Fenomenologia da Idolatria


(Foto em preto-e-branco/Arquivo pessoal de Pedro da Conceição).


“Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria”.

Colossenses 3:5


“Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti, que os que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus”.

“Se alguém vem a mim e ama seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo. E aquele que não carrega sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo”.
Lucas 14:25-27

“Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito. Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras? E, se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso? Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom”.
Lucas 16:10-13

“Então falou Deus todas estas palavras, dizendo:
Eu sou Jeová teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa de servidão.
Não terás outros deuses diante de mim.
Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
Não as adorarás, nem lhes darás culto, porque eu, Jeová teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, na terceira e na quarta geração daqueles que me aborrecem, e uso misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.
Não tomarás o nome de Jeová teu Deus em vão, porque Jeová não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão.
Lembra-te do dia de sábado, para o santificar”.
Êxodo 20: 1-8



Peço perdão por começar com longas citações, mais ou menos arbitrárias, desses textos bíblicos.

Fiz um esforço para recortar os principais textos bíblicos que condensam a ideia de idolatria.

Há alguns dias, utilizei o Facebook para nutrir um debate sobre esse conceito, a idolatria. Uma dúvida surgiu em minha mente e resolvi compartilhá-la. O resultado do debate foi muito frutífero e me ajudou a formular este texto.

Ocorreu-me que talvez estivéssemos ampliando de forma inadequada o conceito de idolatria.

A pergunta que quero responder é: quando nomeamos todas as paixões do nosso coração como “ídolos” não estaríamos expandindo demais esse conceito?

Calvino disse que o coração do homem é uma fábrica de ídolos... sim, de fato. Mas a interpretação corrente tenta identificar em todo pecado um fundo de idolatria. Fala-se em idolatria do Estado, idolatria do trabalho, idolatria da mulher amada e quando não há nenhum candidato ao cargo, fala-se em “idolatria do eu”.

Isso passou, de repente, a me incomodar (assim como o uso excessivo da ideia de “cosmovisão”, mas isso fica para outro texto). Comecei a pensar que, talvez, idolatria se referisse apenas a ídolos materiais. A ídolos que assumissem, de fato, alguma posição de objeto de adoração.

Inclusive, não seria outra a origem da tara evangélica de limpar os templos de todos os símbolos, de todas as imagens, de todos os objetos que possam passar esse ar de idolatria.

O livreto do Reverendo Mauro Meister (um dos meus interlocutores de Facebook, inclusive, a quem agradeço) parte dessa constatação para defender o ponto de que a idolatria é, justamente, o pecado que comete qualquer um que esteja servindo mais a qualquer outra coisa ou pessoa que não a Deus.

Meu amigo e autor neste blog, Luiz Périco, citou o texto de Lucas 16 para provar este ponto e eu me convenci que, sim, é legítimo falar de um conceito de idolatria genérico, que faça referência a qualquer coisa que ocupe demasiado sua atenção.

Porém, nas minhas indagações, algo foi ficando claro: ainda que possamos falar de uma idolatria de pessoas, de uma idolatria de prazeres, de uma idolatria de práticas, um conceito forte de idolatria ainda se refere a objetos externos, a objetos que assumam a posição de objeto de adoração.

E, aqui, o conceito de adoração guarda uma relação bíblica com o de serviço, é verdade, e isso me foi apontado por vários interlocutores.

Porém, a bíblia parece dar um destaque especial à questão do dinheiro como objeto de idolatria.

A meu ver, esse aspecto acaba sendo erroneamente sublimado, esquecido ou diminuído quando equivalemos qualquer pecado ao resultado de um processo idólatra.

Meu ponto, portanto, é: talvez não seja nenhuma heresia dizer que um homem “idolatra sua família”, mas na essência da idolatria se encontram dois objetos – imagens e dinheiro.

(Foto em preto-e-branco/Arquivo pessoal de Pedro da Conceição).

Comecemos pelas imagens.

Para entender isso, precisamos nos socorrer dos primeiros dos 10 mandamentos. Eu diria que cumprí-los é o oposto de idolatria. Assim, a falha em algum desses mandamentos nos aproxima ou nos entrega à idolatria.

