Cinco solas, cinco séculos

(Foto por Ryan Johns/Unsplash).



Esse ano de 2017 é um ano especial para nós, evangélicos, ou, para ornar com a data, protestantes - e não entraremos aqui em tecnicalidades teológicas estéreis e inúteis: aqui, protestante significa evangélico e evangélico, protestante, não só porque esse é uso comum dos termos, mas porque é assim que a grande maioria dos evangélicos (ao menos, aqui no Brasil) se assumem e se reconhecem, como protestantes, em oposição aos católicos. Inúmeros eventos, aqui e em todo o mundo, vão celebrar os 500 anos daquele 31 de dezembro de 1517, data em que Martinho Lutero, um teólogo alemão, teria afixado na entrada da Catedral de Wittenberg seu "Debate para o esclarecimento do valor das indulgências", documento que ficou conhecido como "As 95 teses", fincando o marco zero simbólico da Reforma Protestante, a qual nós, evangélicos, nos reportamos como origem.

Lido nos dias de hoje, o texto não parece ter muito de propriamente protestante, sendo que algumas das ideias características dessa vertente cristã estão lá de modo ainda embrionário. Na verdade, é um texto bastante católico, principalmente pelo uso de elementos tipicamente romanistas, como as próprias indulgências, a penitência e o purgatório, bem como pelo extremo respeito à pessoa e à autoridade do Papa - autoridade essa que, mais tarde, Lutero negará com muita veemência e, ás vezes, com algum destempero. Tampouco pretendia criar um novo movimento ou um cisma na igreja, como, de fato, provocou; era um convite ao debate de um tema específico e, em certa medida, periférico e prático, as indulgências. No fundo, as teses são bem comedidas, nada radicais. Contudo, elas foram o suficiente para gerar uma tensão dentro do clero romano tal que gerou uma nova corrente teológica na cristandade ocidental e forçou uma (contra)reforma dentro da tradicional estrutura da igreja papal - embora sem tocar nos alvos teológicos dos reformadores.
(De tudo isso, deve ter ficado claro que, como protestante, você deve, ao menos, ter a curiosidade de dar uma lida nesse documento tão importante pra igreja protestante. É curto e vale a conferida.)

Hoje, as indulgências podem parecer um problema mais evangélico do que católico. Isso não deixa de ser um baita problema para a igreja evangélica contemporânea; talvez devêssemos pregar cópias das teses  do reformador alemão nos portões de muito templo por aí. Talvez não exista papel suficiente para tal tarefa. Contudo, o ponto central da Reforma não foi o mero combate ás indulgências. De fato, como nos lembra Martin N. Dreher, " (...) a discussão que se seguiu às teses não se ocupou com o tema 'indulgência', mas com temas como a autoridade eclesiástica, a autoridade de Papa e a doutrina dos sacramentos". Na verdade, o cerne teológico da Reforma Protestante, entendida não apenas como as 95 teses de Lutero, mas todo o movimento eclesiológico, teológico, social e cultural que deve não apenas a outros reformadores, como Calvino e Zwínglio, mas também a precursores como Wycliff e Huss, consiste naquilo que convencionamos chamar de 5 Solas: Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus, Soli Deo Gloria. 

Traduzir isso para o português é relativamente fácil, mesmo para quem acha que latim é a língua dos cães, somente se deixando guiar intuitivamente pelos cognatos: Somente pelas Escrituras, Somente pela Graça, Somente pela Fé, Somente Cristo, Somente a Deus Glória. Traduzir essas verdades (re)descobertas cinco séculos atrás pelos reformadores para o nosso tempo (pós-)moderno, superurbano e hiperconectado, contudo, parece ser mais complicado. Muita coisa mudou em 500 anos, e, em nosso contexto atual, em que o Papa já não é mais a grande autoridade mundial e o protestantismo é uma tendência consolidada no Ocidente cristão, em que já não podemos mais falar em Cristandade, em que Estado e Igreja estão suficientemente separados, em que a imprensa de Gutemberg foi substituída pela internet e a Bíblia é amplamente acessível (ao menos para nós, ocidentais; sabemos que a situação é outra em boa parte do mundo), talvez esses princípios não estejam falando tanto conosco quanto falavam no século XVI, ou melhor, talvez nós não os entendamos também.

Não existe, porém, protestantismo sem 5 Solas; se quisermos ser protestantes, se quisermos que nossas igrejas sejam protestantes, temos de voltar a essas verdades e entender seu significado para nossos dias. Pois, parafraseando e extrapolando um pouco o próprio Lutero (mas não muito, creio eu), esses são os artigos pelos quais a igreja evangélica (isto é, que crê e tem seu centro no Evangelho) cai ou fica de pé. 

O Sola Scriptura é muito bem resumido por uma expressão comum no meio evangélico, tirada da Confissão de Fé de Westminster: "a Escritura é a suprema e infalível regra de fé e prática". Aí já há problema suficiente para nós. Dizer que a Bíblia é nossa regra é reconhecer seu caráter normativo, sua autoridade deontológica, sua primazia no plano do dever. Vivemos, contudo, numa época que não gosta de regras, que acha que elas existem para serem quebradas, que não gosta de quem (com o perdão do termo) "caga" regras, que exalta a autonomia e a liberdade do indivíduo. "Não sou obrigado" resume bem o pensamento de nossa geração. Afirmar o Sola Scriptura, hoje, é afirmar a autoridade final das Escrituras para pessoas que estão acostumadas a pensar que a autoridade final de suas vidas são elas mesmas; é declarar verdades difíceis de se compreender para pessoas que acham que acham que suas razões validam a verdade e que não podem crer no que não compreendem (ou seja, pregar contra Descartes); é prescrever princípios morais e religiosos (e também em todas as outras áreas da vida) para pessoas que pensam poder saber decidir o que é certo ou errado para elas em termos de moral ou de religião e também em todas as outras áreas da vida (ou seja, pregar contra Kant). Ainda mais: o Sola Scriptura nos lembra, como diz o pastor português Tiago Cavaco, " Não é a Palavra que nasce da realidade; é a realidade que nasce da Palavra" (Gn. 1-2; João 1:1-3). Em uma época em que muitos cristãos revisam as Escrituras pelo viés da ciência, da filosofia, da sociologia e de outras disciplinas, é preciso voltar a reconhecer o texto bíblico como a chave hermenêutica da vida e o viés de interpretação do mundo.

Como Tim Keller disse, "Ciências sociais são aptas a nos dizer como a vida humana é, mas não como ela deve ser. A ciência descreve o que é, mas não pode dizer nem prescrever como as coisas devem ser". Contudo, a teologia liberal, impregnada até mesmo nas mais tradicionais das denominações (talvez até mais nessas), impõe às Escrituras o que elas devem ou não dizer, invertendo a hierarquia normativa. Às investidas liberais, deve-se proclamar novamente: somente as Escrituras são "a suprema e infalível regra de fé e prática". Sola Scriptura!

Como eu disse, já temos problemas suficientes. Mas, sigamos.

O Sola Fide reafirma a necessidadede da fé em um cenário em que a fé é relativizada, em que a encarnação, a morte sacrificial, a ressurreição, a ascensão e a volta de Jesus são vistas com reservas, até mesmo com ceticismo, por muitos que se dizem evangélicos. Em um cenário em que muitos crentes são meros deístas, crendo na existência de um demiurgo distante e indiferente, o que lhes justifica uma vida indiferente e distante de Deus, quando muitos cristãos se tornaram de fato ateus adeptos de uma cultura cristã que lhes dá algum senso de pertença e transcendência vagos e um Cristo simbólico, o Sola Fide vem mostrar a urgência de se depositar toda a nossa fé no Deus a quem não se pode agradar sem fé e que galardoa os que o buscam com fé (Heb. 11-6) e que promete salvar todo aquele que crê no Seu Filho Jesus (Jo. 3:16; Rm. 10:9-11). O cristão evangélico é convocado a viver pela fé (Hb. 2:4; Rm. 1:17; Gl. 3:11), pois tudo que não é feito por fé é pecado (Rm. 14:24). Além disso, lembrar que somente a fé nos dá acesso aos tesouros da graça nos lembra de colocarmos a esperança da salvação somente na obra redentora de Cristo, e não em obra alguma, seja as do fundamentalismo moralista, seja as do liberalismo altruísta semihyppie. Sobretudo, é preciso lembrar que a fé não é uma obra, mas a recepção e a confiança na graça divina.

