Jesus chorou.

(foto por Nilton Oliveira disponível no Unsplash).


Havia um homem chamado Lázaro que estava doente. Ele era de Betânia, do povoado de Maria e de sua irmã Marta. Maria, sua irmã, era aquela que derramou o perfume caro nos pés de Jesus, e depois enxugou-os com os cabelos. Por isso as duas irmãs mandaram um recado a Jesus, dizendo: “Senhor, o amigo que o Senhor ama está doente”. Mas quando Jesus ouviu isso, disse: “O propósito da doença dele não é a morte, mas a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por meio dessa doença”.
Jesus amava Marta, Maria e Lázaro. No entanto, ele ainda ficou mais dois dias onde estava, depois de receber notícias de que Lázaro estava doente. Só depois disso disse aos seus discípulos: “Vamos voltar para a Judeia”. Porém os discípulos disseram: “Mestre, apenas uns dias atrás os líderes judaicos tentaram apedrejar o Senhor, e assim mesmo deseja voltar para lá?” Jesus respondeu: “Há doze horas de luz do sol todos os dias, e durante cada hora do dia um homem pode andar com segurança sem tropeçar. Só à noite é que há o perigo de tropeçar, por causa da escuridão”. Depois ele disse: “Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas eu vou despertá-lo!” Seus discípulos responderam: “Senhor, se ele dorme, isto quer dizer que está bem”. Eles pensavam que Jesus falava do repouso do sono, mas, na verdade, Jesus tinha falado da morte de Lázaro. Então ele disse claramente: “Lázaro está morto. E por causa de vocês, alegro-me de que eu não estivesse lá, porque isso vai ser mais uma oportunidade para que vocês creiam. Venham, vamos até ele”. Então Tomé, apelidado de “Dídimo”, disse aos outros discípulos: “Vamos até lá para morrermos com o Mestre”. Quando eles chegaram a Betânia, disseram-lhes que Lázaro já estava no sepulcro havia quatro dias. Betânia ficava a cerca de 3 quilômetros de Jerusalém, e muitas pessoas vieram visitar e consolar Marta e Maria pela perda do irmão. Quando Marta recebeu a notícia de que Jesus estava chegando, foi ao encontro dele, porém Maria ficou em casa. Marta disse a Jesus: “Se o Senhor estivesse aqui, meu irmão não teria morrido. Porém eu sei que, mesmo assim, Deus lhe dará tudo o que o Senhor pedir a ele”. Jesus disse: “O seu irmão vai ressuscitar”. “Sim”, disse Marta, “eu sei que ele vai ressuscitar no dia da ressurreição, no último dia”. Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Todo aquele que crê em mim, mesmo que morra, viverá, e quem vive e crê em mim não morrerá eternamente. Você crê nisto, Marta?” “Sim, Senhor”, disse ela. “Eu creio que o Senhor é o Cristo, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”. Nisto ela deixou Jesus, voltou para casa, e chamando Maria separadamente, disse: “O Mestre está aqui e quer falar com você”. Então Maria levantou-se imediatamente e foi ao encontro dele. Jesus tinha ficado fora do povoado, no lugar onde Marta havia se encontrado com ele.  Quando os judeus que estavam na casa, procurando consolar Maria, viram que ela saiu depressa, pensaram que estivesse indo ao sepulcro de Lázaro para chorar; eles a seguiram. Ao chegar ao lugar onde Jesus estava, vendo-o, Maria caiu aos pés dele, dizendo: “Se o Senhor estivesse aqui, meu irmão não teria morrido”.  Quando Jesus viu Maria chorar, e os judeus também, ficou muito perturbado e comovido. “Onde ele está sepultado?”, perguntou. Eles disseram: “Venha ver, Senhor”. Jesus chorou. Então os judeus disseram: “Vejam como ele o amava”. Mas alguns deles diziam: “Ele que curou um cego, por que não pôde impedir este homem de morrer?” E outra vez Jesus ficou muito comovido. Nisso chegaram ao sepulcro. Era uma gruta, com uma pedra pesada fechando a entrada. “Tirem a pedra”, disse Jesus. Porém Marta, a irmã do morto, falou: “Mas o mau cheiro será terrível, porque ele já está morto há quatro dias”. “Eu já não disse que, se você cresse, veria a glória de Deus?” disse Jesus. Então tiraram a pedra para um lado. Foi quando Jesus levantou os olhos ao céu e disse: “Pai, graças dou ao Senhor, porque me ouviu. Eu sei que o Senhor sempre me ouve, mas eu disse isso por causa destas pessoas que se encontram aqui, para que creiam que o Senhor me enviou”. Então Jesus gritou bem alto: “Lázaro, venha para fora!” E Lázaro saiu, preso com faixas de linho nas mãos e nos pés e com o rosto envolto num pano. Jesus disse: “Desamarrem as faixas e deixem-no ir!” Assim, muitos dos judeus que estavam com Maria e viram isso acontecer creram nele!
(João, 11)


