Cristianismo da Real

(imagem livre/fonte: Pexels).
Tenho acompanhado há algum tempo a página @startupdareal (Twitter | Medium). Basicamente essa página surge de uma crítica ao “teatro empreendedor” que se estabeleceu no mundo corporativo, estritamente no ambiente relacionado à startups, negócios digitais ou de base tecnológica. O objetivo da página é expor e problematizar situações, comentários e estigmas que existem neste mundo, revelando suas contradições e seus discursos inócuos. Assuntos como produtividade, mediocridade, educação e sucesso fazem parte do léxico crítico da página. Recomendo fortemente a leitura desses textos.

O problema que existe no “teatro empreendedor” é que se vendem métodos e promessas milagrosas que irão revolucionar a sua empresa (ou a sua vida), de uma forma fácil, não-especializada e totalmente irresponsável. Uma espécie de gnosticismo startupeiro que oferece uma narrativa abstrata de sucesso às custas da fé dos recém-iniciados. Estes, por sua vez, são atraídos pela sua ganância e pelo seu projeto de uma realidade paralela e falsa para si mesmos. Na lógica startupeira, mais do que “ser rico” ou “ser alguém de sucesso”, investe-se em manter a aparência de poder e se afirmar acima dos possíveis pequenos-leads-empreendedores. O que se deseja é uma vida fácil, através de um método X de regras que irá trazer retornos Y ao esforço mínimo. Essa fórmula não é restrita ao teatro do empreendedorismo de palco e está também nas pirâmides financeiras, no funk ostentação e até nas igrejas, infelizmente.

Do lado de cá, o cristianismo de palco também faz seus adeptos. Líderes bradam em seus púlpitos que a mudança de vida chegou e que você também pode experimentá-la. Mas não é a boa notícia do evangelho da graça de Deus que chegou, e sim a notícia de que você vai ser muito importante e revolucionar o mundo. “A sua geração irá mudar a história”, já dizia o pastor em um acampamento de jovens. Assim, a forma para comprovar a mudança de vida prometida é a experiência de uma vida extraordinária e ambiciosa diante de Deus, e ai daqueles que se levantam contra o seu projeto pessoal de vida. Este torna a divindade apenas um meio para um fim: eles mesmos.
                      
O que parece é que, seja no “teatro empreendedor” ou na igreja, o que está em jogo é o sucesso pessoal. O meio, seja lá qual for, é somente um artifício religioso que levará os “fiéis” ao fim desejado. A isca de ambos contextos é a ganância de um coração sedento por poder e atenção que busca se realizar em si mesmo. Qualquer crítica ou problematização é facilmente levada como um discurso de perdedor que deve ser descartado.

Timothy Keller, em seu livro “Deuses falsos”, fala sobre o problema da sedução do sucesso. Ele cita a experiência da cantora Madonna e diz que para ela o sucesso é “como uma droga que dá um senso de importância e dignidade”, ainda que o efeito passe tão rápido e que precise de novas e novas doses. 

Outro autor, Michael Horton, trata em seu livro “Simplesmente Crente”, sobre a “realização pessoal sendo valorizada como um fim em si mesmo”. Para ele, é mais importante a realização pessoal em si do que os meios que levam até ela. Sob o refrão “Seja extraordinário!”, pouco importa como, mas se a realização de algo extraordinário irá existir. Nessa droga viciante, os não contemplados com a iluminação do sucesso são lançados na espiral da frustração, na qual qualquer “ministério” ou “pastor famoso” que aparece na linha do tempo do Instagram é motivo para gerar descontentamento e inquietação.

Minha perspectiva é que esta cultura é altamente nociva dentro das comunidades cristãs. Vende-se um tipo de deus que atenda as expectativas dos fiéis e permita a eles a sensação viciante de que estão muito bem em seu caminho e que ninguém pode se opor a eles. Essa sensação não é um contentamento, muito menos o contentamento bíblico, nem uma vida diante da graça de Deus, mas sim uma droga que anestesia qualquer vislumbre real da sua condição de pecador. Não há muito espaço para confissão, arrependimento, falhas, limites e dificuldades na droga do sucesso evangélico. Se isso existe, é um mero ritualismo desnecessário que camufla os reais interesses de ser “a próxima grande coisa” (expressão citada por Michael Horton).

