Não se faz uma coisa dessas em Israel


(wiki: representação do estupro, por Eustache Le Seuer/1640).



1. Absalão, filho de Davi, tinha uma irmã chamada Tamar. Amnom, outro filho de Davi, que era irmão dela por parte de pai, apaixonou-se por Tamar, porque ela era muito bonita.
2. Essa paixão era tão forte que ele ficou angustiado a ponto de adoecer. Como ela era virgem, parecia-lhe impossível fazer alguma coisa para aproximar-se dela.
3. Mas Amnom tinha um amigo muito esperto, que era o seu primo Jonadabe, filho de Simeia, irmão de Davi.
4. Um dia, Jonadabe perguntou a Amnom: “Filho do rei, qual é o seu problema? Por que você está assim tão abatido? Você não quer me contar o que está acontecendo?” E Amnom disse a Jonadabe: “Eu me apaixonei por Tamar, irmã do meu irmão Absalão”.
5. “Bem”, respondeu Jonadabe, “vou dizer­lhe como resolver o problema: Vol­te para a sua cama, deite-se e finja que você está doente; quando seu pai Davi vier aqui visitá-lo, diga a ele: Peço ao senhor que minha irmã Tamar venha preparar a minha comida aqui mesmo e me dê de comer. Eu me sentirei melhor se for alimentado pelas mãos de minha irmã Tamar”.
6. Amnom aceitou a ideia, deitou-se e fingiu que estava doente. Quando o rei veio visitá-lo, Amnom lhe disse: “Meu pai, peço só um favor do senhor: Eu gostaria que minha irmã Tamar viesse e preparasse dois bolos onde eu possa vê-la, e que ela mesma os sirva para mim”.
7. Davi atendeu a esse pedido e deu ordens para que Tamar fosse à casa de Amnom e lhe preparasse o alimento.
8. Assim ela foi ao quarto de Amnom, que estava deitado, e diante dele misturou a farinha, preparou a massa e assou os bolos especiais para Amnom.
9. Mas quando ela trouxe os bolos, ele se recusou a comer! “Saiam todos do meu quarto”, disse ele aos criados que o serviam. Depois que todos saíram,
10. ele disse a Tamar: “Agora traga os bolos ao meu quarto; quero comê-los das suas próprias mãos”. Tamar obedeceu.
11. Mas assim que ela tomou os bolos e se pôs ao lado da cama de Amnom, ele a agarrou e disse: “Venha, irmã, deite-se comigo”.
12. “Não, meu irmão”, exclamou Tamar. “Não faça isso comigo! Não se faz uma coisa dessas em Israel! Não faça essa loucura!
13. O que faria eu depois diante de tanta desgraça? E você cairia em completa desgraça diante de Israel! Por favor, fale com o rei primeiro, e ele lhe dará permissão para casar comigo”.
14. Mas Amnom não quis atendê-la; e como era mais forte, agarrou-a e obrigou-a a deitar-se com ele.
15. Logo depois, Amnom sentiu aversão por ela. Aquela grande paixão se transformou em ódio profundo. “Fora daqui!”, gritou para ela.
16. “Não, meu irmão; por favor, não!”, respondeu ela. “Mandar-me embora agora seria um mal maior do que aquele que cometeu comigo”. Mas ele não quis ouvi-la.
17. Ele chamou um dos seus empregados e disse a ele: “Ponha esta mulher para fora daqui e feche a porta atrás dela!”
18. Assim ela foi posta para fora da casa de Amnom e o empregado fechou a porta. Tamar vestia uma túnica longa de mangas compridas, como se vestiam naqueles dias as filhas virgens do rei.
19. Em grande desespero, ela rasgou a sua túnica e colocou cinzas sobre a sua cabeça em sinal de tristeza; e com as mãos na cabeça saiu chorando em alta voz, angustiada.
20. Seu irmão Absalão a encontrou e perguntou: “É verdade que Amnom se apaixonou por você e é de lá que você vem em tão grande aflição? É melhor você ficar quieta, pois Amnom é seu irmão. Não fique aflita por isso!” Então Tamar, como uma mulher desolada, passou a morar na casa de seu ir­mão Absalão.
21. O rei Davi ficou muito indignado quando soube o que aconteceu entre Ta­mar e Amnom.
22. Mas Absalão ficou calado e nada disse a Amnom, nem bem, nem mal, embora guardasse em seu coração um ódio mui­to grande pelo seu irmão, pelo mal que havia feito à sua irmã Tamar.
(2 Samuel, 13)