A cadência dos mandamentos é intrigante. A primeira obrigação não é, a meu ver, “não terás outros deuses diante de mim” e sim “eu sou Jeová teu Deus [...] não terás outros deuses diante de mim”.

O primeiro mandamento é, de todos, o mais complexo, pois ele inclui na ideia de mandamento, de imperatividade, uma afirmação do próprio Deus a qual coloca o lugar em que não terás outros deuses – diante de mim; eu que sou Jeová, teu Deus.

A afirmação que antecede a ordem é o elemento que faz a ordem ter sentido.

Por isso a idolatria começa com esse aspecto duplo de não apenas infringir uma proibição (“não terás”), mas também de ignorar um “lugar sagrado” – diante de mim – que implica, de fato, ignorar a própria sacralidade de Deus, a deidade de Deus.

Nisto vem uma diferença importante marcada nos primeiros versículos de Êxodo 20: há um único YHWH (Javé, Yavé, etc.), mas há vários ELOHIM.

Deus é Elohim[1], mas Baal também o é. Ser Yavé é incondicional; apenas Deus é Yavé, mas ser Elohim depende da atitude do servo-adorador.

Nesse sentido, ser Yavé é uma questão à qual apenas a fé responde (ser Yavé em nada depende do crente, mas pela fé pode o crente ter acesso a essa realidade incondicional); ser Elohim, contudo, é uma questão religiosa (ela depende da postura do crente).

Logo depois, seguindo nos mandamentos, vem a proibição explícita de imagens, de esculturas e figuras que representem seja o que está nos céus, embaixo da terra ou nas águas abaixo dela. Por que foram escolhidos esses três “lugares” (céus, abaixo da terra, águas abaixo da terra) é algo que precisarei pesquisar em outro momento, mas o que importa aqui é o movimento do primeiro para o segundo mandamento.

O segundo mandamento é muito mais simples: trata-se de uma ordem direta, material, e, por que não dizê-lo, uma ordem visual.

Quem ignora esse aspecto está, a meu ver, deixando de lado uma importância dada pelas próprias Escrituras a esse aspecto material (a escultura) e visual (a figura) da idolatria.

Tenho uma teoria sobre a importância desse aspecto material, inspirada nas minhas leituras de Paul Ricoeur sobre a Queda: a importância do aspecto material e visual para a idolatria é uma resposta da Lei aos elementos que levaram Eva ao pecado original.

Lembramos: que a árvore era “boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento” (Gênesis 3:6b). Esses elementos sensoriais estão na origem da narrativa do pecado, mas nem todo pecado implica idolatria.

Adão e Eva ao quererem ocupar o lugar de Deus não estariam, ainda, cometendo o pecado da idolatria, mas tentando criar o primeiro ídolo, estavam tentando fazer-se ídolos; queriam ter mais a imagem e semelhança de Deus do que já tinham. Ironicamente, havia no Éden um ser poderoso que poderia ter sido adorado – a serpente – mas isso estava fora de cogitação, porque ainda não havia ídolos.

A serpente não era boa para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento.

É preciso, e esta é minha opinião, marcar (fenomenologicamente) a distinção entre pecado e idolatria. Aquele precede esta.

O ídolo responde a um aspecto essencial da estrutura do pecado – ele é “agradável aos olhos”, ele mexe com nossas sensações, ele materializa um Deus que não se apresenta como material (não em um sentindo vulgar, ao menos, e é nessa vulgaridade que nasce o ídolo).

Pausa.

O leitor se recorda do que acontecia no vale do Sinai enquanto essas ordens eram passadas a Moisés, pelo próprio Deus?

O povo recolhia ouro que seria utilizado pelo próprio sacerdote Aarão para forjar uma imagem a qual – como verdadeiro arquétipo do ídolo – seria adorada em substituto de Deus, diante de Deus.

O bezerro de ouro é o Ídolo ideal, violando a Lei que acabara de ser dada, materializando o Deus que se delongava por demais a se manifestar do alto do Sinai.

Esse aspecto escultural do ídolo, portanto, remete a outro ponto da narrativa do Éden: o ídolo não surge, ele é forjado.