Diante disso, é preciso que lutemos por um “Cristianismo da Real”, que nada mais é do que uma visão coerente com a história de muitos homens e mulheres da Bíblia, bem como com a história do próprio Cristo. Todos esses experimentaram uma vida de fracassos e dificuldades, aos padrões de seu tempo, e não obstante, muitos padeceram por causa dessas situações. Não se vislumbrou um ministério bem-sucedido, com muitos livros, músicas e pregações chocantes. O serviço de todos eles foi bem ordinário e essa é a palavra chave aqui.

Na simplicidade do cumprimento do chamado pessoal de cada cristão e cristã reside um poder que não está sobre o seu próprio controle, e é esse poder que garante o sucesso da missão. O cristianismo da real baseia-se na ideia de que a rejeição ao sucesso deste mundo é condição necessária para o sucesso do outro mundo, o reino de Deus. Por isso, devemos parar de prometer e de perseguir um sucesso que não é o nosso fim principal.

Uma das questões que mais ocupava a mente dos reformadores e posteriormente dos puritanos era sobre a sua condição diante de Deus. Isso é importante aqui, pois será que “uma vida de sucesso” é realmente o propósito da vida cristã? Se sou salvo dos meus pecados por causa da obra de Cristo, se recebi o Espírito de Deus e o novo nascimento, daqui pra frente, como devo viver? Como glorificar a Deus? Qual é o meu propósito principal?

A resposta, bem conhecida por muitos, encabeça grande parte dos catecismos resultantes da Reforma Protestante. Qual é o propósito principal do homem e da mulher? Glorificar a Deus e ter prazer nele para sempre (3). Por quê eles glorificam a Deus? Pois foram criados para isso (4). De agora em diante, qual a esperança que devem ter? De que não pertencem mais a si mesmos, ou seja, a sua vida agora depende de Cristo (5).

Todas essas afirmações lançam luz contra o imperativo do sucesso como um fim em si mesmo. O nosso propósito não é ser “a próxima grande coisa” ou ter o ministério mais bem sucedido que já existiu. Somos chamados para glorificar a Deus em nossas vidas, ainda que imperfeitas e frágeis, lembrando que o poder de Deus se aperfeiçoa em nossa fraqueza e o propósito da nossa vida não é fazer sucesso ou persegui-lo, mas sim ter sucesso no cumprimento da nossa missão de glorificar a Deus.

O cristianismo da real rejeita qualquer sucesso pessoal a fim de que a glória esteja em quem realmente merece. Dessa forma, as provações não são evitadas e rejeitadas por causa de um discurso de sucesso a qualquer preço, mas compreendidas, ainda que parcialmente. Nosso alvo como cristãos deixa de ser uma vida extraordinária em nós mesmos e passa a ser uma vida ordinária para a glória de Deus, é isso que realmente importa.

1 - KELLER, T. Deuses falsos. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2016. Timothy Keller trata nesse livro sobre a idolatria e as suas manifestações mais contemporâneas. Recomendo a leitura do capítulo 7, A sedução do sucesso, que trata do sucesso na história bíblica de Naamã (2 Re 5).
2 - HORTON, M. Simplesmente Crente. São José dos Campos: Fiel, 2016. Recomendo a leitura deste livro todo. A problematização que usei como base nesse texto  vem das teses centrais dessa obra.
3 - Breve Catecismo de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
4 - VIRET, P. Catecismo de Pierre Viret. Brasília: Monergismo, 2018.
5 - Heidelberg Cathecism. Cleveland: Central Publishing House, 1907.

João Vinícius colabora e escreve para o blog Cristo urbano. 

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