Não há um justo, nem um sequer

(Imagem vista primeiro no Painel Folha de São Paulo).



"Não há um justo, nem um sequer". Rm 3:10


No mês de outubro do ano passado (2017) este Cristo Urbano comemorou a passagem da reforma com uma série de textos de colaboradores e colunistas fixos do blog. Também publicamos um louvor devocional com a música mais famosa composta por Martinho Lutero, Castelo Forte. Foi nessa postagem que me chamou a atenção a interação de uma seguidora do blog. Ela respondeu ao vídeo com uma série de citações que apontavam falhas de caráter do reformador, principalmente suas falas e escritos antissemitas. Não tenho a menor intenção de defender esse erro histórico e de graves consequências. Provavelmente alguém que nutria tanto ódio, como aparenta naquelas frases, deveria sofrer tormentos de seu próprio erro de interpretação das escrituras. Mas apesar de Lutero, apesar do homem pecador, existiu o instrumento, o alemão que foi usado para acabar com um sistema falido, idólatra e manipulador.

É interessante e vale a pena notar que embora a história do movimento protestante tenha muitos homens famosos por tudo que falaram, escreveram ou pela nova religião que construíram, a falta de personalismo é uma marca do protestantismo. Ainda que homens como Lutero e Calvino sejam considerados pais desse movimento, são desconhecidos por grande parte dos evangélicos de nossos dias. Mesmo grandes igrejas e de origem brasileira, como as Assembleias de Deus, têm seus próprios fundadores, em certa medida anônimos para seus membros. Mesmo que recentemente o movimento neopentecostal tenha introduzido um ar de culto da personalidade de seus líderes (Edir Macedo, Valdemiro Santiago, R. R. Soares, entre outros) é comum o relato de migração de levas de crentes dessas igrejas para as igrejas tradicionais ou pentecostais justamente por um interesse num culto genuíno a Cristo e sem intermediários.

Eu preciso introduzir parênteses aqui junto com um mea culpa. O meu texto, que não ficou pronto naquele momento (baseada nesta obra aqui) de comemorações de 500 anos da reforma, trataria de como a reforma é vista na ciência como um evento que, não só não piorou, mas, de forma oposta, melhorou em muitos aspectos a abertura para a realização do avanço dos mais variados campos da ciência. E tudo começou com um “eu desafio este Papa, o representante de Deus na Terra”. Obviamente, as coisas nunca mais seriam as mesmas.

Dito isto, eu volto para o cerne deste texto. No livro que eu tenho sobre Sun Tzu, há uma passagem onde o estrategista chinês lidou com um rei que duvidou de seus métodos de eficiência militar, unidade e hierarquia. Sun Tzu mandou um: “O Rei ama palavras vazias. É incapaz de unir os gestos às palavras”. A hipocrisia, os atos imorais e tantas outras mazelas em algum nível estão presente em todos nós. Essas falhas de caráter estão presentes em muitas das figuras que admiramos, façam elas questão de esconder ou não. 

Mesmo aquele pastor piedoso, amoroso e muito lúcido que você possa amar e se identificar possui traços muito presente de sua natureza caída. Por exemplo, R. C. Sproul foi um pastor que me edificou muito com seus ensinos e sermões. Nunca soube de nada que comprometesse sua carreira. Provavelmente merecesse as palavras de Paulo: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Tm 4:7). Seu filho, R. C. Sproul Jr., por outro lado, despontava como um herdeiro natural de liderança e do caráter piedoso do pai. Contudo, num vazamento inesperado de contas de um site de relacionamentos voltados a relações extraconjugais, teve seu nome comprometido. Sua carreira como pastor derreteu. Lembro que, em uma de suas auto defesas, afirmou que embora ele realmente tivesse criado uma conta nessa rede social, jamais a teria, de fato, utilizado.

Nós temos uma tendência natural de justificar nossos atos maus, de acobertá-los, de explicar reiteradas vezes e tergiversar. Provável, seja também um resquício de nossa natureza humana que precisa ser resgatada.

Imagino todas essas pessoas, assim como eu, tentando explicar para Deus cada ato de natureza duvidosa que cometemos numa tentativa de abrandar ou convencer um Deus justo que não merecemos nenhuma pena, que somos inocentes.

Recentemente todos os cantos do Brasil estão tomados de notícias que envolvem política e aqueles que lidam com ela – os políticos – ou os que eventualmente estão em função dela – juízes naturais.

O ex-presidente Lula foi, dias atrás, condenado unanimemente em segunda instância. Isso todos sabem. Meu ponto cai sobre a incessante defesa pública do indefensável... Milhões de pessoas que usam “Aécio fez isso e aquilo e não está preso”, “vai ser preso por causa de um apartamento de um milhão e tralalá e fez tanto pelo povo pobre desse país” e “ninguém fica rico por ter um apartamento no Guarujá e blábláblá”. Embora eu me sinta no dever de não celebrar a prisão de Lula especificamente e como se fosse o fim do mal ou da corrupção no Brasil, eu sinto um certo nojo de quem insiste numa defesa cínica de seus atos em função dos seus feitos.