Um caso recente de estupro me comoveu bastante, mas não chamou tanto a atenção da opinião pública. Sinal dos tempos, que nossa sociedade cada vez mais naturaliza ou banaliza alguns tipos de crime.

Numa certa noite, dois andarilhos batem numa república de estudantes feminina e pedem comida. Após dizerem que não tinham, uma das jovens se propõe a fazer comida para os andarilhos. Eles aceitam, esperam, pegam a comida e vão embora. 

Voltam durante a madrugada, invadem a república, entram num dos quartos e atacam justamente a jovem que havia lhes oferecido comida. O primeiro dos indivíduos chega a cometer o estupro. As demais jovens, que ouvem toda a situação, acuadas e trancadas em seus quartos, chamam a polícia, que chega a tempo suficiente para impedir que o segundo dos abusadores cometesse também o estupro.

O detalhe.
Na matéria que detalhou esse crime há um relato da vítima contando que tentou convencer os abusadores lembrando que ela havia ajudado eles:

"Durante as agressões que sofria do indivíduo ela falou: não faça isso comigo, eu te alimentei há pouco. E ele pegou e falou: oh, mas é por isso mesmo que eu te quero, eu vim aqui para ficar com você, você é uma menina muito gentil, muito legal."
Vítimas, Tamar e a estudante (descrita brevemente nos parágrafos anteriores), tentaram como última e extrema medida convencer seus algozes com alguma moral que pudesse ainda estar presente em suas mentes. Em vão.

O enredo do relato bíblico.
Amnom era membro da família real e (por ser o primogênito) virtual candidato a suceder ao rei Davi. Nascido num ambiente privilegiado (em relação às demais pessoas da sociedade de sua época), teve acesso a formação religiosa e luxos de sua época, sem as restrições de muitos dos seus plebeus contemporâneos. Por outro lado, era filho de um rei, que apesar de habitualmente reconhecer suas falhas, cometeu inúmeros crimes que em algum grau influenciaram na formação dos seus inúmeros filhos, incluindo o próprio Amnom. Mas, no caso do que é relatado no livro de 2 Samuel, Amnom ouviu seu primo, lhe agradou a ideia perversa e ele mesmo colocou em prática todo o plano. Se sobrepôs a qualquer objeção às suas intenções, encorajado por sua posição social e força bruta. Davi, embora a bíblia relate seu profundo desgosto, nada fez para punir seu filho mais velho após ter sabido do crime que ocorreu. A falta de justiça (do estado) na sociedade dá brechas para o surgimento daqueles que pensam ter direito de reivindicar restituição sobre pessoas assassinadas ou bens perdidos.  Na história bíblica, Absalão, irmão de Tamar executou, então, um plano de vingança: matou Amnom.

Pouco ou nada se sabe dos andarilhos que abusaram a jovem em Ituverava, mas é provável que sejam frutos de lares totalmente desestruturados. Condições múltiplas podem estar relacionadas com a relativização das noções de certo e errado no caráter dos personagens aqui descritos. Indivíduos que são formados fora de ambientes de uma família e dos limites civilizatórios do estado são mais permissivos, mais tolerantes com ações erradas, bizarras ou mesmo criminosas. O poder do Espírito Santo é o único meio de convencer o homem do pecado e reverter esse destino.