Afirmar o Sola Gratia num cenário em que muitas igrejas pregam não apenas um moralismo sacrificial que nada tem a ver com a santificação bíblica, impondo obras mortas ao invés de ensinar as boas obras que acompanham a salvação, mas também que bênçãos estão disponíveis para os realizam determinados ritos ou que pagam por elas, é tão desafiador - e perigoso - quanto nos anos de Lutero. Creio, com convicção (e provas...), que o maior problema da igreja brasileira de hoje é não entender a graça de Cristo. É preciso repetir insistentemente que é pela graça divina, e não por nenhuna obra nossa, que somos salvos (Ef. 2:8-9), pela sua boa vontade para conosco (Lc. 2:14), por obra da sua liberdade e do seu amor (Ef. 2:4-6). É preciso relembrar, com Bonhoeffer, que a graça salvadora não é a "graça barata" que não confronta o nosso pecado, mas a "graça preciosa", pela qual nós morremos para nosso pecado com Cristo (Rm. 6). E é preciso relembrar a realidade do pecado (1 Jo. 3:4) e da condenação eterna (Mc. 16:15-16; Rm. 6:23), sem as quais a graça divina não faz nenhum sentido.

Já o Solus Christus é uma espada de dois gumes: por um lado, rebaixa todos os líderes eclesiásticos que querem se colocar entre nós e Deus - e, meu Deus, eles são tantos... Por outro, dá um golpe mortal no nosso narcisismo autossuficiente tão característico dos nossos dias, lembrando-nos que não nos bastamos para alcançar Deus. Não importa o quão bons nós achamos que somos, o quanto nós meditamos, nos aperfeiçoamos, até mesmo o quanto buscamos, seja no nosso interior, na natureza, no cosmos, na espiritualidade: precisamos que Jesus Cristo seja o mediador entre nós e o Pai - e Ele é o único caminho entre nós e o Pai (João 14:6; 1 Tm. 2:5-6). O Solus Christus ainda é um golpe mortal no relativismo tão característico dos nossos dias. A exclusividade do Cristo é loucura para os não cristãos, mas também é pedra de tropeço para muitos que se dizem crentres, uma vez que moldados pelo pensamento desse mundo. Numa época que se ofende com reivindicações de verdades únicas e absolutas, a igreja deve continuar afirmando que o nome de Jesus ainda é o único pelo qual importa que sejamos salvos (At. 4:12). Em nosso mundo líquido, devemos continuar cantando aquele velho hino inglês: "Em Cristo, a Rocha Sólida, eu me coloco/ Todos os outros solos são areia movediça/ Todos os outros solos são areia movediça".

O Soli Deo Gloria é um verdadeiro soco no nosso narcisismo e individualismo, bem como uma marretada em todos os nossos ídolos de pé de barro, sejam eles religiosos, filosóficos, políticos, artísticos, sentimentais. Isto é, vai na contramão do fluxo do nosso Zeitgeist, do Espírito do Tempo. O importante não é ser feliz, o importante é glorificá-lO. Todo cristão deve lembrar que os louros por suas boas obras deve ter em vista a glória de Deus (Mt. 5:13-16). Também é preciso resgatar, nesse mundo que crê na divisão entre fato e valor, natureza e graça, sagrado e profano, a verdade de que não há realidades alheias a Deus, não há gavetas na qual Ele fica de fora: tudo que fizermos deve ser para a Sua glória (1 Co. 10:31). E, se como diz John Piper, Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nEle, então o Soli Deo Gloria é um chamado à alegria e ao contentamento no Senhor (Sl. 16, Sl. 40:16, Fl. 4:4) e na Sua Providência para crentes que buscam seu prazer em outras coisas que não o Senhor e que, por isso, não apenas O estão glorificando menos do que deveriam, mas também estão cada vez mais insatisfeitos.

Que Deus nos ajude.


Luiz Périco colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.




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