Construímos ídolos (e, nesse sentido, a imagem calvinista do coração como fábrica de ídolos é certeira, mas imprecisa, pois fabricamos com as mãos e não com o coração).

Aarão, quando foi se justificar, mentiu: “Então eu lhes disse: Quem tem ouro, arranque-o; e deram-mo, e lancei-o no fogo, e saiu este bezerro” (Êxodo 32:24).

Aarão mentiu porque se prostrar diante de um ídolo é odioso, mas forjar um é a idolatria por completo. Utilizar do trabalho para construir um deus é abominável aos olhos de Deus.

E daqui podemos dar um pulo à questão do dinheiro (poderei desenvolver a relação da idolatria com os demais mandamentos em outro texto).

A ideia do forjar ídolos, construir esculturas e fazer imagens guarda íntima relação com o trabalho e, portanto, com o ouro, com o dinheiro.

A meu ver, o antigo e o novo testamento mantém uma simbiose forte ao preservar esse núcleo da idolatria, quando Paulo aponta, aos Colossenses, que “ganância é idolatria”, mas não faz essa equiparação com os outros pecados listados.

O que isso quer dizer?

Quer dizer que se você ama demais sua família e ela te impede de uma aproximação de Deus, existe aí um problema – você deveria amar a Deus de todo seu entendimento, de toda sua força e com todo seu coração – mas talvez isso não seja idolatria (não no sentido forte do termo).

A idolatria ocorre, sobretudo, com essas questões materiais em que nós nos vemos autores de uma obra a qual colocamos como objeto de adoração, devoção e serviço. Dinheiro, riquezas e, no limite, o próprio trabalho (não na linha do workaholic, mas na da ganância, da pessoa que trabalha para aumentar indefinidamente seu capital).

Eu sei que, com essa interpretação, faço uma redução do conceito de idolatria – mas é exatamente por isso que intitulei este texto uma fenomenologia da idolatria e não uma teologia.

A fenomenologia tem a redução como procedimento.

Ela implica uma análise que, por rigor, se limita à essência das coisas elas mesmas, com o mínimo de interferência possível de outros conceitos e/ou categorias analíticas.

A teologia, sobretudo na vertente sistemática, opera em sentido inverso: com intuito de expandir a funcionalidade de conceitos apresentados em diferentes contextos bíblicos, ela “quebra” as barreiras da diferença de horizontes criando uma série categorias explicativas, com um intuito absolutamente legítimo, mas distinto do reducionismo típico da fenomenologia.

Meu objetivo não foi, pois, criticar a posição dominante na teologia que lança mão de um conceito amplo de idolatria, mas apenas delinear, em contraste, o conteúdo essencial da idolatria, para que melhor possamos combater esse pecado terrível que nos afasta de Deus.

Minhas conclusões, pois, até o momento são algumas:

i) precisamos reabilitar com urgência uma teologia do trabalho, relacionando-a com o pecado da idolatria, para pensar o valor que o trabalho tem, positivo ou negativo, na nossa adoração;

ii) precisamos reabilitar uma teologia do ouro – que vai muito além de uma teoria do dinheiro. É uma teologia do acúmulo, da ganância, da riqueza e do impressionante poder que essas monstruosidades conseguem exercer sobre o crente, sujeitando-o a seus desígnios impessoais;

iii) por fim, precisamos reabilitar a relação do evangélico com o símbolo, com a imagem, visual, auditiva, gustativa, pois a idolatria nos adentra pelo tato e se aloja embaixo de nossas peles.


Esses foram os primeiros passos de uma fenomenologia da idolatria.




[1] Minhas pesquisas amadoras me mostraram que o termo se encontra no plural e que muitas vezes é utilizado nessa forma para se designar a Deus. Trata-se, já essa pequna medida linguística, como uma forma de demonstrar a superioridade de Deus (que é muitos, sendo um), em relação às demais deidades.



Pedro da Conceição colabora e escreve para o blog Cristo Urbano.


Este texto, como os das demais colunas opinativas do blog, é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente o ponto de vista dos demais colunistas ou do cristourbano.com.br.

0 comentários: