Cajado ou vara de marmelo: educação de filhos por pais cristãos sem violência

(silhueta mãe e filho num por do sol/imagem vista primeira aqui).

Esse foi um texto bastante difícil de escrever – comecei e parei diversas vezes, tinham muitas abordagens possíveis, muito a ser dito – mesmo que fossem só dúvidas e questionamentos sinceros. Talvez, se for bem aceito e for de interesse, esse tema vá ser tratado em uma série nas minhas próximas colunas.

Falar sobre educação e infância é sempre complicado. Se por um lado é impossível não pensar nos nossos pais e na nossa própria infância  seja ela romantizada na memória, seja exageradamente sofrida , por outro é bem fácil cair na maior cilada da maternidade/paternidade: o cuspe na testa. Aquilo que jamais faríamos, que nossos filhos nunca seriam, invariavelmente, eles são. E as dificuldades do dia-a-dia me comprovam cada vez mais que educar uma criança não é automático. Você precisa parar, pensar e tomar decisões firmes – as quais serão seu parâmetro em momentos de crise.

Quando engravidei, duas coisas estavam bastante claras para mim, em relação a educação. Primeira: elas seriam educadas no caminho da fé cristã (“Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” Deuteronômio 6.6,7). Segundo: eu ia achar um jeito dessa educação ser feita sem violência - elas não iriam apanhar, nem tapinhas no bumbum, nem beliscões e muito menos eu ia comprar uma vara de marmelo para expor na sala. Na minha realidade cristã, são poucos os pais que assumem que ambas as premissas são possíveis e interligadas.

Quando se fala de disciplina com crianças na igreja, o comum é termos pregações que sigam a seguinte linha: (i) a Bíblia indica a correção pela vara, (ii) há algum limite e a vara não pode se tornar tortura, (iii) a sociedade quer tirar do pai o direito da correção com vara e isso seria absurdo. Neste texto, pretendemos ir além e questionar alguns parâmetros e chavões comuns da cultura cristã brasileira da relação entre pais e filhos.

(tweet do grupo de humor Choque de Cultura).


Vara ou Cajado?
É inegável por qualquer leitura ou interpretação que a Bíblia dá chancela a castigos físicos aos filhos no Velho Testamento “Não retires a disciplina da criança; pois se a fustigares com a vara, nem por isso morrerá. Tu a fustigarás com a vara, e livrarás a sua alma do inferno” Provérbios 23:13,14. Isso, entretanto, também é verdade para demais consequências previstas na lei mosaica. Não eram apenas as crianças que estavam submetidas a penas corporais. Até o adultério era punível com morte (Lv 20:10) e a adivinhação e a quiromancia com apedrejamentos (LV 20:27). 

Para quem crê, não se trata de considerar a bíblia ultrapassada ou letra morta. É importante colocar em perspectiva a época que os escritos bíblicos foram escritos e guardarmos os princípios destas normas: é responsabilidade dos pais a disciplina da criança.  Não me parece, entretanto, que a bíblia ordena ou mesmo que indique que essa correção seja feita através de castigos corporais. Uma evolução social sobre penas e castigos físicos já foi consagrada mesmo para crimes graves cometidos por pessoas já em plena consciência e desenvolvimento cerebral completo. O próprio Jesus impediu um apedrejamento de uma mulher pega em flagrante pecado pela lei. Será que se fosse uma criança levando varadas do pai por algum erro, Ele não teria interferido? Por que não olhar os versículos de forma contextualizada e entender os princípios cristãos para a disciplina dos filhos?

E aqui, vale ressaltar o óbvio: a disciplina de um pai não deve ser imposta por conta de um pecado do filho. Isso é extremamente importante de entender. Pecados são atitudes que desagradam a Deus e que – em certa medida – não está no meu controle impedir. Um pai não controla o coração de um filho. A desobediência às ordens do pai devem ser único e principal motivo para a repreensão, não um suposto ideal de atitude cristã que jamais se conseguirá através da imposição. A criança mais obediente do mundo pode ter em seu coração razões egoístas, amargura e rancor. A disciplina entre pais e filhos não é somente pastoral e cristã. É principalmente no dia-a-dia. Não é pecado minha filha querer dormir tarde. É, entretanto, minha função orientar que o sono deve ser realizado na rotina adequada para que ela se sinta bem no dia seguinte. Como pais, precisamos reconhecer nossas limitações e conhecer bem nossos papéis para que estes sejam bem desenvolvidos.  