Há algumas coisas que podem nos arrastar para uma vala comum de opiniões. Essa tentação é constante porque é um caminho fácil e sem obstáculos. Mas devemos resistir e pedir ao Espírito Santo que possamos lembrar dos fortes ensinamentos em suas escrituras. 

Há algumas semanas eu acompanhei por postes em uma rede social uma jovem adoecer, piorar em seu estado de saúde e, infelizmente, falecer. Embora tenha ficado bem chocado com a velocidade dos eventos e triste pela tão tenra idade com que uma pessoa teve sua vida ceifada ante um quadro de doença Também fiquei bastante decepcionado ao ver uma boa parcela de cristãos lotarem seu perfil na mesma rede social, num primeiro momento, de respostas e mensagens vazias do tipo “ela já está curada” ou “ela vai sair daí e vai contar o testemunho”.

Existe a crença espalhada e amplamente aceita no meio evangélico de que “as palavras têm poder” e de que “o pensar positivo favorece a coisas positivas acontecerem”.
            
Senti uma certa vergonha em relação a tudo que li e vi, porque não há nada que possamos fazer além de:
1) permitir que uma pessoa tenha atendimento médico;
2) orarmos para que o Senhor, pleno soberano sobre todas as coisas, ouça e atenda nossas orações;
3) confiar que o quer que finalmente aconteça será a decisão perfeita do Senhor.
            
Eu sei que é muito delicado cada aspecto de como faremos pra nos aproximar de uma pessoa fragilizada em função de um familiar doente ou mesmo quando está enlutada, mas palavras fáceis e mentirosas não trarão o consolo que possamos entender que trará.
            
Não há forças que possam existir em nossas palavras senão aquelas que possamos ter de enfrentar num tribunal por calúnia, injúria ou difamação (ou seja, a força do desejo óbvio de ofender)... Do contrário, as palavras que dizemos, as promessas que jogamos ao ar podem se transformar em breves e sonoras mentiras, mas sem nenhuma força que altere o destino das coisas já traçadas e confirmadas por nosso Deus.
            
Dito isto, aponto a história de Lázaro, que é uma das que mais me impactam na Bíblia, para permitir que possamos aprender muito sobre a morte. E nesse contexto, é interessante notar que Jesus é uma figura às vezes de fácil compreensão e às vezes impossível de prever, entender ou sintetizar.
            
Na passagem em questão, Jesus ao ser informado que Lázaro estava doente decidiu permanecer mais dois dias num local distante do seu amigo (afinal, aquela doença não seria para morte, mas para a glória de Deus, o pai, que glorificaria o filho por meio da relação entre o próprio Jesus e a doença de Lázaro). Jesus poderia agir dentro de qualquer expectativa que fosse do que se esperaria de alguém com capacidade de curar outras pessoas, porém Jesus decide atacar a questão se afastando do comum e se aproximando exatamente daquilo que desejaria fazer desde sempre: ser glorificado por meio da reversão das consequências da doença de Lázaro.
            
Os apóstolos e discípulos podiam até cair reiteradas vezes nos conceitos comuns, mas Jesus iria tirá-los todas as vezes dessas zonas de conforto ao confrontá-los com a verdade: dizer que Lázaro estava dormindo não era uma mera força de expressão. Lázaro estava morto, mas eles iriam ver um milagre inimaginável.
            
Marta, embora soubesse do poder de Jesus tentou limitar esse poder àquilo que era sua expectativa normal para o que Jesus poderia fazer em relação a uma morte: ressuscitar pessoas, nos últimos dias. Jesus tratou de esclarecer seu papel não só para Marta ou para Lázaro, mas na história: Jesus pode ressuscitar já, incluindo aqueles que aparentem vida, mas estão mortos em pecados.

