma ocupação. Diante de livros e ferramentas de trabalho o construtor de mapas é agraciado pela luz exterior que possibilita a sua tarefa. Ao mesmo tempo ele contempla não o seu trabalho, mas o ambiente externo, de onde vem a luz.

O contexto de Vermeer foi influenciado pelo ideal de trabalho protestante. Nesse ideal, o trabalho não via em si mesmo a sua realização, mas considerava as suas tarefas como um reflexo da condição do trabalhador enquanto sacerdote. Um sacerdote que não se ocupa apenas de tarefas eclesiásticas, mas que faz do “mundo sua paróquia” (1) e vive cada segundo do seu dia como um serviço ao seu Deus.

Negócio sacerdócio
A maior contribuição do reformador Martinho Lutero à eclesiologia protestante foi a doutrina do sacerdócio de todos os crentes (2). Lutero afirmava com essa doutrina que não existem diferenças essenciais entre clero e leigos. Todos são sacerdotes que compartilham responsabilidades e privilégios, recebendo ambos no momento do seu batismo. Na comunidade viva dos santos (communio sanctorum) cada crente é chamado a servir e ser servido pelo seu próximo. Todo crente tem um sacerdócio singular: amar e, amando, ser amado.

Mas as implicações dessa doutrina logo saem dos vitrais das catedrais da Europa e colorem cada faceta da vida ordinária dos crentes. Diante do sacerdócio universal, não existem trabalhos maiores ou menores. Não existe mérito ou recompensa em ser um presbítero ou em ser um cabeleireiro. Ambos são responsáveis diante de Deus pelo amor que demonstram e devem glorificar a Deus em suas ocupações cotidianas.

Diante da vocação dada no batismo, todo crente agora vive uma vida na presença de Deus (Coram Deo), onde todos os seus negócios são feitos com Deus antes de com qualquer outro, e na qual as suas vocações são apenas máscaras do próprio Deus.

Coram Deo: Diante de Deus
A Reforma enfatiza que a existência humana está diante de Deus. A teologia não deve ser feita na terceira pessoa, de maneira impessoal e científica (3). Deus não é um “ser necessário” para as nossas conjecturas filosóficas. Ele existe de fato e é revelado no Cristo. Ele agiu e age em nossa realidade presente. Ele é o Deus que se encarnou e que vivo está. Dessa forma, Deus é a segunda pessoa, ao nosso lado em tudo o que fazemos.
O trabalho então ganha uma outra perspectiva. Ele não está alheio a Deus, como se Ele não se importasse com aquilo que fazemos, mas pelo contrário, nosso trabalho está diante Dele. Nossas ocupações não são meros meios para fins (sucesso, poder, dinheiro ou satisfação pessoal) mas uma oferta constante de serviço a Deus.

Negotium Cum Deo: Negócios com Deus
Um desdobramento da perspectiva Coram Deo é o entendimento de Calvino de que os seres humanos têm negócios com Deus. Um dos contextos em que Calvino afirma estes “negócios” é o de renúncia. Para Calvino, o crente não procura mais as coisas que são suas, mas as que são da vontade de Deus e para a Sua glória. Não tem como alguém que compreende a presença pessoal de Deus na sua vida vivê-la da mesma maneira, não direcionando seus atos, afeições e ocupações a Deus.

Compreender que temos negócios com Deus nos leva a operar em outra lógica: renunciamos a racionalidade individual do trabalho, a cobiça de possuir, o afeto pelo poder e o reconhecimento dos homens e mulheres (4). Nosso trabalho é diante de Deus e nossos negócios são com ele. Antes de pactuarmos com patrões e colaboradores, pactuamos com Deus e esse pacto não pode ser quebrado por nada.

A vocação é a máscara de Deus
A partir de uma vida diante de Deus e que faz negócios com Ele, temos agora uma posição a ocupar. Essa posição é determinada pela vocação distinta que cada crente desempenha e está governada pela vocação universal do sacerdócio. A imagem que Lutero usa para explicar essa posição é a da máscara. Cada vocação é uma máscara de Deus. Nossas ocupações, independente dos prestígios e louros que possam receber da sociedade, e independente das taxonomias que recebam, são apenas máscaras pela qual Deus age no mundo através de nós. Por trás da moça que ordenha o leite, da médica que faz plantão na madrugada de domingo, do seminarista que luta para aprender a diferença entre tempo e aspecto no grego e do desenvolvedor que corre contra o tempo para entregar seu projeto na deadline, estão pessoas que cooperam com Deus em Sua ação no mundo (5).

Diante da idolatria do sucesso (6) e do prestígio, as máscaras de Deus são um sonoro: isso não importa. Não importa a sua função, mas a sua condição. Não importa o que você faz, mas como você faz. Todo trabalho tem um lugar especial no trabalho de Deus. Os títulos, hierarquias, tempo de estudo, etc., são todos colocados a serviço de Deus, não mais como um fim em si mesmo.

O trabalho no teatro da glória de Deus
Esses conceitos revolucionaram o mundo socialmente. Weber tentou evidenciar a relação entre o desenvolvimento do capitalismo industrial e o protestantismo (7). De certa forma existe um desenvolvimento social e tecnológico associado ao impacto que as novas concepções de trabalho influenciadas pela Reforma trouxeram ao mundo ocidental, mas essa Reforma continua.

A lógica moderna sobre o trabalho pode até ter sido influenciada de alguma forma pelo protestantismo, mas está longe de representar um ideal. O trabalho hoje é sinônimo de sucesso e realização pessoal, uma esperança quase que escatológica de redenção pessoal - o fim é o trabalho. Mas para a Reforma não é o trabalho que nos explica, e sim nossa vocação diante de Deus. O trabalho não é a finalidade e sim a consequência - nosso trabalho diante de Deus, em aliança com Deus, reflete o trabalho do próprio Deus neste mundo.

O trabalho diante de Deus rompe com o trabalho que serve a quem trabalha e passa a servir para quem se trabalha. Não trabalhamos para nós mesmos e para nossa própria satisfação. Em Coram Deo, Deus importa mais do que a gente. Nossa satisfação está em encenar no teatro da glória de Deus a máscara (papel) que ele nos concede.

O imperativo para a trama neste teatro é que nosso trabalho não busque acumular tesouros onde eles perecem e perdem o valor, mas diante de Deus, o autor das máscaras e dono de todas as vocações, que saberá conservar aquilo que é Dele até o fim. Trabalhemos!
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* Luther’s Works vol. 40: Church and Ministry II, p. 20
(1)     Frase comumente atribuída a John Wesley.
(2)     GEORGE, T. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1993. 
(3)     THIELICKE, H. Recomendações aos jovens teólogos e pastores. São Paulo: Vida Nova, 2014.
(4)     CALVINO, J. A instituição da religião cristã, Tomo II, Livros III e IV. São Paulo: UNESP, 2009, p. 159 (3.7.2).
(5)     CHESTER, T.; REEVES, M. Por que a Reforma ainda é importante? São José dos Campos: Fiel, 2017. 
(6)     KELLER, T. Deuses falsos. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2016.
       (7)     WEBER, M. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.



João Vinícius colabora e escreve para o blog Cristo urbano. 

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