 Quem opta por castigar fisicamente um filho precisa assumir um ônus de forte auto-controle e domínio próprio. E, não é fácil. Qualquer pai e mãe sabe que muitas vezes perdemos a paciência – e nem sempre é culpa da criança. É molho que caiu no chão recém-limpo sem querer, um brinquedo caro que quebrou ou – um dia que foi horrível no trabalho e seu filho quer atenção enquanto você quer dormir. Eu perdi as contas de quantas vezes me afastei e fui tomar uma água antes de ter qualquer reação com minhas filhas – e mesmo assim me arrependo de várias destas, mesmo sem jamais ter levantado a mão. Precisamos ser honestos conosco mesmo. É difícil ser parte interessada, legislador e juiz de execução de castigos, com sangue quente e raiva. A frustração dos pais está no olhar, no tom de voz e na força do tapa. Ir contra o corpo da criança por mau comportamento tende a causar mais danos de raiva e rancor contra aquele que a agrediu do que noção de causa-consequência pelo erro praticado: “apanhei porque bati no meu irmão”. Não é algo simples de entender e se soa contraditório, imagina na cabeça de um ser ainda em desenvolvimento intelectual e emocional. “Apanhei porque minha mãe ficou com raiva de mim e do que eu fiz” é a explicação internalizada.  

“Ah, mas eu apanhei e não morri. Amo meus pais e os agradeço.” Que bom, fico sinceramente feliz. Mas, o grande número de adultos com traumas sérios emocionais ligados à infância e relações entre pais e filhos adultos destruídas nos dizem alguma coisa, mesmo que exceções existam. Rancor, raiva e marcas físicas e emocionais lotam terapeutas e salas pastorais. Alguém precisa romper esse ciclo – nós sempre levamos muito da nossa educação para nossos filhos, isso precisa parar de ser automático e fazermos uma escolha firme no sentido de não agredir. É disso que eu falava no começo no texto.  

O castigo físico não é necessário e não é a única forma bíblica de disciplinar. Existe uma ideia disseminada de que só há disciplina com uso de força física e isso não é verdade.  A bíblia fala sobre orientação e guiar os filhos nos caminhos do Senhor. É preciso entender o significado de “shevet” (vara) em PV 22:15 - “A estultícia está ligada ao coração do menino, mas a vara da correção a afugentará dele” – aqui, me parece que shevet está mais ligado ao que conhecemos no sentido de cajado, aquele que auxilia a apascentar ovelhas, a cuidar, pastorear, orientar e guiar pelas veredas tranquilas. Isso me parece muito mais efetivo para afastar a insensatez do coração do que acreditar que apenas um pedaço de árvore feito de chicote transforma o comportamento e o coração, sendo esse bem mais importante.

O próprio foco do porquê disciplinar normalmente é adultocêntrico – e não deveria. O objetivo deveria ser a criança e seu aprendizado. Nós não deveríamos disciplinar crianças simplesmente para que estas não sejam rebeldes, como se as regras tivessem uma razão por si próprias. Disciplina, ordem e rotina é importante para trazer segurança e conforto à criança. Quando regras são pré-estabelecidas, a criança conhece o seu espaço de autonomia e onde pode se sentir livre – posso jogar bola no quintal, não na sala de jantar. É importante que nossas regras sejam claras, diretas, constantes e justas. Disciplinar exige paciência e equilíbrio. Se por alguns dias eu permito que minhas filhas assistam TV durante o almoço porque estou com pressa e no dia seguinte proíbo terminantemente dizendo que é ruim, recebendo alguma manhã a incompreensão – o erro inicial está em mim, não nelas.

Infelizmente, há pouquíssimos textos elaborados por cristãos com base na disciplina positiva. O discurso é sempre mais fácil que a prática, a teoria sem exemplos, quando se fala de filhos é inútil. A parte difícil é na hora de concretizar. Por conta disso, pensei em 4 passos práticos para uma disciplina positiva realizada por pais cristãos:

1. Enxergar a criança como seu próximo: um ser humano em formação.
Parece óbvio, mas não é. Nossos filhos também são nosso próximo, também devemos amá-los como amamos a nós mesmos. O que isso quer dizer? Tem um ser humano ali, ainda não totalmente desenvolvido. Eu sempre me impressiono com algumas mães procurando ajuda para regrar o filho de um mês de nascido que quer colo o tempo todo. Vejam bem, uma criança de 30 dias de vida nem percebeu que saiu do útero ainda – e já fica de “castigo” como se houvesse alguma maldade naquele choro que implora por acolhimento e segurança.

               A não ser que seu filho tenha tendências de sociopatia, é pouco provável que ele “faça tudo pra te provocar”.  Aos dois anos, quando é pico de desenvolvimento do sistema límbico (o que controla nossas emoções) e, consequentemente, da terrible two – a própria criança ainda não sabe lidar com seus sentimentos de raiva, frustração e tristeza. Depois, vem as dificuldades inerentes ao aprendizado da fala, mais desenvolvimento cerebral (Neocortex) e só lá na adolescência e puberdade o sistema límbico dá outro pico – novamente, causando uma intensificação nos sentimentos.

               Tentar entender a fase antes de rotular a criança de má-educada é importante. É mudança de postura em relação a ela. O que pode estar errado para que meu filho e seu irmão briguem tanto? O que pode estar errado em uma criança que chora constantemente e pede muitas coisas no shopping? Será que não é uma exposição em excesso a propagandas, por exemplo? Como posso trabalhar a maturidade financeira e o consumismo do meu filho – para além do “eu não vou comprar e pronto”.

               E aqui, aquele conselho básico da bíblia que a gente amava repetir para os nossos pais, mas que aparentemente esquecemos quando os nossos filhos nascem:  “Pais, não irriteis os vossos filhos, para que não fiquem desanimados.” Cl 3.21. Sejamos pais íntegros, confiáveis e disponíveis para nossos filhos.

2. Reconhecer seus limites - pedir ajuda, ter uma aldeia
Esse é um ponto que, infelizmente, nem todas as famílias poderão seguir. Criar uma criança é cansativo. Uma mãe cansada e sobrecarregada pode não conseguir cumprir todos os seus objetivos enquanto guia para seu filho. É preciso que os pais assumam a tarefa em cooperação e corresponsabilidade – e não apenas nos momentos de lazer. Mas mesmo o casal em mais perfeita sintonia, ainda assim, é sempre importante lembrar que é preciso de uma aldeia para educar uma criança.

A escola, a igreja, os avós, os vizinhos, os tios. Todos precisam falar a mesma língua e colaborar. Os pais não permitem refrigerante durante a semana, que os avós não destituam essa autoridade. Os tios, que não façam comentários de brincadeira que a criança não possa “contar para a mamãe”. A escola que seja parceira dos pais e não mais um campo de disputa. Há tantas variáveis envolvidas na vida de uma criança e seria ideal que todas estivessem em sintonia.

Especificamente sobre o núcleo famílias, não podemos ignorar os nossos sinais de stress e de fadiga emocional. Mães e pais precisam estar saudáveis emocionalmente para criarem crianças sãs. Cuidado com ignorar sinais de depressão, de raiva extrema, de perda de limite para com si mesmos. Aquele que cuida, precisa de ter sido cuidado. Não tenha vergonha de pedir ajuda seja para olharem a criança enquanto você tira um dia de folga, seja ajuda médica ou psicológica.