Uma primeira lição de Jesus em relação à morte:
1) a morte está subjugada a Cristo e para quem crê em Cristo a morte não é o fim.

Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Todo aquele que crê em mim, mesmo que morra, viverá, e quem vive e crê em mim não morrerá eternamente.

Em seguida, é surpreendente ver que Jesus, o homem, também está ali. Ao se deparar com um sepulcro onde seu amigo estaria depositado, sem vida, e com o choro de Maria irmã de Lázaro, Jesus é tomado por um nível de uma perturbação tal que chega a chorar, de acordo com a descrição do que pretende ser o menor versículo bíblico.

A segunda lição de Jesus em relação à morte:
2) a morte como um fim momentâneo de conexão entre seres humanos é motivo suficiente para que possamos nos envolver com as emoções e os sentimentos legítimos destes momentos.

Quando Jesus viu Maria chorar, e os judeus também, ficou muito perturbado e comovido. “Onde ele está sepultado?”, perguntou. Eles disseram: “Venha ver, Senhor”. Jesus chorou. Então os judeus disseram: “Vejam como ele o amava”.

É curioso como funciona a ordem dos fatos: Jesus permite que Lázaro morra, mesmo após saber da gravidade da doença dele (ao invés de correr para o local onde Lázaro estava e curá-lo a tempo de evitar sua morte); Jesus revela que vai ressuscitar Lázaro (primeiro aos seus discípulos e depois às irmãs de Lázaro, Marta e Maria) e finalmente, não se contém ao ver o sepulcro de seu amigo ao expressar uma dor em choro mesmo tendo dito que o ressuscitaria.

Terceira e última lição que eu retiro dessa interação de Jesus com a morte:
3) agradecer a Deus por qualquer decisão e ação que ele realize por meio da morte, porque ainda que Ele nos ouça a sua soberania conduz todas as coisas.

Foi quando Jesus levantou os olhos ao céu e disse: “Pai, graças dou ao Senhor, porque me ouviu. Eu sei que o Senhor sempre me ouve, mas eu disse isso por causa destas pessoas que se encontram aqui, para que creiam que o Senhor me enviou”.

A ressureição de Cristo é o fundamento mais importante do cristianismo. Se não há fé que Cristo ressuscitou temos uma filosofia de vida tão banal quanto outras e não uma religião que nos afasta de nós mesmos e de nossos pecados. A morte de nossos parentes e amigos são eventos que ameaçam nos desestruturar dependendo das circunstâncias (idade da pessoa morte, velocidade com que a causa da morte realizou seu efeito mortal, entre outros).

Jesus prenunciou com a morte e ressureição de Lázaro o que significaria a principal morte e ressureição no cristianismo: a do próprio Cristo. A morte não teria vitória sobre aquele que jamais pecou.

Todos nós merecemos a morte, mas Jesus nos reconciliou com a vida, nos reconciliou consigo mesmo (Rm 3:23 e 1 Co 15:21).

Se alguém estiver muito doente ao seu redor saiba que aquela vida está sob todo o poder de Deus. Saiba que Deus não irá fazer o que você exigir dEle, mas Ele ouve nossa oração e atende nossos pedidos melhor do que uma mãe ou pai atenderia aos pedidos de seus próprios filhos (Is 49:15). 

Ore por quem está doente, se preocupe com o familiar que está comprometido com o doente. Caso este mesmo alguém venha a falecer saiba que chorar com os que choram é bíblico (Rm 12:15) e como os versículos acima indicaram, mesmo o próprio Jesus se permitiu emocionar com a perda mortal e momentânea de seu amigo. 

Consolar a família e orar pelo consolo espiritual desta família é entender o que acontece quando os eventos são recentes. Lembre-se: não estaremos aqui para sempre, este não é nosso lar e não temos a Terra como nosso destino definitivo (Fp 3:20 e Jo 14:1-3). A fé que mantemos em Cristo que seremos restaurados deve ser suficiente para em tempo oportuno nos tirar de qualquer luto (Jó 19:25-26 e II Sm 12:20-23).

É páscoa, Jesus ressuscitou! Maranata, ora vem, Senhor Jesus!



Oséias Feitosa-Junior mantém e escreve para o blog Cristo Urbano.



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