Será que o Senhor só fala por meio de Moisés?


(imagem vista primeiro no repositório de imagens do The Brook Network)

Um dia Miriã e Arão criticaram Moisés porque ele tinha se casado com uma mulher cusita e disseram: “Será que o Senhor só fala por meio de Moisés? Ele também não tem falado por meio de nós?”
Então o Senhor desceu numa coluna de nuvem, ficou na entrada do Tabernáculo e disse: “Ouçam as minhas palavras: Quando há um profeta entre vocês, eu, o Senhor, me revelo a ele por meio de visões e falo com ele em sonhos. Não é assim com meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Com ele falo face a face, claramente, e não por meio de figuras; e ele chegou a ver a forma do Senhor. Por que não tiveram medo em criticar meu servo Moisés?” Nm 12:1-9

Um homem de Deus morreu recentemente.

Eu li quatro textos sobre a morte do pastor Billy Graham. Uma transcrição do podcast do Pastor John Piper no qual ele aponta pontos altos e também críticas das consequências do modelo de evangelicalismo norte-americano, o qual Graham propagou, gerando uma certa confusão na cabeça de muitas pessoas no mundo em relação a um pretenso modelo ideal de cristianismo ligado ao povo e cultura norte-americanos. Li um tributo também do Piper, na qual descreveu o evangelista impactou pessoalmente na sua vida. Li ainda um texto crítico de um blog de opinião apoiado e repostado pela UC Berkeley, muito fraco, por sinal, e cheio de generalidades progressistas das quais pelo pouco que colhi de informação nunca foi uma bandeira que Graham se propôs levantar (sejam os malfadados progressismo cultural ou religioso).

O quarto texto que li, o mais polêmico, uma tradução para o português de um artigo de Matthew Sutton no The Guardian, gerou bastante discussão na arena onde todos são muito corajosos, plurais, idôneos em suas afirmações e cheios de propriedade no que falam: os postes do facebook. O título do texto também é uma daquelas abominações cunhadas em círculos esquerdistas e/ou progressistas: “Billy Graham estava do lado errado da história”.

Leiam vocês mesmos o que parece ser uma piada de mau gosto:

“Quando Billy Graham estiver de pé diante do tribunal de Deus, ele poderá finalmente perceber o quanto falhou com seu país, e talvez com seu Deus. Em relação aos direitos civis e à crise ambiental, as questões mais importantes do seu tempo, ele defendeu as políticas erradas.
Graham estava do lado errado da história”.

Não perca a linha de raciocínio, caro leitor. Embora a relação que o historiador Matthew queira estabelecer seja com o público cristão e as bases de fé desse público e mesmo ele não apelando para partículas condicionais em sua frase, é pouco provável que ele mesmo, autor das críticas, acredite num tribunal de Deus ou mesmo num Deus pessoal ou cristão.

Sua intenção é mostrar como os direitos civis e a crise ambiental poderiam ter sido bandeiras que Graham deveria ter levantado. Críticas similares foram feitas a Papas recentes. Graham, por outro lado, mesmo um líder natural no protestantismo moderno nunca foi uma liderança formal ou de fato dessa vertente do cristianismo.

Eu pessoalmente não acompanhei ou acompanhava a carreira e produção de Billy Graham. Mas sou fruto do quanto suas cruzadas evangelísticas impactaram aqueles que me conduziram inicialmente no evangelho: meus pais. Assim como meus pais, outras tantas centenas de milhões de pessoas no mundo foram despertadas, impactadas e movidas pelo evangelismo de Graham durante o quase meio século de sua atuação ministerial.

O foco de seus sermões geralmente era simplesmente: "Jesus Cristo é o único Caminho de Salvação!".

Matthew não me ofende. A defesa de suas palavras defendidas e amplificadas por irmãos de esquerda também não me ofende, mas desaponta, pela miopia e pela teologia centrada num ideal que se afasta do evangelho e prioriza a “causa”.

Crítica a Graham, a suas características e a “não-realizações” são inevitáveis, mas são palcos claros para politização de um universo cada vez mais dividido (esquerdistas e direitistas; progressistas e conservadores). Não há cenário animador para os próximos anos. Como disse Homero pela boca de Áquiles:

“Não há pacto entre leões e homens”.

Voltando ao assunto, os relatos sobre o pastor Billy Graham montam um quebra-cabeças sobre sua personalidade e feitos que nos trazem a imagem de um homem majoritariamente simples, majoritariamente contrário a situações de vulnerabilidade (exercer excessivo poder em função de sua filiação denominacional – igreja batista – ou ficar em ambientes fechados e a sós com uma mulher, entre outras atitudes eticamente louváveis). Billy Graham foi elogiado por Marthin Luther King Jr. e venceu algumas batalhas no campo dos direitos civis ao realizar cruzadas sem separação racial na África do Sul ou mesmo no país ultra fechado, Coréia do Norte.

O irmão Graham fez mais do que qualquer um de nós pode imaginar fazer pela causa do reino do Senhor Jesus nesse nosso período contemporâneo. Ainda assim ele era um homem falho e cheio de imperfeições.