Outro bastião da moralidade até pouco tempo – Jair Bolsonaro – foi confrontado por várias matérias da F.S.P., mostrando, entre as mais variadas coisas, o uso de auxílio moradia mesmo tendo apartamento próprio em Brasília e a manutenção de uma assessora parlamentar, que, além de assessora, é funcionária de uma loja de açaí em Angra dos Reis (e não em Brasília). Os vários balões que Bolsonaro dá na verdade, na moralidade e possivelmente na legalidade o colocam na conta dos que preferem dar desculpas aos seus erros a reconhecê-los independentemente das consequências (obviamente, quem pleiteia cargo político de tão alta complexidade e importância parece ter vocação quase que natural pra um nível de cinismo e hipocrisia maquiavélica).

O juiz Marcelo Bretas também foi exposto por uma reportagem da mesma Folha de São Paulo na qual se noticiou que ele e sua mulher, também juíza, vêm recebendo auxílio moradia mesmo após o CNJ ter emitido resolução na qual veta esse tipo de auxílio para quem tenha cônjuge já recebendo essa vantagem. O juiz, arquétipo das “pessoas de bem” (expressão constantemente evocada na nossa sociedade atual), entrou com ação junto com outros juízes em situação semelhante e ganhou, liberando-o para o recebimento do auxílio. Na sua conta do twitter ele disse que “tem essa mania de entrar na justiça sempre que acha que tem direito”. É curioso que alguém que interpreta as leis não faça juízo de valor sobre coisas mais simples, como regras e o cumprimento delas. A mera possibilidade de se questioná-las em benefício próprio deveria gritar no seu coração, principalmente por quem deseja ser parte de um país que não tolera a corrupção.

Davi, numa de suas histórias mais frequentadas, quando confrontado pelo profeta Natã sobre a conspiração, assassinato e adultério que havia cometido, não ousou montar uma estratégia de defesa, ou mesmo ameaçar o profeta que o desafiava em frente à sua corte. Antes, ele bradou: “pequei contra o Senhor!”. Diante de Deus todas as nossas desculpas, justificativas e chicanas ficam tão óbvias que não nos resta outra opção a não ser reconhecê-las e nos humilharmos. Não há justiça e merecimento maior a cada homem do que o inferno. Toda altivez e capacidade de construir uma ampla e “sólida” defesa se esvai diante de um Deus onisciente. Imagino o quão nu e desprotegido Davi se sentiu sendo descoberto diante de toda a sua própria nação. Ao mesmo tempo o gesto de não tentar manipular aquela ação, mas de reconhecer seu próprio pecado, foi aceito por Deus. Infelizmente, a sombra desse mal terrível o assombraria com atos semelhantes cometidos por seus próprios filhos.

Davi não era o homem segundo o coração de Deus porque era um bom homem, mas porque Deus o escolheu e o predestinou para uma série de acontecimentos que teve seu ápice com o nascimento de Jesus. Deus também o predestinou para reconhecer seus pecados, ao invés de amenizá-los ou mesmo negá-los.

Aqueles a quem o Espírito Santo tem convencido de seus pecados enfrentam todo dia uma vontade imensa de se verem livres de suas tentações ou mesmo culpas por erros e pecados cometidos. Jesus é quem nos justifica, num mistério e força e imensidão do poder de seu sacrifício na cruz.

Ainda, recentemente eu terminei de assistir a três temporadas do seriado Fargo, derivado de um filme de mesmo nome e universo. Se você nunca assistiu, poderia gastar parte do seu tempo livre com isso. Basicamente, o seriado apresenta, em cada temporada, personagens que representam pessoas comuns (alguém com mais propriedade poderia chamá-los de “americanos médios”), sem passado criminoso e que subitamente são envolvidas em crimes de intenção questionável. Esses mesmos personagens, ao invés de assumirem o risco de confessar um crime e lidar com suas consequências, têm em comum a decisão de acobertar seus erros num ciclo vicioso sem fim, na tentativa de apagar seus rastros. Felizmente a série apresenta o contraponto com policiais aparentemente simples e provincianos, mas com excelente vocação para descobrir histórias mal contadas. Na vida real, Lula, Bolsonaro, Marcelo Bretas e cada um de nós é um pouco personagem de Fargo. Pessoas que se consideram bondosas, defensáveis e justas. Passíveis de a qualquer momento serem expostas de suas mazelas mais obscuras e prontas para tomarem uma decisão entre ser Davi ou mergulhar num poço de “eu mereço mais do que isso”.

Minha oração é que a maturidade de Cristo em nossas vidas envolva a humildade para reconhecimento de nossos erros e também a mortificação de todo orgulho de quem acha que tem uma imagem a preservar num mundo tão efêmero e vazio (diante da eternidade)!

Amém! 


Oséias Feitosa-Junior mantém e escreve para o blog Cristo Urbano.


Este texto, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br.

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