As duas histórias aqui apontadas, somadas a tantos outros casos de estupros que assistimos na mídia, nos mostram que abismos temporais e sociais podem não ser suficientes para impedir que planos perversos floresçam, ganhem corpo e sejam praticados.

O clamor por justiça dessas “mulheres sem rosto” resiste. Seja um caso de 3 mil anos atrás num ou agora em nosso próprio solo. Mulheres que clamam por alguma razão e lucidez em mentes de pessoas que estão tomadas de más intenções.

Um outro aspecto dessa história e não menos importante é a aura de candura que pessoas progressistas revestem pessoas muito pobres ou miseráveis. Muitos dos que pensam assim compartilham da nossa comunhão nas igrejas. Talvez você, leitor, seja um destes. Extrapolam os conceitos extraídos das situações em que Jesus expôs ricos idólatras do dinheiro e pobres que tinham prazer (como um tesouro) na lei do Senhor, como se todos os pobres fossem iminentemente mais genuínos no seu amor, essencialmente boas pessoas, apenas desprovidas de oportunidade. Cuidado.

Outros casos recentes e chocantes.
Logo após o incêndio e queda de um prédio no centro da cidade de São Paulo, pipocaram no facebook o poste de um usuário que teve uma experiência com um morador de rua que resistia à própria vontade de pegar uma caixa de leite distribuída aos desabrigados da tragédia. Muitos compartilhamentos. A cada compartilhamento uma sensação e manifestação superficial de que aquele é um exemplo de que existam bons corações na gente pobre. Aparentemente, simplesmente por serem pobres.

A bíblia nos ensina incessantemente a não nos enganarmos com o julgamento que fazemos de nós mesmos. Não somos bons. Não há nada em nós digno de que o Senhor reparasse e concluísse como merecimento pela nossa salvação. Pelo contrário. Somos salvos sem merecer.


Uma das obras do escritor português José Saramago, ensaio sobre a cegueira, exercita um trabalho de predição do que aconteceria caso uma epidemia causasse cegueira de proporções mundiais, exceto por uma pessoa, esta passaria todo o tempo percebendo a barbárie e  as atitudes bizarras e animalescas das pessoas. É interessante como esse autor trabalha com a ideia que muitas pessoas da nossa sociedade estão pouco distantes de agir como aqueles que mais odeiam ou consideram monstros.

Uma percepção óbvia.
A sociedade brasileira está profundamente dividida. Não há novidade nessa afirmação. Mas cabe dizer que parte dessa sensação de divisão é percebida e medida das reações e manifestações no facebook: o novo ambiente público de debate (com todas as suas limitações e revoluções). Um lado enxerga morte, mesmo que de criminosos como efeito colateral de suas ações criminosas, uma lástima numa sociedade em níveis de civilidade e de mortalidade como as dos nossos dias. Do outro, há um desejo e clamor de que os cidadãos, que mesmo em suas dificuldades lutam dia-a-dia para adotar e seguir padrões morais, sejam preservados de indivíduos à margem da lei e da ordem.

Vale destacar aqui, que há um consenso de que a segurança será o tema que poderá definir as eleições presidenciais deste ano.

Um caminho pela Bíblia.
Vários são os salmos (1, 19, 119) que refletem o prazer que os salmistas sentiam nos mandamentos, nas leis e nas ordens estabelecidas para o povo de Israel e nas suas consequências para as suas vidas.

Por outro lado, o mote de muitos círculos dos nossos dias (de sociedade pós moderna) é o: “é proibido proibir”. Os mandamentos, as regras, as leis e qualquer ordenamento são francamente questionados, desacreditados e desqualificados. Muitos jovens pródigos parecem querer “reinventar a roda”, pois questionar o que está em voga, estabelecido parece ser mais inteligente do que seguir o que está posto. Mas as consequências surgem e ressurgem no nosso e é cada lamentação que fazemos dos males que nos circundam.