3. Reconhecer o limite da criança – treinar o olhar da empatia com seu próprio filho
Depois que você fica se lembrando o tempo todo que seu filho (principalmente os muito novos) é só uma criança e não aquele ser que “só quer desafiar a minha autoridade” fica um pouco mais fácil reconhecer e evitar ao máximo situações que causem mal-estar na criança.  Principalmente, fome, sono, frio, calor ou quebras de rotina. Lembrando que criança precisa gastar energia, correr, se comunicar e brincar com outras crianças.  Não rola esperar que seu filho passe a tarde toda em uma sala de dois metros quadrados assistindo televisão sábado o dia todo. É preciso buscar espaços adaptados a elas, desde praças a brinquedotecas gratuitas.

Acho que criar vínculo com seu filho é muito mais difícil do que parece. Vai além do colo e afago. A gente precisa tentar entender o que a criança precisa e sente, para acolher, quando necessário e ensinar a lidar com a frustração, quando também for o caso. E isso só é possível se somos empáticos, sinceros e verdadeiro com a criança.

Da última vez que minha filha ficou internada, no dia da alta a enfermeira veio conversar comigo e me parabenizar. Disse que apesar de ter usado sonda diversas vezes e ter tido que furar o bracinho umas 4 vezes em um período de 10 dias de internação, ela era bastante tranquila – mesmo chorando já que dói – e que ela sabia que se a mãe estava em paz, a criança também estava.

Sabe aquele elogio que você SABE que é imerecido? Eu tinha certeza que esse era. Comecei a me lembrar do dia anterior, durante um dos exames, que a Valentina (com pouco mais de dois anos) chorava muito. Eu tinha que segurar ela e sabia que ela estava sentindo dor. Eu deitei meu corpo sob o dela e dizia baixinho que eu sabia que doía, que a mamãe não queria que ela passasse por isso, mas que ela era forte e que seria rápido. Que a mamãe estava lá e depois ela ia ficar no meu colo e não teríamos mais exames naquele dia. O exame foi feito, ela foi pro colo ainda com lagrimas e dormiu. Eu confesso que derramei várias lagrimas com ela durante o exame e depois. Eu não preciso fingir que não dói uma injeção, não posso obrigá-la a engolir o choro e parar de se mexer. É perfeitamente compreensível que ela esteja com medo e irritada – eu preciso estar ao lado, mesmo chorando junto.

Entender os sentimentos da criança é uma grande chave para uma disciplina sincera – que permita dar regras seguras tendo o pleno desenvolvimento da criança como foco. Eu não crio um robô que fica quieto durante o culto. É muito além disso. Espero ajudar duas mulheres a se descobrirem e a crescerem em graça e desenvolvimento, diante de Deus e de homens, como foi com o menino Jesus.

4. Priorizar o Deus da graça, não o da culpa
Esse ponto 4 quero aprofundar em um texto futuro específico. Desde dos meus tempos de APEC que eu ouço sobre o perigo de transformarem a pessoa de Deus em um Papai Noel. “Deus tá triste com você porque você fez isso”. “Papai do céu não gosta”, “Jesus vai levar papai e mamãe embora se você correr assim na rua”.

Apresentamos aos adultos um Cristo Redentor dos pecados, pronto a nos perdoar e um Espírito Santo que vai preencher nosso ser e nos ajudar a caminhar no Reino de Deus. Para as crianças, sobram as histórias sobre um Deus vingativo e castigador. Isso é o oposto de ensinar o amor e a essência de Cristo através do “Deixai vir a mim os pequeninos”.  

É um tema difícil, mas necessário. Desejo que mais e mais pais cristãos optem firmemente por usar a vara no sentido do cajado do Bom Pastor para educar seus filhos, não como instrumento de castigos corporais. Que também, no que se refere à educação de nossos filhos, sejamos como Cristo.

Outros textos para consulta:

*Agradecimento especial a todas as pessoas que participaram com idéias nesse texto, em especial, meu marido e parceiro de criação das filhas, Ivan. Bem como, Samara, Isadora, Bárbara, Gabe e Luciana. Obrigada pela conversa, pessoal!



Marina Jacob colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.



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