Cinza e ouro, luz e bruma

(Ilustração do desenhista e arquiteto Antonio Moya, obtida do livro Pauliceia Desvairada de Mario de Andrade/google imagens)



Volta do trabalho, quase seis da tarde. Aquele horário em que minha querida desvairada faz jus a tal alcunha modernista na sua forma mais sublime: engarrafamento a perder de vista. O caos na minha mente abafava o do transito lá fora. Era uma angústia familiar, que ficava em algum canto ali, latente, e vez ou outra se manifestava, alastrando um turbilhão de questões que eu não sabia exatamente como externar. E naquela tarde, no meio do caminho, tive uma epifania.

Foi bem quando passava pelo paredão que arrasta sua extensa melancolia entre a Marginal Pinheiros e a Cidade Universitária. Odeio aquele muro. Duvido muito que alguém goste, aliás, apesar de haver justificativas razoáveis à sua existência. A materialização do distanciamento da universidade pública com a sociedade. Para mim, no entanto, o muro não é realidade, simplesmente uma barreira já traspassada. A sua existência não muda nada na minha vida, estou do outro lado mesmo estando fora.  E aí entendi o incomodo. Privilégio era o que designava  minha inquietação. 

Não que já não tivesse a constatação clara de certas vantagens que permeiam minha história, a  sensação estranha vinha de uma mudança de perspectiva.  Sempre via o que de certa forma caia no meu colo como bênção e, como fui doutrinada desde que me entendo por gente, apenas agradecia a Deus por tudo que me era concedido sem ter correlação com meu esforço ou merecimento. E era realmente grata, mas a gratidão vinha sempre acompanhada de um leve incomodo que foi se avolumando com o tempo.

Desde aquela tarde, passei a refletir e a cada vez mais buscar adquirir consciência de privilégios em geral. Lendo a respeito e dialogando com pessoas de realidades diversas entendi que essa temática pode assumir vários tons e suscitar vários rumos dependendo das variáveis consideradas no modelo trabalhado.  É um tema evasivo e áspero, mas tanta vitalidade dispendida dentro de mim era sintoma de que deveria transcrever algo sobre isso de algum jeito, nem que fosse um mero devaneio.

Pensei em discorrer sobre como posições privilegiadas podem tornar muita gente áfona e inviabilizar representatividade e atuação em muitos contextos (ainda pretendo escrever sobre um contexto em específico, me aguardem), ou, tomando uma perspectiva mais particular, sobre como privilégios podem provocar a tal síndrome do impostor (vale a pesquisa) famigerada entre os que compõe a geração Y. Mas situar essa questão na caminhada com Cristo era primordial.

Do meu singelo trabalho de campo depreendi de tudo com que entrei em contato um denominador comum nesse objeto de estudo tão delicado. Quanto maior a quantidade e relevância dos privilégios, mais fácil é ter a vista anuviada ao encarar a realidade. No grande emaranhado de limitações e tropeços acumulados ao longo da existência nesse mundo, deixar que essa bruma se instaure e torne a vida cristã apática é um risco significativo.

Jesus, Rei dos reis, nasceu em no mais atípico e simplório dos lugares, um estábulo. Prenúncio da toada de seu ministério. O filho de Deus, o próprio Verbo Encarnado se humilhou, abdicando de qualquer privilégio até sob a maior das tentações.  Cristo se utiliza da sua posição de autoridade para servir, ensinando-nos a colocar as necessidades alheias a frente das privadas. Em Mateus 16, deixa claro qual é o lugar que devemos ocupar na contenda contra tudo o que mortifica e degrada a humanidade. “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me.” Jesus lança essa represália quando Pedro, inconformado com a revelação da Sua morte, diz “tem compaixão de ti, Senhor” (v.22). Essa frase revela muito do ethos, conjunto de princípios, não só daquela sociedade, maculada pela dominância desvirtuada de fariseus e saduceus, mas das sociedades contemporâneas, nas quais o pensar e agir de forma autocentrada prevalece.

Jesus não nos convida a ir avante, ou ao lado, mas vir após. Cristo está a frente sempre e negar-se a si mesmo e tomar a cruz faz-se constantemente necessário nesse percurso. Isso significa tomar consciência dos contextos em que nos encontramos, de tudo o que nos cerca, como chegamos aonde estamos e entender que de tudo o que compõe nosso viver, nada pode ser apropriado.  Não há usufruto próprio na vida voluntariamente rendida a Deus. O peso da cruz impossibilita que carreguemos o ego.

Privilégios permeiam a vida humana, ainda que em proporções agudamente diversas.  O historiador sueco Johan Norberg, estudioso da globalização econômica, em seu livro Progresso: Dez Razões Para Acreditar no Futuro,  demonstra, apoiado num extenso conjunto de indicadores sociais, que as sociedades estão melhores do que nunca,  o que evidencia que o simples fato de se viver nos dias de hoje alça todos a uma posição mais vantajosa do que aqueles que viveram em séculos passados.

Paulo em carta aos Efésios sintetiza primorosamente qual deve ser a postura cristã em relação a esse tema. Eu sou menos do que o menor de todos os que pertencem a Deus, mas mesmo assim ele me deu este privilégio de anunciar aos não-judeus a boa notícia das imensas riquezas de Cristo. (Ef. 3:8). O primeiro passo para entender como colocar toda vantagem que  recebemos de maneira fortuita e imerecida na vida vigorosamente a serviço de Deus, levando a luz e estendendo suas bênçãos a outras vidas é assimilar cada situação com humildade. Que nos atentemos mais aos muros pelos quais passamos diariamente que nos apartam dos demais, sejam eles extensos e melancólicos, ou pequenos e vistosos.



Jessica Caieiro é membro da Igreja Presbiteriana do Butantã (IPBut), cursa Ciências Econômicas na Faculdade de Economia e Administração da USP e coincidentemente publica um novo texto para o blog Cristo Urbano na semana que se comemora o dia internacional da mulher.


Este texto, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br. 

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