A cinegrafia como fonte de comparação.
Lembro de uma cena do filme “12 anos de escravidão” onde o personagem principal, um negro livre, numa época ainda de escravidão nos EUA, é raptado no norte do país para ser escravizado num dos estados do sul. Então, dentro do barco que o levava tenta elaborar um plano junto com outros que estão descontentes com aquela situação, mas é desencorajado pelos demais porque mesmo sendo maioria, vários dos que ali estavam eram acostumado com a situação de escravidão, pois era a realidade de sempre das suas vidas. Assim vejo nossa sociedade brasileira (sem pretensão de estar vendo algo que muitos outros já não tenham visto). A banalização da violência e das desculpas do porquê uma pessoa pode se tornar um marginal formata as mentes e corações de muitos e deriva que nós deveríamos nos habituar e nos conformar com um mundo caótico. Policiais são caçados por bandidos e mortos sem qualquer chance de defesa. Assaltos, ferimentos a bala e latrocínios estão em índices tão ou mais altos que regiões chagadas por guerras que, por vezes, achamos absurdas e distantes das nossas vidas no Brasil.

Minha conclusão.
Uma coisa parece certa nos corações daqueles que leem a bíblia sem tergiversar ou escolher entre os textos que agrade nosso próprio gosto: Deus é justiça. É justiça aplicada a todos os que se negam a reconhecer os deleites que decorrem e o prazer que trazem os mandamentos, as leis e as ordenanças do Senhor. É difícil reduzir a aspectos biológicos e de conservação de uma espécie os sistemas e códigos sob os quais todas as sociedades humanas estão organizadas. Mas é provável que esses aspectos sejam parte da explicação de que a maioria das pessoas se sinta resignada a cumprir as leis. Por outro lado, muitos acreditam na força dos valores morais e éticos mais primitivos presentes em todas as sociedades (como afirmava C. S. Lewis) e como uma ligação, um fio condutor com Deus. O principal mandamento é o amor. Amor que nos ajuda a perceber que devemos respeitar nosso semelhante, amor que nos comove com a misericórdia do Senhor para conosco. Mas um amor por Deus acima de tudo que não nos constrange, nem nos envergonha com sua justiça manifesta. Deus não nos salvou por merecermos, pois merecíamos a morte (“pois o salário do pecado é a morte”, Rm 6:23). Mas a cada um que morre em decorrência de uma atitude criminosa, morre dentro dos limites do risco que assumiu correr ao praticar atos tão absurdos e em função do julgamento que não escaparia a cada um de nós não fosse o sacrifício de Jesus naquela maldita, mas necessária cruz. A Bíblia nos ensina a respeitar as autoridades constituídas (Rm 13) (pois nada escapa aos desígnios e vontade de Deus e sua vontade soberana acontece por meio deste entes falhos e limitados) e isso também deve se aplicar à justiça aplicada por essas autoridades em oposição aos nossos desejos legítimos e pessoais de vingança. A policial que salvou vidas ao se arriscar a enfrentar um bandido, que colocou as vidas de mães e suas crianças, executou justiça (pois agiu dentro do que está na lei) e legítima defesa (como cidadã, em proporcional medida e sem a intenção de realizar uma execução sumária). O marginal, por sua vez, sofreu consequências imediatas de sua insensatez. Muitos de nós estão a pontos de cometer atos insanos e inconsequentes e muitas vezes é o Senhor que produz o fruto do espírito em nós nos ensinando a ter domínio próprio e não permitir que nos tornemos os monstros do amanhã. Não há comemoração na morte de marginais, nem afirmação de que este ou aquele delinquente está condenado no inferno. Mas a justiça do Senhor que atua através de um estado de acordo com aquilo que está nas escrituras é correta e desejável.

Minha oração é para que possamos entender o amor de Deus através da sua justiça soberana. Também que o fato dele nos manter fiéis não nos permita esquecer o quanto não somos merecedores da sua graça e misericórdia.

Amém!

Oséias Feitosa-Junior mantém e escreve para o blog Cristo Urbano.



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