Gutierres Siqueira, um conhecido blogueiro assembleiano, comentou em sua página do facebook com alguma contundência sobre essa polêmica:

“Billy Graham deixou um legado extraordinário. Como homem, é claro, ele estava sujeito a contestações e correções. Mas, infelizmente, no Facebook há muitas pessoas doentes espiritualmente que sempre buscam o pior de qualquer irmão em Cristo que tenha uma pequena diferença doutrinária ou litúrgica. Mesmo um homem de Deus, como Billy Graham, recebe críticas ácidas e arrogantes nesta rede antissocial. Essas pessoas são incapazes de elogiar alguém sem lembrar algum problema eventual, aliás, elas são incapazes de elogiar! Jesus, que era homem perfeito, elogiou pessoas como João Batista, o centurião romano e a mulher cananéia; e todos eles eram pecadores. Hoje, gente medíocre que se esconde atrás de um teclado, sempre busca olhar para o pior do próximo, mesmo quando esse próximo é mil vezes melhor do que ele no Reino de Deus, seja pela qualidade do serviço, seja na humildade e cooperação.

Deveria alimentar nossa alma ver o Senhor Jesus agir por meio de alguém de “carne e ossos”. Perceber que milagres como o evangelismo de milhares de pessoas ao mesmo tempo é possível, poderia encher os olhos de todos nós. Mas não. A pergunta que alguns irmãos fizeram foi: “Será que o Senhor só fala por meio de Billy Grahan?

Há alguns milênios os irmãos de Moisés se irritaram com o fato do legislador hebreu ter se casado com uma mulher negra. Moisés já tinha se casado uma primeira vez com uma mulher de outra etnia. Mas daquela vez ele teria ido longe demais ao se unir a uma mulher negra. É da opinião de alguns teólogos que o grande problema para os irmãos de Moisés era exatamente o fato dele se envolver com uma mulher negra: o que tornaria esse fato um autêntico caso de racismo nos relatos bíblicos.

Moisés enfrentou algumas crises em relação à sua autoridade durante o seu período a frente de Israel. Ele próprio chegou a questionar Deus se ele seria aceito pelo seu povo como líder. Afinal ele sequer havia crescido ou convivido com eles. Depois de ter vencido uma insurgência onde a terra teria engolido os traidores, Moisés veria surgir dentro de sua própria família questionamentos de sua autoridade.

A intervenção que Deus realizou mostra com clareza o que é a sua vontade soberana, inclusive nas escolhas de pessoas para realizar grandes feitos (assim como eu utilizei a figura de Davi no primeiro texto do blog desse ano).

É preciso entender Deus como o ser soberano que Ele é para aceitarmos humildemente os homens e mulheres que Deus escolheu e escolhe para realizar grandes feitos. Isso não é uma recomendação que eu faço. A bíblia inteira está recheada de exemplos de heróis da fé que também eram pessoas ruins ou de péssimos e imperdoáveis atos, mas escolhidas pelo Deus, Senhor e soberano de nossas vidas.

A capacidade de encontrar falhas e más condutas uns nos outros não é tarefa árdua. Talvez para pessoas desconhecidas seja um pouco mais difícil, mas não naquelas de vida pública e amplamente conhecida. Não seria diferente com Billy Graham.

Por outro lado, saber de alguns dos seus números (como as 200 milhões de pessoas a ouvirem algum dos seus inúmeros sermões, as milhões de pessoas levadas a Cristo por meio de suas pregações, um ministério longevo que durou até os seus 95 anos) dão dimensão do quão colossal e único foi essa figura. A humildade em suas palavras e ações (por muitos testemunhada e reconhecida) é uma outra face da realidade que ele entendia de si mesmo como instrumento e ferramenta e não ícone personalista de uma religião.

Billy Graham teve um ministério abençoado por Deus, é inegável (mesmo ao mais cético dos críticos). Billy Graham foi um homem ungido como poucos na história do cristianismo.

Na nossa história recente Deus tem usado vários outros pregadores para propagar a mensagem da salvação e estes são bons instrumentos do evangelho. Mas não foi assim com Billy Graham. Deus o escolheu para multiplicar o evangelho de uma forma não vista antes ou depois. Porque assim Ele (Deus) o quis, seguindo sua vontade soberana.

Billy Graham era um simples ser humano, cheio de defeitos, como eu e você, caro leitor. Mas eu tenho temor do Deus dele e tenho respeito pelo que era Deus naquela vida.

Acreditar num modelo de história simplesmente arbitrado por nós seres humanos, é diminuir ou mesmo minimizar o papel do Espírito Santo conduzindo este mundo. Estamos todos no lado errado da história. Estamos todos desconectados com o ideal de mundo do nosso Deus, como diz a sua palavra. Não se engane com ninguém. Mas Deus conecta a todos nós e nos aproxima da sua justiça e retidão e nos dá ainda durante essa vida muitas breves experiências do seu poder e correção.

Realizar atos memoráveis não é garantia de salvação, mas permanecer fiel à palavra de Deus durante toda vida é a obra que Jesus prometeu realizar em nós e é a isso que devemos observar em qualquer homem e mulher de Deus que tenha vivido nesse mundo.
A vaidade que pode nos seduzir a enquadrar o cristianismo puro e simples no politicamente correto é a mesma que nos trai e nos leva a perdição de uma religião capenga, manca, sem função e longe de Deus. Mas lembre-se que Jesus disse ser melhor perder-se (para os valores este mundo) por causa da pregação do evangelho, mas ganhar a salvação e a vida eterna!

A minha oração é que sejamos mais parecidos com Paulo de Tarso e Billy Graham e o Jesus pregado por esses dois, a quem eles verdadeiramente mostraram seguir! Amém, Maranata!

 Aproveito para convidá-lo a assistir seu último sermão aqui.



Oséias Feitosa-Junior mantém e escreve para o blog Cristo Urbano.


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